Desenrola Fies: quem paga em dia vai ter desconto? Pressionado por bons pagadores, governo avalia medidas
O expressivo volume de adesões ao Desenrola Fies acendeu um alerta no governo e ampliou a pressão por uma reforma no sistema de cobrança do programa.
Embora o Palácio do Planalto celebre a renegociação de R$ 5,1 bilhões, o perdão de R$ 4 bilhões em dívidas expõe a fragilidade estrutural de um fundo que hoje acumula 50% de inadimplência nos contratos firmados até 2017.
A recorrência desses refinanciamentos emergenciais acirrou o sentimento de injustiça entre milhares de recém-formados que se sacrificam para manter as parcelas em dia, gerando uma onda de cobranças por bônus.
Para conter o desgaste político em ano de eleição, a equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora corre contra o tempo para criar prêmios e estímulos que beneficiem os bons pagadores.
O descompasso com quem paga em dia
A facilidade com que os descontos foram concedidos no Desenrola Fies para quem estava em atraso desencadeou uma onda de descontentamento entre os estudantes regulares, disparando mobilizações e protestos nas redes sociais por compensações financeiras.
Desenrola Fies tentou atrair bons pagadores, mas houve baixa adesão
Sob as regras atuais do programa Desenrola Fies, quem mantém as parcelas rigorosamente em dia tem direito a um desconto de 12% sobre o saldo devedor.
Entretanto, o abatimento ocorre somente se o estudante se tiver o dinheiro para fazer a quitação à vista. Isso levou à adesão de apenas 5,3 mil entre cerca de 1 milhão de alunos adimplentes.
Governo avalia estímulos
Para conter o desgaste político e responder à frustração das famílias que priorizam o pagamento da dívida, a equipe econômica confirmou que avalia criar estímulos e prêmios para quem não atrasa, mas sem comprometer a sustentabilidade do fundo.
“A pedido do presidente, o que estamos fazendo para frente é avaliar estímulos e prêmios para os adimplentes”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Um novo modelo em debate
Enquanto o governo busca alternativas, o debate nos bastidores migra para uma mudança estrutural definitiva, inspirada no sistema de crédito estudantil da Austrália.
Uma proposta defendida pelas mantenedoras de ensino superior prevê vincular o pagamento do Fies diretamente ao Imposto de Renda do profissional formado.
Pelo modelo, o recolhimento ocorreria de forma automática, direto na folha de pagamento ou integrado à declaração do IRPF, com parcelas proporcionais aos ganhos reais do trabalhador.
Dessa forma, quem passasse por um momento de desemprego ou ganhasse abaixo de um certo piso teria a cobrança suspensa temporariamente.
De qualquer modo, o assunto ainda está análise. Para quem tem contratos ativos, as regras de cobrança e as restrições de crédito em caso de atraso permanecem inalteradas.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.