‘Fui um presidente muito impopular’, afirma Temer em estreia de ‘963 dias’, documentário sobre seu governo
“As pessoas te odeiam”. A fala, dita pela advogada e professora Luciana Temer ao pai, Michel Temer, está logo nos primeiros minutos do documentário “963 Dias“, do diretor Bruno Barreto. A obra, lançada nesta sexta-feira (26), em São Paulo, retrata principalmente o período em que o ex-presidente da República esteve no poder, da posse em 13 de maio de 2016, após o afastamento de Dilma Rousseff (PT), à transferência de cargo a Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019.
“Eu acho que a ideia do odiado é a ideia da impopularidade. Agora, eu fui um presidente muito impopular. Mas, confesso uma coisa a vocês: agora, a partir do documentário do Bruno, eu vou ser um ex-presidente popularíssimo”, afirmou Temer a jornalistas logo a exibição do documentário para 700 convidados em quatro salas de uma rede de cinemas em um shopping center na capital paulista.
Temer disse não se preocupar com sua impopularidade, cujos índices, durante o período em que esteve no cargo, bateram recordes negativos nas pesquisas de opinião.
“Se eu estivesse preocupado com popularidade, eu não teria levado adiante a Reforma Trabalhista, não teria estabelecido um teto de gastos públicos, não teria levado adiante a (Reforma da) Previdência, não teria recuperado as estatais, não teria diminuído a inflação, não teria diminuído os juros, não é?”, afirmou o ex-presidente.
Impeachment, ‘Joesley Day’ e caminhoneiros
Com 1 hora e 45 minutos, “963 Dias” começa quando 367 deputados federais votaram a favor do prosseguimento do processo contra Dilma Rousseff para a apuração de crime responsabilidade pelas chamadas pedaladas fiscais. Era 17 de abril de 2026 e o ato pavimentou o caminho para o então vice-presidente Michel Temer assumir o poder. “Tenho respeito institucional à presidente Dilma”, declarou Temer durante discurso à época.
Em seguida, um flashback com depoimentos de personagens políticos mostra como Temer foi escolhido para ser candidato a vice-presidente de Dilma, em 2010, na composição entre o então PMDB (agora MDB), seu partido, e o PT.
“Lula não queria a mim como vice”, admitiu Temer após os ex-ministros Henrique Meirelles e o Nelson Jobim declararem que seus nomes foram cogitados. “Lula pediu três nomes e o PMDB enviou Michel, Temer e Lulha, que é um dos meus sobrenomes”, afirmou.
Temer declarou ainda que Dilma não confiava nele, que ela mantinha um grupo muito fechado de auxiliares, e que tinha uma “relação cerimoniosa” com a ex-presidente. Com os protestos de 2013, a Operação Lava Jato e a perda de popularidade e de apoio político de Dilma, Temer foi alçado à articulação política pela presidente, mesmo contrariado. “Disse a ela que ela não poderia me nomear, já que não poderia me demitir como vice-presidente”.
No documentário, o ex-presidente conta bastidores sobre as negociações, já no cargo, com o Congresso para reconquistar o apoio político. “Paguei com meu ‘cartão de crédito’ o apoio”, disse ele se referindo aos acordos feitos com parlamentares e líderes. “Dilma não honrou”, completou o ex-presidente sobre o fato de os políticos não receberem do governo o que foi negociado e sem detalhar.
A crise entre Dilma e Temer escalou até 2 de outubro de 2015, quando o PMDB lançou o documento “Uma Ponte para o Futuro”, proposta do partido com medidas para o país que foi considerada pela presidente como uma traição. “Dilma tomou o documento como de oposição”.
Com opiniões sobre jurídicas sobre o impeachment dadas por Luciana Temer e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, este último ex-ministro da Justiça de Temer e indicado por ele ao STF, o documentário tenta tirar do presidente a pecha de golpista.
“O impeachment é uma parlamentarização do presidencialismo, uma solução política”, afirmou Gilmar Mendes. “Desde a redemocratização foram dois impeachments, um de um presidente de direita, o Collor, e outro de uma presidente de esquerda. Os vices assumiram, eleições diretas ocorreram e a Constituição foi cumprida”, avaliou Moraes.
De volta ao Planalto, o primeiro dia de trabalho de Temer como presidente, uma sexta-feira 13 de maio de 2016, é lembrado com ironia no documentário. “Se foi golpe, foi um golpe de sorte”, brincou o ex-presidente. Em seguida, são detalhadas as realizações de Temer durante o governo, passando pelo dia 111 dos 963, quando o Senado cassou Dilma, pela PEC do Teto de Gastos, a Lei das Estatais e a Reforma Trabalhista.
Tudo seguia sob controle para o ex-presidente até 17 de maio de 2017, o dia 299 do documentário, conhecido como o “Joesley Day“. No final da tarde, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, revelou transcrições recebidas por ele do então procurador-geral da República Rodrigo Janot, de uma gravação do empresário Joesley Batista, da JBS, com Temer, em 28 de fevereiro daquele ano.
Pela reportagem a partir da transcrição, Joesley revelaria que pagava uma mesada para o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o mesmo que abriu o processo de impeachment Dilma e Temer respondia com um: “tem que manter isso aí”. Bastidores do ocorrido nos corredores e gabinetes do Palácio do Planalto e a reação de assessores à pressão para que Temer renunciasse, até a crise contornada, passando pelo “Não renunciarei” de Temer, são retratados no documentário.
A partir daí, “963 Dias” mostra outras duas crises enfrentadas no governo de Michel Temer, com a intervenção militar no Rio de Janeiro, no dia 664, e a greve dos caminhoneiros, iniciada em 31 de maio de 2018, dia 738 do período do ex-presidente no poder.
Criada em grupos de WhatsApp e com a ausência de lideranças para negociações, a greve dos caminhoneiros é tratada na obra de Bruno Barreto como o embrião da manipulação de informação do mundo virtual que chegou à política e ajudou a eleger Bolsonaro.
“A greve foi o começo do ambiente eleitoral que se consolidou depois”, resumiu Moraes no documentário. Presente na sessão desta sexta-feira, o ministro do STF assistiu à projeção ao lado de Temer e se recusou a comentar sobre a obra ao ser questionado pela reportagem do Money Times na saída.
Já o ex-presidente considerou “963 Dias” como um “documentário extraordinário” e disse que a ligação com o Bruno Barreto “foi uma melhores coisas da vida, porque eu não imaginava que alguém conseguisse retratar com tanta fidelidade e sem que fosse chapa branca”, afirmou.
Previsto para ser lançado em setembro deste ano, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, a obra é tratada como uma “recuperação histórica” por Temer e não tem capacidade para influenciar a votação, segundo os realizadores.
Na sala de cinema onde o ex-presidente esteve, gritos de “volta Temer” se misturaram com aplausos após a sessão. “Não, não tenho (pretensões políticas), eu só tenho pretensões de que o Brasil melhore de condições”, disse Temer para citar em seguida um documento nos moldes do “Ponte para o Brasil” produzido com propostas para ser encaminhado aos atuais candidatos.
“Um documento para que o Brasil saia desta angústia que vive, de muita radicalização, ou seja, que as pessoas aprendam a discutir projetos. Acho que nós teremos feito um bom trabalho, e vou me dispor apenas a isso e nada mais do que isso”.