Fiscal é principal desafio de Lula 4 e mercado deve abrir negativo nesta segunda (26), diz CEO da AZ Quest
O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente da Presidência da República deve começar sob o desafio de recuperar a confiança do mercado, controlar o crescimento da dívida pública e construir uma relação mais eficiente com um Congresso Nacional de perfil conservador.
Para Walter Maciel, CEO da AZ Quest, o governo precisará promover uma mudança significativa de postura na condução da política fiscal para evitar um período de baixo crescimento, inflação elevada e juros persistentemente altos.
Durante participação da live de apuração do segundo turno do Market Makers, Maciel afirmou que a principal preocupação é a trajetória das contas públicas e a ausência de sinais consistentes de compromisso com o equilíbrio fiscal. Segundo ele, a evolução da dívida pública ao longo dos últimos quatro anos reforça a necessidade de uma correção de rumo.
“Minha preocupação era principalmente com a nossa política fiscal. A preocupação realmente é com o crescimento da dívida pública, que foi de mais de 11 pontos percentuais nesses quatro anos”, afirmou Maciel.
O executivo também criticou declarações do presidente que, em sua avaliação, enfraquecem a percepção de compromisso com a responsabilidade fiscal. Para Maciel, a continuidade dessa orientação poderá tornar o próximo mandato particularmente difícil.
“Se a gente seguir nessa toada, acho que vamos ter quatro anos muito complicados”, avaliou.
Na avaliação de Maciel, o principal caminho para melhorar as perspectivas econômicas passa por uma mudança na condução das contas públicas. O executivo defende que o governo reconheça a dimensão do problema fiscal e estabeleça o reequilíbrio das contas como prioridade.
Para ele, a redução sustentável dos juros depende de medidas que permitam ao Banco Central (BC) diminuir a taxa sem comprometer o controle da inflação e a estabilidade econômica.
“A taxa de juros é a febre, não é a infecção que causa a febre. Não adianta dar dipirona, porque você tem que dar antibiótico. E meu antibiótico é colocar o fiscal em equilíbrio”, disse.
O CEO da AZ Quest considera que um sinal claro de compromisso com o ajuste fiscal poderia melhorar a percepção dos investidores. Para isso, no entanto, seria necessário que Lula surpreendesse o mercado com um discurso diferente daquele adotado durante a campanha eleitoral.
“Se ele tiver noção do tamanho do buraco ou uma opinião parecida com a nossa, deveria começar hoje com um discurso tão surpreendente quanto o resultado desse segundo turno”, avaliou.
Reação do mercado depende dos sinais do governo
Maciel também explicou por que a reeleição de Lula tende a provocar uma reação negativa nos ativos brasileiros. Segundo ele, após o primeiro turno, parte dos investidores passou a trabalhar com uma probabilidade maior de mudança na política econômica caso Flávio Bolsonaro vencesse a disputa.
Essa expectativa contribuiu para a valorização de ações brasileiras, especialmente as de empresas de média e pequena capitalização, além do fortalecimento do real e da queda dos juros de longo prazo. A perspectiva era de que uma eventual mudança de governo aumentasse a possibilidade de ajuste fiscal e reduzisse a pressão sobre os juros.
Com a vitória de Lula, parte dessas expectativas precisou ser revista. “O mercado achava que a possibilidade de o governo Lula reeleito tratar o fiscal era baixa. No momento em que Flávio ganha o primeiro turno, o mercado eleva essa possibilidade”, explicou Maciel.
O executivo ressaltou que o mercado financeiro não deve ser tratado como um agente único, mas como um conjunto de investidores com estratégias e expectativas distintas. Ainda assim, ele espera que a reação negativa observada após a confirmação do resultado eleitoral se reflita nos pregões seguintes, caso não haja uma sinalização convincente de mudança de rumo.
“Claramente, o que a gente imagina é que o mercado amanhã, como um todo, vai confirmar essa tendência, a menos que haja um discurso muito surpreendente”, afirmou.
Para Maciel, a questão central não é a busca por uma valorização imediata dos ativos, mas a construção de condições econômicas que permitam a retomada do crescimento. Sem uma mudança consistente na política fiscal, o país poderá enfrentar juros elevados, inflação pressionada e dificuldades para empresas e famílias.
Congresso mais conservador aumenta o desafio
Além da questão fiscal, Lula terá de lidar com um Congresso mais alinhado à direita e com maior capacidade de pressionar o Executivo. Para Maciel, o resultado das eleições legislativas reforça uma tendência de avanço de forças conservadoras observada em diferentes disputas eleitorais nos últimos anos.
O executivo considera que a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário também precisa ser reequilibrada. Na sua avaliação, a dinâmica institucional brasileira apresenta distorções quando os parlamentares conseguem atuar com pouca dependência tanto do governo quanto do eleitorado.
“Isso é uma anomalia. Quando você tem um Legislativo que não depende do governo para as emendas e não depende da população para se eleger, há um problema”, afirmou.
Maciel avalia que o resultado eleitoral exigirá maior capacidade de articulação do presidente, que precisará negociar com o Congresso e apresentar de maneira clara os desafios econômicos e institucionais do país.
“Isso vai exigir do presidente destreza. O presidente reeleito precisa agora ligar, precisa falar com o Congresso, precisa falar com o Supremo e mostrar os desafios do país”, disse.
O executivo também demonstrou preocupação com a possibilidade de uma judicialização ainda maior das decisões políticas. Segundo ele, as dificuldades de governabilidade podem ampliar o recurso a disputas judiciais, em vez de favorecer a construção de acordos políticos.
Nesse cenário, Maciel defende que o governo adote uma postura pragmática, capaz de reduzir tensões e viabilizar medidas econômicas. Para ele, a prioridade deve ser encontrar soluções para os problemas estruturais do país, independentemente das diferenças ideológicas.
Lula precisa governar para todos
Outro ponto considerado fundamental por Maciel é a capacidade de Lula de reconstruir pontes com setores que não apoiaram sua candidatura. Na avaliação do executivo, o presidente precisará demonstrar, na prática, que pretende governar para todos os brasileiros, e não apenas para sua base eleitoral.
Maciel lembrou que, após a eleição de 2022, Lula também sinalizou disposição para adotar uma postura agregadora, mas, em sua avaliação, as expectativas de parte dos setores que apoiaram essa aproximação não foram atendidas.
Por isso, o executivo considera que um discurso conciliador, acompanhado de medidas concretas, poderá ajudar a reduzir a resistência de investidores e de segmentos da sociedade.
“Eu acho que ele tem que fazer um aceno, tem que mostrar que vai governar para todos. Acho que esse é o principal ponto: ele tem que distensionar a nossa sociedade”, afirmou.
Para Maciel, a capacidade de Lula de reduzir as tensões políticas será determinante para a condução do novo mandato. O presidente terá de equilibrar a manutenção de sua base de apoio com a necessidade de negociar com um Legislativo mais conservador e responder às preocupações do mercado.
O executivo também defendeu reformas institucionais para aumentar a segurança jurídica e a previsibilidade das regras. Na sua avaliação, mudanças nas condições de contratos e nas regras estabelecidas pelo poder público podem prejudicar o ambiente de negócios, elevar o risco percebido pelos investidores e encarecer o financiamento de projetos.