Eleições

Do rádio à TV: como a disputa pelo voto migrou do monólogo sem cortes para as regras rígidas do cronômetro nos debates

29 ago 2026, 10:30
Abertura do 'Encontro dos Presidenciáveis', primeiro debate presidencial na TV, em 1989 (Divulgação/Band TV)

A transmissão de debates eleitorais ao vivo na televisão virou rotina no calendário político. Candidatos se enfrentam sob a pressão do relógio e assessores correm nos intervalos para orientações. Essa dinâmica nos estúdios é fruto de um caminho que exigiu décadas de transformações políticas, tecnológicas e jurídicas.

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Antes de a imagem e os segundos contados ditarem o ritmo dos embates, a busca pelo voto dependia das ondas do rádio, onde tudo começou, e de longos pronunciamentos individuais, sem qualquer confronto direto. Entre os anos 1930 e 1950, o rádio concentrava a atenção do eleitorado e moldava a comunicação pública.

Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas utilizou transmissões oficiais, a exemplo do programa Hora do Brasil, para falar com a população em tom direto e paternal, sem a interferência de adversários.

Mesmo após a retomada das eleições em 1945, a dinâmica permaneceu focada em discursos individuais. Políticos como Luís Carlos Prestes falavam em transmissões a partir de estádios cheios e cada liderança contava com o seu próprio espaço na grade das emissoras para expor propostas sem contraponto imediato. A população se reunia em salas e praças para ouvir oratórias longas, em que pausas e entonações pesavam mais do que respostas rápidas.

Essa liberdade de oratória no rádio foi suspensa durante a ditadura do regime militar. Em 1976, entrou em vigor a Lei Falcão, iniciativa do ministro da Justiça Armando Falcão para conter o avanço da oposição nas urnas.

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A regra barrou discursos, debates e exposições de ideias no rádio e na televisão. O espaço reservado às campanhas passou a exibir apenas uma foto fixa do candidato, acompanhada do número, do nome e de um breve resumo do currículo lido por um locutor, impedindo qualquer debate.

A chegada dos debates na televisão

A transição para o formato de embate visual ganhou força no processo de reabertura política. Mas, antes disso, a TV Gaúcha realizou um primeiro encontro, em 1974, colocando frente a frente Paulo Brossard e Nestor Jost. Anos depois, em 1982, o debate da TV Bandeirantes para o governo de São Paulo, com Franco Montoro, Luiz Inácio Lula da Silva, Jânio Quadros, Rogê Ferreira e Reynaldo de Barros, consolidou o potencial do debate direto diante das câmeras.

A eleição presidencial de 1989 estabeleceu o modelo definitivo das transmissões ao vivo. Nomes acostumados aos palanques e com discursos longos e prolixos, como Leonel Brizola, enfrentaram o desafio de resumir argumentos em 90 segundos.

No primeiro debate presidencial da história da televisão, chamado de “1o Encontro dos Presidenciáveis”, também realizado pela Band, Brizola também protagonizou momentos lembrados até hoje, como o embate com Paulo Maluf, no qual chamou o adversário de “filhote da ditadura” em resposta a fala do candidato de que ele era desequilibrado e não tinha condições de ser presidente.

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Ainda em 1989, Luiz Inácio Lula da Silva e Ronaldo Caiado, que novamente são adversários em 2026, protagonizaram outro momento a ser lembrado. Ao cobrar de Lula que o escolhesse para fazer uma pergunta, Caiado ouviu do adversário: “Quando você crescer no porcentual, eu faço. Quando ele chegar a 1,5% eu faço”, disse o atual presidente para risos da plateia.

Naquele ano, Caiado obteve 0,72% dos votos, mas, nas eleições de 2026, quando os dois são novamente adversários, tem até 5% nas pesquisas. Com isso, Caiado conta com a mudança de opinião de Lula, que pode não participar dos debates presidenciais no primeiro turno, ou com o um crescimento maior nas pesquisas para enfrentar o presidente no segundo turno e, 37 anos depois, poder ser indagado por ele.

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Matheus Marques é estudante de jornalismo no IESB. Ele atua como estagiário em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
Matheus Marques é estudante de jornalismo no IESB. Ele atua como estagiário em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.

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