IPCA-15 avança com três novos vilões no radar dos economistas — e projeção para 2026 pode subir
A prévia da inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15), surpreendeu o mercado com um número acima do esperado, subindo 0,70% em setembro, após uma deflação de 0,40% em agosto. Mas a surpresa não veio só no headline. O qualitativo também piorou, na avaliação dos economistas, em relação às leituras anteriores.
Já era esperada a aceleração do número nesta medição pela devolução do bônus de Itaipu em energia elétrica. No entanto, alimentos, transportes e serviços voltaram a chamar a atenção dos economistas de uma forma negativa.
O número, acima do esperado, superou o teto da pesquisa Projeções Broadcast, de uma alta de 0,66% nesta leitura do IPCA-15. Com isso, a inflação voltou a acelerar no acumulado em 12 meses para 4,47%. Nesse cenário, algumas casas já deixam no radar um possível ajuste para a projeção do IPCA para o fim de 2026.
Viés de alta
Na avaliação da economista Basiliki Litvac, da XP Investimentos, além da reversão do bônus de Itaipu, os preços livres também surpreenderam para cima. Embora o IPCA-15 permaneça abaixo do teto da meta estipulada pelo Banco Central (BC), de 4,5%, a média dos núcleos interrompeu a trajetória benigna das leituras recentes.
As surpresas, segundo Litvac, partiram de três grupos: a alimentação no domicílio, os serviços por conta de passagens aéreas e seguro de veículo, e os bens industriais com cigarro, ganhos em bens duráveis e vestuário.
“Por sua vez, os serviços subjacentes e os intensivos em mão de obra seguem como principal ponto de atenção do Banco Central”, avalia.
Com o dado mais elevado da prévia da inflação, a estimativa da XP para o IPCA de setembro — incorporando os itens já capturados por este IPCA-15 — subiu de 0,58% para 0,68%. “Nossa projeção de 5,0% para o IPCA de 2026 possui viés de alta”, acrescenta.
Na mesma linha, o Itaú Unibanco considera que o destaque negativo foi para alimentação no domicílio. No qualitativo, o banco avalia que a leitura foi mista, com serviços mais pressionados por seguro de automóvel, mas industriais mais contidos por higiene pessoal.
Para o ano, a projeção do Itaú para o IPCA segue em 5,1%, com reaceleração em alimentos e serviços nos próximos meses. Contudo, o banco reitera que o balanço de risco para a projeção segue assimétrico para cima.
Cenário segue desafiador para o BC
Para o economista Júlio Barros, do Banco Daycoval, a pressão do IPCA-15 veio de energia elétrica, passagens aéreas em serviços e alimentação no domicílio.
“Temos alertado há algum tempo justamente para os riscos de preços dos alimentos mais pressionados no último trimestre do ano, e o que vemos agora com essa alimentação no domicílio já em terreno positivo é justamente o fim dessa sazonalidade mais baixa”, explica.
Além disso, o grupo de serviços teve pressão de diversos itens, como alimentação fora do domicílio e transporte por aplicativos, observa.
Como ponto mais benigno da leitura, Barros considera que a média dos núcleos veio dentro do esperado pelo banco, apesar da aceleração na margem.
“No âmbito geral, a inflação de hoje mostra um resultado desafiador para o Banco Central por conta dos eventos temporários que beneficiaram a inflação recentemente para baixo, agora vêm para o lado altista da inflação, que segue num patamar desafiador alto. Nossa expectativa atual para o BC é de manutenção da taxa de juros na próxima reunião de novembro em 13,75%”, afirma o economista.
Não veio de todo ruim
O economista Christian Meduna, do Banco BV, considera que, apesar de ter vindo um número acima do esperado, já era sabido que havia vários itens com peso relevante ou com variação esperada relevante que poderiam causar algum tipo de distorção.
“Então, parece que boa parte da movimentação do resultado está em itens específicos, que tiram um pouco dessa impressão tão ruim do resultado em si”, diz.
O economista menciona o fim da sazonalidade favorável dos alimentos in natura, saindo da deflação para o terreno positivo, devido à influência climática, à alta da gasolina e ao forte avanço de passagens aéreas. Outra surpresa partiu de TV por assinatura e streaming, que contribuiu com alta de 3 pontos-base no índice, segundo Meduna.
“Em termos de composição, não acho de todo ruim. Você tem ainda uma oscilação razoavelmente moderada de serviços. A questão do grupo de serviços é que ele desacelerou bem nas leituras recentes e agora está descomprimindo um pouco esse viés positivo, voltando um pouco para cima. Mas não foi muito substancial. O grupo de serviços ainda está em um patamar compatível com o que se espera para o ano”, explica Meduna.
No índice fechado, o economista avalia que a inflação deve perder um pouco de força, para algo perto de alta de 0,65%. No ano, por ora, o BV mantém a estimativa de avanço de 5% para o IPCA.