Internacional

Do Irã ao comércio: como as eleições de meio de mandato nos EUA afetam o restante do mundo

04 nov 2026, 15:13
(Imagem: J. Scott Applewhite/Pool via REUTERS)

A “onda azul” dos democratas dos EUA, marcada pelas vitórias do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), mexerá não apenas com o governo do presidente Donald Trump, mas também com o restante do mundo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Isso porque, com o resultado, a gestão norte-americana passa a ficar dividida em Washington, após dois anos em que o Congresso, controlado pelos republicanos, raramente exerceu seu poder para conter o presidente. Assim, é esperado que os democratas utilizem a nova composição para investigar o governo de Trump, além de exigir concessões em relação a importantes projetos de lei.

A vitória do Partido Democrata também indicou uma insatisfação dos eleitores em relação à guerra com o Irã e à política tarifária do presidente, medidas que aceleraram a inflação no país. Vale lembrar que a alta dos preços foi um tema central durante as eleições de 2024, com Trump prometendo combater o aumento do custo de vida dos cidadãos norte-americanos.

Nesse novo cenário, a derrota republicana pode aumentar a pressão sobre a política externa de Trump, e os primeiros sinais dos impactos das eleições de meio de mandato no restante do mundo já começam a aparecer.

Uma nova política para Irã e Israel?

Ainda não está claro como a perda de controle de Trump sobre o Congresso moldará o curso do conflito de oito meses entre os EUA e o Irã. Os eleitores demonstraram estar cansados do conflito, ao qual muitos atribuem o aumento doloroso dos preços dos combustíveis.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Alguns governos do Golfo acreditam agora que Trump tem mais motivos do que nunca para buscar um acordo de paz e que um novo ataque em grande escala ao Irã é menos provável após as eleições de meio de mandato, disseram à Reuters duas fontes familiarizadas com o pensamento dos governos do Golfo Pérsico.

“Se Teerã reconhecer que Trump precisa de um acordo, mas não de qualquer acordo, poderá surgir uma oportunidade genuína para pôr fim à guerra”, disse Ebtesam al-Ketbi, do Emirates Policy Center.

Mas a derrota eleitoral de Trump também pode encorajar o Irã. Segundo ela, interpretar o resultado da votação como fraqueza poderia, ao contrário, provocar “uma nova escalada militar”.

Já para Israel, uma Câmara e um Senado controlados pelos democratas podem intensificar o escrutínio do Congresso sobre as operações militares israelenses no Irã, bem como em Gaza e no Líbano. Além disso, a nova composição do governo norte-americano ameaça o apoio de longa data dos EUA a Israel por meio de ajuda militar e vendas de armas.

O impacto das eleições dos EUA nos combustíveis

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A guerra no Irã restringiu o fornecimento de petróleo bruto e gás natural liquefeito do Golfo Pérsico, elevando o custo do petróleo bruto e os preços nos postos de combustível em todo o mundo.

O mercado de energia apostava que as eleições poderiam dar novo fôlego às negociações de paz entre os EUA e o Irã. Nesta quarta-feira, o petróleo caiu pelo terceiro dia consecutivo, embora os baixos níveis de estoque impediram uma liquidação mais acentuada, segundo analistas.

“O mercado parece estar cada vez mais apostando que o presidente Trump quer deixar a guerra no Oriente Médio para trás”, disse o analista Ole Hansen, do Saxo Bank.

Guerra na Ucrânia

Trump suspendeu em grande parte a ajuda financeira e militar direta dos EUA à Ucrânia, que enfrenta uma invasão russa, apesar do amplo apoio de parlamentares democratas e republicanos. Ele irritou membros do Congresso, incluindo muitos aliados, ao suspender as sanções contra o diesel russo e isentar as sanções contra a energia russa poucas semanas após sancioná-las.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O controle das duas Casas do Congresso permitirá que os democratas proponham uma nova ajuda à Ucrânia. Se obtiverem apoio suficiente dos republicanos e garantirem uma maioria de dois terços, um novo pacote de ajuda sobreviria a um veto de Trump.

No entanto, é improvável que qualquer aumento na ajuda dos EUA ocorra rapidamente, e isso não atenderá à necessidade mais urgente da Ucrânia: a falta de interceptores de defesa aérea Patriot fabricados nos EUA para proteger sua infraestrutura energética e suas cidades neste inverno.

Os democratas também poderiam ter como alvo outras políticas de Trump.

O deputado democrata Gregory Meeks, de Nova York, candidato à presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, apresentou uma legislação bipartidária para bloquear o plano de Trump de trazer o diesel russo de volta ao mercado global.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Mas é improvável que as eleições de meio de mandato alterem a posição do governo Trump nas negociações de paz trilaterais com a Rússia, nas quais tem pressionado a Ucrânia a fazer concessões para chegar a um acordo, enquanto, simultaneamente, discute acordos comerciais com Moscou que favoreceriam investidores norte-americanos.

O Kremlin afirmou que espera que os resultados das eleições de meio de mandato não afetem o que chamou de “esforços de pacificação” de Trump.

Mudança de rota: as relações comerciais dos EUA após eleições

O resultado das urnas norte-americanas poderia dar a alguns países da Ásia mais motivos para adiar as promessas de investimento feitas para evitar tarifas, afirmaram analistas. O resultado também pode conceder à China, rival econômica dos EUA, uma vantagem nas negociações comerciais em andamento.

No entanto, as relações econômicas gerais entre os dois gigantes provavelmente manterão um estado de “estabilidade frágil”, disse Chim Lee, analista de política industrial da Economist Intelligence Unit em Pequim.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

As derrotas de Trump nas eleições de meio de mandato podem significar um alívio para as negociações da Índia em busca de um acordo comercial com os Estados Unidos, que têm enfrentado atrasos à medida que Nova Délhi se esforça para proteger seus agricultores.

“Após as derrotas nas eleições de meio de mandato nos EUA, a capacidade do presidente Donald Trump de impor tarifas arbitrárias certamente enfrentará um desafio. Em algum momento, ele precisará da aprovação do Congresso para medidas comerciais e, nesse sentido, está enfraquecido”, afirmou Anup Wadhawan, ex-secretário de Comércio do governo federal da Índia.

O Congresso tem o direito de regulamentar o comércio e estabelecer tarifas de importação, mas Trump tem se valido de leis para impor tarifas sob o pretexto de segurança nacional ou práticas comerciais desleais. Os esforços do Partido Democrata para limitar esse poder provavelmente enfrentariam um veto presidencial.

Outra questão é se Trump levará adiante ameaças mais imediatas, como uma tarifa de 100% sobre os países europeus que impõem um imposto sobre serviços digitais às gigantes tecnológicas norte-americanas, ou se um empréstimo de 3 bilhões de euros do Banco Europeu de Investimento à Airbus prejudicará o que tem sido, em grande parte, uma trégua comercial transatlântica desde 2025.

IA e tecnologia

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Pesquisas de boca de urna revelaram que muitos eleitores norte-americanos estavam preocupados com a expansão agressiva dos data centers de IA. Isso causou tremores nas ações das principais fabricantes asiáticas de chips.

“Uma vitória esmagadora dos democratas no Congresso pressionaria o setor de tecnologia e poderia trazer pressão regulatória sobre tudo relacionado à IA, além de possivelmente desacelerar os números de crescimento desenfreados que vemos diariamente e muitas vezes consideramos naturais”, disse Jake Dollarhide, presidente-executivo da Longbow Asset Management, em Oklahoma.

Ações asiáticas de chips e IA, como TSMC , Samsung Electronics , SK Hynix e Kioxia, caíram nesta quarta-feira.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
A Reuters é uma das mais importantes e respeitadas agências de notícias do mundo. Fundada em 1851, no Reino Unido, por Paul Reuter. Com o tempo, expandiu sua cobertura para notícias gerais, políticas, econômicas e internacionais.
A Reuters é uma das mais importantes e respeitadas agências de notícias do mundo. Fundada em 1851, no Reino Unido, por Paul Reuter. Com o tempo, expandiu sua cobertura para notícias gerais, políticas, econômicas e internacionais.

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar