Dívidas bilionárias e encrencas na governança: Qual CSN (CSNA3) ex-Vale vai pegar?
26 anos no comando de uma das maiores empresas de mineração do Brasil, que acabaram em um fato relevante de cinco linhas. Foi assim que a CSN (CSNA3) anunciou a saída do seu controlador, Benjamin Steinbruch, da cadeira de CEO.
Não que ele vá ficar totalmente fora da empresa. O executivo irá assumir a posição de presidente do conselho. Mas, agora, o dia a dia ficará mais distante, enquanto Fabio Schvartsman terá a palavra final.
Schvartsman, ex-Vale (VALE3), terá pela frente um steinbruch, que pode ser traduzido do alemão por… pedreira. Por décadas, Benjamin conduziu a empresa com “punhos de ferro”. Controlador, em todos os sentidos da palavra, o executivo tomava decisões sem ligar muito para a opinião do mercado. Atirava primeiro, perguntava depois.
“O Benjamin sempre ficava nessa linha tênue, sempre encostado em uma alavancagem que preocupava o mercado. Ele várias vezes demonstrava sensibilidade a isso, mas acabava não fazendo os investimentos ou desacelerando os investimentos”, diz um gestor que conversou com o Money Times.
Dessa forma que levou a CSN, uma siderúrgica criada por Getúlio Vargas na década de 1940, a se transformar em uma “empresa polvo”, com vários tentáculos, entre eles a mineração de ferro e a área de cimentos. Uma gigante, sem dúvidas, mas que também teve fome de crescimento e agora paga o preço com suas altas dívidas.
A companhia encerrou o segundo trimestre com aproximadamente R$ 42 bilhões em dívida líquida e alavancagem de 3,49 vezes, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, o maior nível dos últimos cinco anos. Tudo isso em um ambiente de juros de 15%.
Veja no gráfico a seguir:

Agora, Schvartsman terá o desafio de aliviar esses números sem o temperamento de Steinbruch.
Ufa!
A saída de Steinbruch foi recebida como um alívio por parte do mercado. Mas não apenas ela. A chegada de Schvartsman também caiu bem entre analistas e investidores.
De acordo com um gestor ouvido pelo Money Times, existia o receio de que a CSN tivesse que recorrer a alguma reestruturação de suas altas dívidas. O ex-Vale afastou esse temor.
“A gente já ouviu alguns boatos, como a possibilidade de alongar ou reperfilar alguma dívida. O Fábio não é esse cara. Ele é um executivo com uma carreira longa em empresas saudáveis e negócios complexos, especialmente no setor de commodities. Acho que ele não é um executivo de reestruturação, e isso traz um alívio importante”, afirmou.
Para esse gestor, a CSN também ganha pontos em uma área que ficou fragilizada nos últimos anos: a governança. Segundo ele, Schvartsman tende a aumentar o nível de profissionalização da companhia e reduzir a percepção de que decisões estratégicas passam excessivamente pelo controlador.
“Provavelmente, ele vai trazer uma profissionalização que o Benjamin, querendo ou não, não tinha. Acho que o Fábio pode trazer essa profissionalização”, disse.
Um executivo conhecido
A experiência de Schvartsman também pesa a favor.
O executivo está longe de ser um novato: possui mais de 30 anos de carreira e passou por empresas como Klabin e Duratex, além, claro, de ter sido CEO da Vale.
“Por mais que seja uma companhia centenária ou quase centenária, trazer um executivo com esse gabarito coloca a empresa em outro patamar de respeito. Além disso, ele conhece a indústria em que a CSN está inserida. Foi fornecedor e competidor desse setor quando estava na Vale.”
Schvartsman teve sua passagem interrompida na Vale em 2019, quando ocorreu o desastre de Brumadinho, que deixou 270 mortos. Mesmo assim, o mercado vê valor no executivo.
“Imagino que ele deva estar com sangue nos olhos, porque há seis ou sete anos não é executivo. Esses caras são animais de mercado, animais de corporação. Deve estar doido para voltar a ser executivo, criar, executar e fazer acontecer.”
Apesar da mudança no comando, o gestor pondera que Steinbruch continuará exercendo influência sobre a companhia, já que permanece como presidente do conselho de administração.
“O Benjamin é o dono da companhia, literalmente, e continua como presidente do conselho. Imaginar que ele vai se afastar do negócio é uma ingenuidade. Isso não vai acontecer. Ele não vai ficar olhando quanto está sendo fabricado na unidade europeia da CSN, mas certamente vai acompanhar os grandes dados, as grandes estratégias e as grandes direções da companhia”, afirmou.
Na visão dele, a diferença estará na condução operacional. “O lado operacional do dia a dia é com o Fábio, que é um cara, sem dúvida nenhuma, brilhante.”
Explosão na Bolsa
A percepção positiva em relação à mudança de comando foi ainda mais positiva na Bolsa.
Luca Vello, analista de mineração da Genial, diz que existe um alívio mensurável com a troca de comando, e isso se refletiu no apetite dos investidores.
Para se ter uma ideia, entre 31 de agosto e 3 de setembro, a ação subiu 19,9%, contra 5,9% da Gerdau, 4,6% da Usiminas e 0,8% da Vale.
Ou seja, foram cerca de 14 pontos percentuais de retorno excedente sobre as empresas de aço em três pregões, com 45 milhões de ações negociadas no dia da posse, quase três vezes o giro dos dias anteriores.
Desde o resultado do segundo trimestre, em 12 de agosto, o papel acumula alta de mais de 50%.
Ainda segundo Vello, o histórico de Schvartsman pesa a favor. “Ele é justamente esse, o de executivo profissional em casa de controlador definido, como foi na Klabin.”
Qual CSN Schvartsman vai pegar?
Ao sentar na cadeira de CEO e abrir o balanço da CSN, Schvartsman encontrará uma empresa cuja operação está boa, mas com problema no balanço.
“E isso é raro, porque normalmente é o contrário”, afirma Vello, da Genial.
Do lado operacional, o segundo trimestre mostrou cimento batendo recorde de Ebitda novamente, mineração com o quarto maior volume de vendas da história e siderurgia recuperando margem para a casa dos 10%.
Na parte do passivo, porém, a dívida líquida subiu R$ 1,63 bilhão no trimestre.
Vello lembra que o fluxo de caixa livre só foi positivo porque incorpora o saque do empréstimo-ponte. Já o custo da dívida aumentou: a troca dos bonds de 2028 saiu com cupom de 11%, contra 6,75%, enquanto o empréstimo-ponte é SOFR mais 6%.
“Ele herda um processo já em andamento: as propostas vinculantes pelo cimento chegaram em 10 de agosto, antes de ele assumir. A primeira decisão dele é de preço, não de estratégia.”
O desafio, portanto, é maior do que simplesmente substituir Steinbruch. A CSN também reúne negócios de siderurgia, mineração, portos e ferrovias, além de participações em diferentes empresas e estruturas societárias.
“Você é sócio minoritário de um porto, majoritário de uma ferrovia, tem um sócio japonês na mineração e sócios de outros países na siderurgia. É uma complexidade grande. Talvez seja o negócio mais complexo que ele já pegou na vida, mas acho que ele vai saber administrar”, disse um gestor.