Política

Dino cita Master e Reag, rejeita plano da União para CVM e cobra reforço da fiscalização

12 jun 2026, 10:58 - atualizado em 12 jun 2026, 10:58
Flávio Dino
(Imagem: REUTERS/Adriano Machado)

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, rejeitou parte do plano emergencial apresentado pela União para reestruturar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e determinou que novas metas sejam apresentadas em até cinco dias úteis.

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Na decisão, assinada nesta sexta-feira (12), o magistrado afirma que a autarquia vive uma “gravíssima crise institucional” e cita os casos envolvendo Banco Master, Reag, FIDCs e investigações sobre lavagem de dinheiro para justificar a necessidade de fortalecimento da supervisão do mercado de capitais.

A manifestação ocorre no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.791, que discute a destinação da Taxa de Fiscalização dos Mercados de Títulos e Valores Mobiliários (TFMTVM). Em maio, Dino já havia determinado que a arrecadação da taxa fosse direcionada à CVM, descontada apenas a parcela referente à Desvinculação das Receitas da União (DRU), além de exigir a apresentação de um plano emergencial para reforçar a capacidade operacional da autarquia.

Ao analisar o documento entregue pelo governo, o ministro reconheceu avanços em iniciativas ligadas à tecnologia, inteligência artificial, integração de bases de dados e supervisão preventiva. No entanto, considerou insuficientas as medidas voltadas à recomposição de pessoal e à redução do estoque de processos sancionadores.

Na decisão, Dino afirma que a situação da CVM representa um “caos administrativo” construído ao longo da última década. Segundo ele, enquanto o mercado supervisionado pela autarquia cresceu mais de 200%, alcançando cerca de 92 mil entidades reguladas e mais de R$ 18 trilhões em ativos sob supervisão, o quadro de servidores encolheu de 555 funcionários em 2015 para 478 atualmente.

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Mais do que apontar problemas administrativos, Dino associou a fragilidade da fiscalização ao avanço do crime organizado sobre estruturas do mercado financeiro. Segundo o ministro, a insuficiência operacional da CVM abriu espaço para a infiltração de organizações criminosas em segmentos regulados, incluindo fintechs, plataformas de pagamento e fundos de investimento.

Na decisão, o magistrado afirma que o problema não se limita às facções criminosas tradicionais, mas alcança também esquemas de corrupção e estruturas sofisticadas de lavagem de dinheiro. Dino cita investigações recentes que identificaram movimentações bilionárias consideradas atípicas e o uso de instrumentos do mercado de capitais para ocultação patrimonial e circulação de recursos ilícitos.

“O cenário atual é incompatível com a ordem jurídica e o combate ao crime organizado”, escreveu o ministro ao determinar que os recursos adicionais destinados à CVM sejam utilizados para reforçar a capacidade de fiscalização da autarquia.

“O cenário atual não comporta respostas meramente formais”, escreveu o ministro.

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Master, Reag, PCC e Carbono Oculto

A decisão dedica uma parte relevante à atuação do crime organizado no mercado financeiro e usa casos recentes para ilustrar as fragilidades da fiscalização da CVM.

Flávio Dino cita reportagens e investigações relacionadas às operações Carbono Oculto e Compliance Zero, além de mencionar episódios envolvendo o Banco Master, a Reag e fundos de investimento estruturados. Segundo o ministro, a insuficiência operacional da autarquia abriu espaço para a utilização de fintechs, plataformas de pagamento e FIDCs em esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.

O magistrado também reproduz referências a investigações que apontam o PCC como beneficiário indireto de movimentações financeiras realizadas por meio dessas estruturas e afirma que a crescente sofisticação das fraudes exige uma atuação mais robusta dos órgãos reguladores.

Ao abordar os casos Master e Reag, Dino menciona falhas de supervisão identificadas em processos da CVM e afirma que o episódio revelou um “apagão de supervisão” causado pela fragmentação das competências entre a CVM e o Banco Central. Para o ministro, a falta de integração entre os reguladores contribuiu para que riscos relevantes não fossem detectados a tempo.

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Diante desse cenário, a decisão reforça a necessidade de ampliar auditorias em FIDCs, fortalecer a cooperação entre órgãos de controle e aumentar a capacidade de fiscalização da CVM.

FIDCs entram no foco

Um dos pontos centrais da decisão é a preocupação com a supervisão de fundos estruturados.

Dino afirma que a utilização de FIDCs, especialmente fundos fechados e de poucos cotistas, pode criar camadas adicionais de opacidade e dificultar a identificação dos beneficiários finais das operações.

Por isso, validou medidas previstas no plano para ampliar auditorias de lastro, monitoramento da indústria de fundos e identificação das chamadas “zonas cinzentas” regulatórias.

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O ministro também apoiou a criação de um fórum permanente entre CVM e Banco Central para troca de informações e atuação coordenada em casos considerados de maior risco.

Meta rejeitada

O principal ponto de discordância foi a meta proposta pela União para reduzir em 20% o estoque de processos sancionadores da autarquia.

De acordo com o plano, a CVM pretende reduzir o volume de processos prioritários em tramitação até o fim do ano. Para Dino, porém, a proposta não condiz com a gravidade da situação enfrentada pela autarquia nem com o reforço orçamentário determinado pelo STF.

O ministro observou que o colegiado da CVM possui cerca de 160 processos pendentes, sendo 80 aguardando julgamento, além de aproximadamente 1.500 casos que ainda dependem de triagem para avaliar eventual potencial sancionador.

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Na avaliação do magistrado, uma força-tarefa financiada com recursos adicionais não pode apresentar metas inferiores ao desempenho registrado pela própria autarquia em anos anteriores.

Diante disso, determinou que a União apresente novas metas em até cinco dias úteis e defendeu a adoção de medidas mais agressivas, incluindo mutirões, horas extras, incentivos funcionais, trabalho aos fins de semana, contratações emergenciais e ampliação dos acordos de cooperação.

Para Dino, o objetivo deve ser recuperar a capacidade regulatória da CVM em um momento em que o mercado de capitais enfrenta riscos crescentes associados a fraudes, lavagem de dinheiro e estruturas financeiras cada vez mais complexas.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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