Exclusivo: ‘Um na tripa do outro’, Lula e Flávio Bolsonaro se enforcaram, diz Caiado sobre tarifaço
O pré-candidato a presidente da República Ronaldo Caiado (PSD) tem certeza de que seus principais adversários na corrida eleitoral tentam se beneficiar politicamente, para a eleição 2026, com a aplicação de um novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, anunciado na noite desta quarta-feira (15).
Segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta reproduzir no Brasil o clima de hostilidade contra Donald Trump que garantiu a reeleição dos governantes em países como Canadá e Austrália. Do outro lado, Flávio Bolsonaro (PL) se movimentou para adiar a taxação norte-americana para 2027, quando pretende ser o novo presidente do Brasil.
“Um se enforcou na tripa do outro“, disse Caiado em entrevista exclusiva ao Money Times nesta semana, quando a aplicação da tarifa já era dada como certa. O impacto do tarifaço na economia brasileira, espera o ex-governador de Goiás, será um dos fatores para que os dois líderes nas pesquisas eleitorais percam força e ele se viabilize como uma terceira via e avance para o segundo turno contra Lula.
Na entrevista, Caiado fala mais sobre sua estratégia para crescer sobre Flávio Bolsonaro por meio de suas realizações em dois mandatos como governador de Goiás e prega mudanças nas reformas Tributária e da Previdência.
O candidato propõe manter o Bolsa Família, “uma política de Estado consolidada”, e afasta a possibilidade de adotar, em nível nacional, a taxa do agro, que foi aplicada durante seu governo estadual sobre produtos agropecuários e minerais para financiar obras de infraestrutura.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Caiado.
As pesquisas eleitorais apontam que está difícil alguém atingir 10%. O principal nome que aparece é o do senhor, com 5%. Como o Sr. avalia essa pesquisa e quando espera ser viável como terceira via?
Enxergo como sendo uma realidade do momento, uma radiografia de hoje. Na campanha eleitoral, até há poucos dias, você tinha São João, Copa do Mundo, e eu entendo que, agora, os debates vão iniciar. O primeiro já está marcado para 16 de agosto, e, até lá, teremos também muitos fatos, que, eu acredito, vão fazer com que a sociedade reflita sobre essa eleição de rejeitados no Brasil.
Não gosta do Lula, vota no Flávio, não gosta do Flávio, vota no Lula. Eu acho que o Brasil não é isso. Acho que a sociedade brasileira deve analisar este momento como de uma responsabilidade enorme para os quatro anos que nós teremos com um presidente da República.
Já experimentaram o PT por cinco mandatos, já experimentaram o PL por um mandato. E o Brasil está vivendo essa situação de endividamento, criminalidade e corrupção desvairada. Acredito que a sociedade brasileira não deseja mais continuar sob esses comandos que não deram conta de corrigir ou melhorar a vida da população.
Por isso, chegarei indiscutivelmente ao segundo turno e terei as condições que a sociedade espera de um candidato, que é a autoridade moral para debater com o Lula, já que nos meus 40 anos de vida pública não existe nada que possa me desonrar, nem envolvimento meu com “rachadinha”, nem com nenhum escândalo que o Brasil já teve.
Para debater com Lula o Sr. vai ter que crescer em cima de Flávio Bolsonaro?
É crescer em cima do bom senso, da discussão de que realmente não é um jogo de revanche. Não é um contra o outro, é a favor do Brasil, é saber quem realmente teria essas condições de governar o País, trazer governabilidade e mudanças substantivas na vida das pessoas.
Falo isso não da boca para fora, não apenas redigindo material de governo, mas aquilo que eu atestei como governador do Estado que é o mais bem avaliado do Brasil, chegando ao final do meu mandato com 88% de aprovação e, ao mesmo tempo, com um maior número de entregas à população. Isso pode ser tranquilamente reproduzido no Brasil.
A gente tem alguns temas clássicos que vão ser tratados durante a campanha, como o Bolsa Família, por exemplo. Eleito, o Sr. pretende manter o programa?
Lógico. Já é política de Estado e consolidada. Outra coisa que as pessoas precisam aprender é que equilíbrio fiscal não se choca com toda a área social. Essa visão de que, para atingir equilíbrio fiscal, você precisa fazer corte de políticas sociais é de quem nunca governou.
O que você precisa saber é como fazê-la, o que realmente o Lula nunca quis fazer. Ele tem uma vida que diz que ia tirar o povo da pobreza, da fome, e até hoje repete o mesmo discurso.
Vai ver o que fizemos no Estado de Goiás, onde investimos mais de R$ 3 bilhões em políticas sociais e mostramos o que governo o federal devia ter feito, emancipando essas pessoas. Em qual sentido? Dando a elas cursos de profissionalização, e, estando na pobreza e na extrema pobreza, essas pessoas recebem um material para fazer a sua atividade sem cobrar um real.
Fazer um acordo com o Sistema S, da iniciativa privada, da indústria, com a tutoria para monitorar as pessoas depois que iniciarem o seu trabalho.
O Sr. foi um dos críticos, durante o mandato em Goiás, à Reforma Tributária. Se for eleito, o que o senhor pretende fazer com a questão tributária?
Quando você se levanta, em alguns pontos, as pessoas tentam te rotular como sendo contra a Reforma Tributária. Ninguém é contra a situação de simplificação, de desburocratização. O que eu disse que precisa ser revisto é esta situação em que você concentra poder na mão da União.
Você desconsidera as prerrogativas da capacidade de desenvolvimento de cada governador à frente do seu Estado. Você não olha para o cidadão que é prestador de serviço. Não olha para o cidadão que é profissional liberal e que terá de pagar uma taxa altíssima de um IVA (Imposto sobre Valor Agregado) que vai extrapolar 28%, quase 30%.
Esta é a consideração que eu faço para que, nestes pontos que estão provocando um distúrbio enorme, uma ansiedade enorme, possa ser feita a simplificação e uma avaliação de como não inviabilizar todas essas pessoas.
E a Reforma da Previdência?
Você tem que criar um sistema chamado de sustentação do sistema previdenciário. Isso é que tem que ser discutido com a população. Como é que o sistema previdenciário vai se sustentar? O Brasil perdeu o bônus demográfico. Então, este modelo precisa de ser analisado com as melhores cabeças para dizer: “olha, como é que nós vamos dar sustentabilidade à previdência social no País?”
Lógico que eu vou escolher as melhores cabeças. Entre elas, o Paulo Tafner é uma pessoa que eu escuto com muita frequência. Eu já fiz a Reforma da Previdência no meu Estado e entendo que, neste momento, a Previdência entra num processo de crise e merece um estudo e um grande debate com a população, não do ponto de vista ideológico, mas do ponto de vista de sustentabilidade. O que está sinalizando hoje é um colapso completo.
Durante o governo em Goiás, o Sr. foi muito criticado por causa da chamada taxa do agro e da mineração. O Sr. acha que o agronegócio brasileiro precisa ser taxado como foi taxado em Goiás, ou tem que ser como está hoje, sem nenhuma tarifa para exportação e com muitos produtos livres de impostos?
Não existe essa tese de generalizar. Você tem que entender que cada Estado tem as suas peculiaridades e as suas demandas específicas. Essa taxação não foi criada por mim. Isso foi criado em Mato Grosso do Sul e, em Mato Grosso, pelo Blairo Maggi (ex-governador e ex-ministro da Agricultura). Isso existe nos dois Estados e em Goiás também.
Qual é a discussão nesses Estados do Centro-Oeste? Essa taxa ajudou a recuperar a economia de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul, e eu precisava dar atenção às necessidades da sociedade na segurança e educação. Não tinha como investir em obras de infraestrutura. Então, é algo que foi colocado, uma taxa chamada de Fundeinfra, para que nós pagássemos, porque eu também sou produtor rural, para que fosse transformada em rodovias.
Qual é o gargalo que tem Goiás? É exatamente via de acesso, a expansão das fronteiras agrícolas. Tínhamos mais de 8 milhões de hectares de terra em Goiás que não produziam porque não tinha acesso. Então, foi um momento em que o Estado se viu diante de uma necessidade e foi instalado o Fundeinfra. Não foi para penalizar nenhum setor, foi para viabilizar o setor rural. Tanto é que cada rodovia dessa fez com que as terras, que não tinham valor, até multiplicassem por dez o valor.
Com os valores estratosféricos dos insumos, a agiotagem do governo federal com o dinheiro repassado para o custeio e financiamento, como o setor vai sobreviver para plantar uma safra? Então, foi o momento em que realmente a taxa foi retirada. Saber governar é saber modular para que o Estado avance e que aquele que tem a melhor condição no momento possa compartilhar com aquelas obras estruturantes que, sem dúvida nenhuma, foram necessárias.
O presidente Donald Trump e os Estados Unidos aplicaram novas tarifas sobre o Brasil e, por trás disso, tem toda a polêmica de Flávio Bolsonaro e Lula discutindo sobre quem foi o responsável pela taxação. Quem errou mais nessa questão? O governo brasileiro ou o senador Flávio Bolsonaro, com tudo o que ele e o irmão Eduardo fizeram nos Estados Unidos?
Os dois. Um se enforcou na tripa do outro. Essa é a verdade. Um (Lula) provocando os Estados Unidos, porque quer brigar com o Trump de toda maneira para ver se ele tem aquele rescaldo que tiveram os governos no Canadá e na Austrália para se reeleger diante desse enfrentamento. O Flávio (errou) por ter tido a inabilidade de redigir um documento dizendo que quer apenas que adie (o tarifaço), sendo que, na verdade, ele faz uma visão de ordem pessoal. Todos os dois visando os seus interesses na campanha eleitoral.
E o Brasil ficou em uma escala inferior, sendo que era o Brasil que deveria estar discutindo, e dizendo: “olha, é incompatível esse tipo de tributação que vocês estão nos impondo”.