‘Janela de entrada’: Empiricus vê oportunidade em incorporadoras após queda das ações em julho; veja a favorita
A Direcional Engenharia (DIRR3) segue como a principal escolha (top pick) da Empiricus Research entre as incorporadoras listadas na bolsa, ao combinar, segundo a casa, execução consistente, geração positiva de caixa e exposição ao programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Em relatório sobre o setor, Caio Nabuco de Araujo, analista responsável pelo documento, destacou que a companhia também apresenta valuation atrativo, de 5,6 vezes o múltiplo preço sobre lucro (P/L) estimado para 2027, especialmente após a queda recente dos papéis, de mais de 19% em 30 dias.
O especialista apontou, inclusive, que as ações das construtoras acumulam desvalorização média de 10,5% neste mês, em um movimento atribuído a dois fatores: ambiente macroeconômico incerto e reação do mercado às prévias operacionais do segundo trimestre de 2026 (2T26).
“A escalada do conflito geopolítico reacendeu as preocupações com inflação, energia, commodities e cadeias de suprimento. Para as incorporadoras, isso pode se traduzir em pressão sobre materiais, combustíveis, fretes e prazos de obra — e, no limite, sobre as margens dos projetos”, disse ele, ao comentar sobre o primeiro motivo.
“Por enquanto, esse impacto aparece mais como risco do que como deterioração efetiva, mas o mercado passou a exigir um prêmio de risco maior diante de um cenário menos previsível”, acrescentou.
De acordo com Araujo, o segundo fator de peso sobre os papéis veio das próprias prévias operacionais, que, em sua visão, apresentaram resultados heterogêneos entre as empresas: enquanto algumas mantiveram vendas, velocidade de comercialização e geração de caixa saudáveis, outras decepcionaram em indicadores como distratos e fluxo de recursos.
O analista ressaltou, no entanto, que a correção das ações não aconteceu de forma isolada. Ele lembrou que, nos dois meses anteriores (abril e maio), boa parte das incorporadoras — principalmente as ligadas ao segmento econômico — havia apresentado desempenho acima da média da bolsa.
“Com a valorização acumulada e a expansão dos múltiplos, os papéis ficaram naturalmente mais sensíveis a notícias negativas e a qualquer revisão nas expectativas de resultados. Esses eventos pontuais abriram espaço para ajustes de estimativas e desencadearam uma correção generalizada”, disse.
O 2T26 das incorporadoras
Segundo avaliação da Empiricus Research, o melhor resumo para as prévias operacionais do segundo trimestre de 2026 é simples: desempenho misto.
De um lado, a casa apontou que o segmento econômico, apoiado pelo MCMV, reportou demanda e velocidade de vendas (VSO) saudáveis.
Do outro, ponderou que o médio e o alto padrão, especialmente em São Paulo, enfrentam estoques elevados e absorção mais lenta.
Com dados do Secovi-SP, o relatório reforçou essa diferença: até maio, a VSO acumulada em 12 meses da baixa renda estava em 61,4%. Na média e alta renda, ficava em 47,1%.
O descasamento também aparece no nível de estoque: no segmento econômico, o volume disponível representa aproximadamente 9,1 meses de vendas. Na média e alta renda, chega a 17,8 meses.
“Em resumo, a correção [das ações] devolveu parte da forte valorização dos meses anteriores e tornou os preços mais atrativos, mas não eliminou a necessidade de selecionar bem as posições. O setor continua oferecendo boas oportunidades, embora a diferença de qualidade entre as empresas tenha se tornado ainda mais relevante”, afirmou Araujo.
“Não enxergamos uma ruptura generalizada da demanda. O quadro é mais desigual: o econômico continua funcionando bem, enquanto a média e a alta renda — sobretudo em São Paulo — permanecem como o principal ponto de atenção no curto prazo”, prosseguiu.
Cury e Moura Dubeux também estão entre as favoritas
Além da Direcional, a Empiricus destacou outras empresas do setor. A Cury (CURY3), por exemplo, também aparece entre as preferências da casa após registrar geração de caixa livre de R$ 145 milhões no 2T26, o que reforçou a capacidade de distribuição de dividendos.
Já a Moura Dubeux (MDNE3) é apontada como uma oportunidade com perfil mais arrojado, apoiada pelo posicionamento no Nordeste, baixa alavancagem e retorno sobre patrimônio elevado, segundo a análise.
“Como principal avenida de valor, a incorporadora [MDNE3] deve ampliar sua atuação no segmento econômico por meio da joint venture com a DIRR3. Além disso, o papel negocia a apenas 3,5 vezes os lucros estimados para 2027”, disse Araujo.
A Empiricus citou ainda a Tenda (TEND3) como uma das companhias preferidas do setor, enquanto, na outra ponta, afirmou que a MRV (MRVE3) chamou atenção pelo consumo gerencial de caixa de R$ 24 milhões no 2T26, e a Eztec (EZTC3) teve como principal ponto de atenção o estoque pronto, que representa 36% do total.
Veja o que chamou atenção da Empiricus nas prévias do 2T26:
| Empresa e ticker | Comentário da Empiricus sobre a prévia operacional do 2T26 |
|---|---|
| Direcional (DIRR3) | As vendas líquidas chegaram a R$ 1,7 bilhão, praticamente estáveis em relação ao 2T25 e ligeiramente abaixo das expectativas. Ainda assim, a VSO de 23% e a geração de caixa operacional de R$ 80 milhões reforçam a boa execução. A Riva foi o ponto mais fraco da prévia, mas não comprometeu a leitura geral. |
| Cury (CURY3) | Os lançamentos ficaram estáveis, em R$ 2,3 bilhões, com o calendário afetado por eventos pontuais. As vendas líquidas vieram marginalmente abaixo do esperado. Por outro lado, a geração de caixa livre alcançou R$ 145 milhões, reforçando a capacidade de dividendos. |
| Moura Dubeux (MDNE3) | Os números vieram próximos das expectativas, com destaque para o segmento de condomínios. Embora o menor volume de lançamentos tenha levado a uma desaceleração natural na comparação anual, os indicadores de vendas continuam sólidos. |
| Tenda (TEND3) | O principal ruído veio do aumento dos distratos (12,9%), relacionado a um problema pontual de licenciamento ambiental. A VSO (24,4%) também recuou após a companhia ajustar preços para preservar as margens dos projetos. Apesar desses pontos, os números operacionais continuam saudáveis. |
| MRV (MRVE3) | O ponto negativo foi o fluxo de caixa, com consumo gerencial de R$ 24 milhões. A operação comercial segue funcionando no mercado doméstico, mas o mercado continua aguardando uma melhora mais clara na trajetória de redução do endividamento da companhia. |
| Cyrela (CYRE3) | Vale atenção para o estoque de alto padrão, que atingiu aproximadamente 20 meses de vendas. Foi uma prévia sólida em volume, mas que ainda reflete o ambiente mais desafiador nos segmentos de maior renda. |
| Eztec (EZTC3) | Os lançamentos foram expressivos e as vendas líquidas cresceram 18% na comparação anual, embora tenham ficado abaixo da estimativa do mercado. O principal ponto de atenção é o estoque pronto, que já representa 36% do total. O valuation ainda oferece algum suporte à tese, mas a velocidade de absorção desse estoque será determinante para a recuperação operacional. |
| Lavvi (LAVV3) | O lançamento Jardim da Hípica encerrou o trimestre com 44% das unidades vendidas. A companhia registrou VSO de 22% e crescimento anual de 21% nas vendas. A boa absorção de um projeto relevante foi o principal destaque da prévia e reforçou a capacidade de execução. |