Giro do Mercado

Copom alivia o tom, mas não mostra pressa para voltar a cortar juros, avalia EQI

04 nov 2026, 19:49

O Banco Central adotou um tom mais dovish — ou seja, mais flexível em relação aos juros — no comunicado desta quarta-feira (4), na avaliação de Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos. Ainda assim, a leitura do economista é que o Copom deve prolongar a pausa nos cortes da Selic, mantida em 13,75% ao ano.

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Em participação no Giro do Mercado especial de Copom, do Money Times, Kautz afirmou que o documento preservou espaço para diferentes decisões adiante. A ênfase na desaceleração da atividade e a avaliação de que a política monetária já está substancialmente contracionista sugerem, segundo ele, cria uma resistência maior a voltar a subir os juros.

“Eles fizeram uma parada, mas a barra para subir juros parece bastante alta”, afirmou.

O economista também destacou a retirada do trecho que dizia que a magnitude total do ciclo de cortes seria definida à luz de novas informações. Para ele, a mudança indica que o BC pretende esperar antes de decidir seu próximo movimento.

“A ausência dessa frase me sugere que a gente não tem pressa para retomar o ciclo de corte de juros”, disse.

Inflação: a revisão foi de 3,1% para 3,5%

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A alta da projeção de inflação do Banco Central justificou a interrupção dos cortes, na avaliação de Kautz. Mas o economista chama a atenção para um detalhe: a comparação entre os números precisa considerar a mudança do horizonte relevante da política monetária.

Na reunião anterior, a projeção de 3,2% se referia ao primeiro trimestre de 2028. Agora, o horizonte passou para o segundo trimestre daquele ano, para o qual o BC projeta 3,5%.

Segundo Kautz, a estimativa anterior para esse mesmo segundo trimestre era de 3,1%. Portanto, na comparação entre períodos equivalentes, a revisão foi de 0,4 ponto percentual.

“Cortar os juros numa projeção tão diferente em relação ao centro da meta, que é 3%, e tendo subido em relação à projeção anterior, acho que não faria o menor sentido”, afirmou.

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Apesar disso, o economista avalia que o comunicado atribuiu peso importante aos choques de oferta, especialmente à alta do petróleo. Essa leitura ajuda a explicar por que ele considerou a comunicação mais flexível, já que uma reversão do choque poderia reduzir novamente a projeção de inflação.

Na hipótese de uma resolução do conflito no Oriente Médio e de um retorno do petróleo para perto de US$ 90 por barril, Kautz vê espaço para uma queda da estimativa do BC na próxima reunião.

O contraponto está nas expectativas de inflação. Caso as projeções do Focus continuem subindo, a deterioração pode compensar o alívio vindo do petróleo e dificultar a convergência à meta.

O que esperar da ata do Copom

Para a ata, Kautz gostaria de encontrar mais detalhes sobre como o Banco Central avalia a depreciação do real e a desancoragem das expectativas de inflação.

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Na leitura do economista, o comunicado concentrou a explicação da piora do cenário nos choques de oferta, deixando menos explícita a avaliação sobre o câmbio.

“Acho que um detalhamento, uma explicação maior, seria interessante nesse sentido”, afirmou.

Ao mesmo tempo, ele pondera que o próprio BC pode estar enfrentando dificuldades para definir os próximos passos diante das incertezas externas e domésticas. Por isso, a ata pode preservar a flexibilidade do comunicado, sem assumir compromissos com a trajetória dos juros.

Até dezembro, Kautz considera que as sinalizações fiscais do governo terão papel central, sobretudo por seus efeitos sobre o câmbio e as expectativas. Para ele, o mercado espera a definição de quem comandará o Ministério da Fazenda e medidas concretas que permitam avaliar o impacto sobre as contas públicas.

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“Simplesmente uma carta de intenções, um discurso de intenções, acho que é um compromisso fraco ainda”, disse.

Nos indicadores, a atenção estará principalmente na inflação de serviços e nos núcleos, medidas que ajudam a identificar pressões mais persistentes. Uma aceleração desses componentes aumentaria o desconforto do BC, mesmo que o governo conseguisse reduzir parte da preocupação fiscal.

Selic parada até o fim de 2027?

O cenário da EQI Investimentos é de manutenção da Selic em 13,75% até dezembro de 2027. A projeção já havia sido revisada antes da decisão desta quarta-feira.

Segundo Kautz, um período prolongado de juros nesse patamar poderia aproximar a inflação da meta no fim de 2028, sem necessidade de novas altas.

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O economista ressalta, porém, que o comunicado não representa um compromisso do Copom com esse cenário. A combinação de crescimento mais fraco, inflação pressionada e possíveis novos choques mantém abertas as possibilidades para os juros.

“Tem uma certa humildade nesse cenário e uma baixa convicção de que realmente ele vai ficar parado por tanto tempo nesse ambiente tão volátil”, afirmou.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Já passou pelas editorias de renda fixa, FIIs, mercados e macroeconomia. Para pautas: juliana.caveiro@moneytimes.com.br
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Já passou pelas editorias de renda fixa, FIIs, mercados e macroeconomia. Para pautas: juliana.caveiro@moneytimes.com.br

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