Casamento Yduqs (YDUQ3) e Afya (AFYA) agrada bancões, que apontam onde está o ganho — e o risco — da fusão
Como esperado pelo mercado, a Afya (AFYA) e a Yduqs (YDUQ3) anunciaram a fusão, resultando em uma gigante do ensino superior no Brasil. O consenso entre os analistas é de que a operação é favorável para a Yduqs ao olhar as sinergias, o ganho operacional e o potencial de distribuição de dividendos. A ação, na máxima, chegou a subir 2,67% (R$ 11,15) no Ibovespa (IBOV).
No entanto, alguns pontos ficam no radar, como a forte concentração de operações em algumas cidades, mas não de forma nacional, e o crescimento mais lento da Afya recentemente.
No comunicado ao mercado, as empresas informam que os acionistas da Afya vão deter 69% da nova companhia combinada, enquanto os atuais acionistas da Yduqs ficam com os outros 31%.
Segundo a empresa, a fusão irá reunir cerca de 1,6 milhão de estudantes (sendo 38 mil alunos de medicina), em 176 campi em todo o país, com ganhos de sinergias de até R$ 2 bilhões.
A operação ainda depende de aprovações, entre elas a do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Por volta das 11h54 (horário de Brasília), YDUQ3 subia 1,67% (R$ 11,03). No Nasdaq, AFYA operava em queda de 0,55%, a US$ 13,51.
Captura de sinergias
Na avaliação do Itaú BBA, a proposta de fusão entre Afya e Yduqs faz sentido do ponto de vista estratégico, principalmente pela complementaridade dos negócios das duas companhias. Enquanto a Afya tem foco em educação médica, a Yduqs possui um portfólio mais amplo de ensino superior, o que resultaria na criação de uma das maiores plataformas educacionais do país.
O banco de investimentos afirma que a companhia combinada passaria a reunir mais de 5.900 vagas de medicina autorizadas, além de ganhar escala operacional, potencial de redução de custos e oportunidades de sinergias comerciais.
Contudo, a concentração de vagas em alguns mercados regionais pode atrair um escrutínio maior dos órgãos reguladores, observa.
Em relação aos termos financeiros da operação, os analistas consideram que a estrutura negociada está amplamente alinhada aos valores de mercado atuais das duas empresas. Pelos cálculos do banco, a parcela destinada aos acionistas da Yduqs representa um valor cerca de 6% superior à atual capitalização de mercado da companhia, mesmo antes da incorporação das sinergias projetadas pela fusão.
Para o BBA, entretanto, é justamente a captura de sinergias que representa a principal fonte de criação de valor da transação. Afya e Yduqs estimam ganhos entre R$ 2 bilhões e R$ 2,2 bilhões em valor presente líquido, já descontados os efeitos negativos esperados.
Considerando o ponto médio dessa projeção, os analistas calculam um potencial de valorização implícito de cerca de 30% para os acionistas da Yduqs e de 21% para os da Afya em relação aos valores de mercado atuais.
Dividendos no radar
Para o Banco Safra, a fusão entre Afya e Yduqs tem uma lógica estratégica da operação sólida, especialmente pela possibilidade de ampliar a exposição a negócios considerados mais rentáveis, como educação médica, educação continuada e o Ibmec.
A expectativa, segundo o banco, é que a empresa combinada tenha um perfil mais premium, com a maior parte do resultado operacional concentrada em segmentos de maior valor agregado.
Outro ponto positivo destacado pelo Safra é o potencial de geração de sinergias. No relatório, a instituição estima que cerca de 80% dessas sinergias devem ser capturadas nos três primeiros anos após a conclusão da fusão.
Em termos financeiros, o banco calcula que a relação de troca acertada entre as empresas, somada aos dividendos previstos até o fechamento da operação, implica um potencial de valorização de cerca de 6% para os acionistas da Yduqs em relação aos da Afya.
O banco também vê como um fator favorável a intenção apresentada pela Yduqs de distribuir pelo menos 50% do lucro líquido na forma de dividendos.
O Safra tem recomendação de compra para Yduqs, com preço-alvo de R$ 15, o que implica um potencial de valorização de 38%.
Cade e desempenho da Afya
O JP Morgan reiterou recomendação outperform (equivalente à compra) para a Yduqs e manteve o preço-alvo de R$ 15 por ação para a companhia de forma independente, avaliando que a fusão com a Afya tem potencial para criar uma das plataformas de educação premium mais relevantes do país.
Na visão do banco, um dos fatores mais favoráveis aos acionistas da Yduqs é a forte geração de caixa prevista até a conclusão da operação.
Pelos cálculos dos analistas, os dividendos e demais distribuições previstos antes do fechamento da transação garantem uma vantagem econômica para os investidores da companhia brasileira.
Considerando um prazo de 12 meses para a conclusão do negócio, o JP Morgan estima que os acionistas da Yduqs receberiam um valor equivalente a cerca de 6% acima da atual capitalização de mercado da empresa, enquanto os acionistas da Afya ficariam aproximadamente 3% abaixo desse patamar.
Segundo os analistas, esses negócios de maior valor agregado responderiam por 55% da receita total e por mais de dois terços do Ebitda da nova companhia, favorecendo margens mais elevadas e maior conversão de caixa.
O JP Morgan calcula que, sem as sinergias da fusão, a operação geraria uma diluição de aproximadamente 25% no lucro por ação da Yduqs projetado para 2027. Com a captura integral dos ganhos prometidos, entretanto, essa diluição cairia para algo entre 12% e 13%, reduzindo significativamente o efeito negativo da combinação para os acionistas.
O banco também observa que a estrutura acionária da nova companhia deixará a Bertelsmann, controladora da Afya, com participação de cerca de 47% e poder para indicar a maioria do conselho de administração. O atual CEO da Afya deverá comandar a empresa combinada, enquanto os principais acionistas da Yduqs permanecerão representados no conselho.
Em relação aos riscos, o JP Morgan avalia que as principais preocupações concorrenciais estão concentradas em mercados locais, e não em âmbito nacional. As maiores sobreposições de operações ocorrem em Ji-Paraná (RO), Rio de Janeiro (RJ) e Teresina (PI). Embora o banco não veja eventuais desinvestimentos como uma ameaça relevante à lógica da fusão, ressalta que a aprovação pelo Cade continua sendo um fator de risco para o cronograma da operação.
Outro ponto de atenção levantado pelos analistas é o desempenho recente da Afya. O JP Morgan destaca que o crescimento mais lento apresentado pela companhia no segundo trimestre de 2026 merece acompanhamento, dada a relevância que a empresa terá para os resultados da companhia combinada.