Entrevista: Para Haddad, base da sociedade é maior que preconceito do mercado e dará ‘sexta vitória’ a Lula
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) caminha para a “sexta vitória”, com o suporte da “base da sociedade” e mesmo com o preconceito do mercado. Em entrevista publicada nesta quinta-feira (21) pelo Market Makers, parceiro do Money Times, Haddad rebateu críticas do mercado financeiro e, como antecipou a reportagem nesta quarta-feira (20), reforçou a disposição para disputar a eleição estadual em 2026.
Segundo ele, existe um “preconceito histórico” do mercado financeiro e de parte da sociedade contra o partido e parte das críticas ocorre pela oposição petista aos cortes em programas sociais. “O mercado financeiro aprecia é o programa de privatizações”, afirmou. Segundo ele, há resistência porque “o PT não corta salário mínimo, o PT não corta direitos sociais”.
Para o ex-ministro, avaliações negativas do mercado muitas vezes têm motivação ideológica. “É muito difícil para uma pessoa do Partido dos Trabalhadores ter reconhecimento do seu trabalho por esses extratos da sociedade”, afirmou. Por outro lado, Haddad avalia que a “a base da sociedade” dará a sexta vitória a Lula, em referência ao seu eventual quarto mandato e mais os dois da ex-presidente Dilma Rousseff, eleita com o apoio do atual presidente.
“A base olha para Lula, se reconhece nele e fala: ‘esse cara é nosso, esse cara está zelando pela gente, ele faz o que tem que fazer, ele sabe que não dá para fazer tudo, mas ele está zelando pela gente'”, disse. “Eu acho que o Lula vai para para a eleição favorito, competitivo. Óbvio que tudo está aí aberto”.
Na entrevista para Thiago Salomão e Leopoldo Rosalino, Haddad defendeu sua gestão da Economia, mas admitiu erros de comunicação no período de pouco mais de três anos no atual governo. Um exemplo foi o anúncio do pacote fiscal de 2024, quando o governo apresentou simultaneamente medidas de contenção de gastos e a proposta de ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Segundo ele, a mistura das pautas gerou ruído no mercado.
“Eu dizia, ‘olha, isso não vai funcionar. Esse anúncio não pode ter uma natureza política, tem que ter uma natureza técnica. Então, não deveríamos misturar um debate sobre orçamento com um projeto da importância da reforma do imposto de renda”, disse Haddad, ao relatar sua posição à época e que foi voto vencido dentro do governo. Segundo ele, Lula ouviu a posição contrária, mas seguiu a maioria dos ministros presentes, cujos nomes ele preservou.
O ex-ministro reforçou que a proposta de isenção do imposto sobre a renda mensal de até R$ 5 mil era neutra do ponto de vista fiscal. “O mercado estimava que a isenção de R$ 5 mil ia custar R$ 100 bilhões. O mercado errou na conta”, afirmou. Segundo Haddad, o impacto anual atinge cerca de R$ 30 bilhões, compensados por tributação sobre contribuintes de alta renda.
Selic completamente fora do lugar
Na área monetária, Haddad criticou duramente a condução da política de juros no Brasil. Segundo ele, o Banco Central manteve a taxa básica de juros (Selic) elevada por tempo excessivo. “A taxa de juros está completamente fora do lugar”, afirmou. Na avaliação do ex-ministro, o BC “prefere errar para mais” na política monetária e mantém juros incompatíveis com o nível de inflação.
O ex-ministro retomou o discurso de atribuir ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) parte da deterioração fiscal registrada no início do terceiro mandato de Lula. Haddad repetiu que despesas extraordinárias herdadas da gestão passada foram indevidamente incorporadas às contas do atual governo. “São R$ 200 bilhões (de precatórios) que foram pagos em 2023 e não são a expansão de gasto desse governo”, declarou.
Ele também defendeu a reforma tributária aprovada durante sua gestão na Fazenda e sustentou que o Brasil precisa enfrentar privilégios fiscais e desigualdades estruturais. “O Brasil não vai se desenvolver se não tratar da questão da distribuição de renda”, declarou.
Muitos problemas em São Paulo
Ao tratar da disputa paulista nas eleições de 2026, Haddad endureceu o discurso contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O petista afirmou que encontrou “muitos problemas em São Paulo” e criticou áreas como segurança pública, educação e saneamento.
Sobre a privatização da Sabesp, Haddad reiterou ser contrário ao processo conduzido pelo governo estadual. “Mais de 200 companhias de saneamento da Europa foram reestatizadas”, afirmou. Segundo ele, a privatização tende a gerar “piora do serviço e aumento da tarifa”.
O ex-ministro também disse acreditar ser possível derrotar Tarcísio em 2026 e lembrou seu desempenho na eleição estadual de 2022, quando foi derrotado em segundo turno para o atual governador. “Fui a pessoa mais votada do campo progressista da história de São Paulo”, afirmou.