Mercado volta a precificar corte nos juros dos EUA em 2026
A desescalada das tensões geopolíticas com acordos de cessar-fogo temporário no Oriente Médio reduziu o temor de choque inflacionário e refez as apostas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos.
Nesta sexta-feira (17), por volta de 12h (horário de Brasília), o mercado passou a precificar um corte nos juros pelos Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) já em dezembro deste ano.
De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, os traders veem 52,6% de chance de o Fed retomar o afrouxamento monetário na última decisão do ano, em 9 de dezembro. A probabilidade majoritária é de um corte de 25 pontos-base, com 38,5% de chance. Hoje, as taxas de juros estão na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
Além disso, o mercado já precifica, majoritariamente, a redução de 50 pontos-base ao longo de 2027.
A reviravolta de expectativas acontece um mês depois de o mercado o mercado zerar a possibilidade de algum corte na taxa referencial norte-americana pelo BC dos EUA ao longo de 2026. Até ontem (16), as apostas de início o ciclo de cortes estava dividida entre junho e julho do próximo ano.
O que fez o mercado voltar apostar em cortes nos EUA?
A reabertura do Estreito de Ormuz, anunciado mais cedo pelo Irã, derruba os preços do petróleo no mercado internacional.
O ministro das Relações Exteriores iraniano disse que a passagem de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz está totalmente liberada durante o período restante do cessar-fogo no Líbano. A trégua entre Líbano e Israel foi acordada na véspera (16), entrou em vigor hoje e deve durar 10 dias.
Segundo Abbas Araqchi, a navegação na região seguirá a rota já previamente coordenada pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos do Irã.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também declarou que Irã concordou em “nunca mais” voltar a fechar o Estreito de Ormuz.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o fechamento do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã – sendo uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo–, era o principal ponto de atenção do mercado.
Cerca de um quinto do consumo global da commodity passa pelo ‘corredor’, que conecta grandes produtores do Oriente Médio — como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar — aos mercados da Ásia, Europa e América do Norte.
Há ainda a expectativa de um acordo de paz definitivo entre EUA e Irã. Trump disse que poderia viajar ao Paquistão caso um acordo para pôr fim à guerra no Irã fosse assinado no país, a jornalistas na tarde desta quinta-feira.
A sinalização aconteceu horas depois de o Paquistão ter anunciado que esperava sediar uma segunda rodada de negociações entre autoridades norte-americanas e iranianas. A retomada das conversas diplomáticas estão previstas para esse fim de semana.
Por volta de 12h (horário de Brasília), o contrato mais negociado do Brent, com vencimento em maio, operava com baixa de 11%, no nível de US$ 88 o barril na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres. Essa é a primeira vez que o barril opera abaixo de US$ em cinco semanas.
O que esperar das próximas decisões do Fed
Para a próxima decisão do Comitê de Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed, o mercado mantém a precificação de manutenção dos juros entre 3,50% a 3,75% ao ano.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, aponta 99,5% de chance de o Fed manter os juros inalterados pela terceira vez consecutiva em 29 de abril.
Em entrevista recente à Reuters, a presidente do Fed de San Francisco, Mary Daly, destacou que a evolução do conflito — e a forma como os preços do petróleo podem reagir caso as tensões diminuam — tende a influenciar o grau de confiança do Fed de que a inflação começará a recuar dos níveis atuais.
“Desde que o conflito seja resolvido em breve, estaremos em uma situação em que o processo será mais demorado, mas não impedirá o progresso” da inflação, disse Daly. “Apenas leva mais tempo para que tudo isso seja resolvido.”
Em fevereiro, dado mais recente, o Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE) dos Estados Unidos registrou alta de 2,8% e o núcleo – que exclui alimentos e energia – teve avanço de 3%. A meta de inflação do Fed é de 2%. O dado ainda não incorporou os possíveis impactos da guerra no Oriente Médio.
Na avaliação de Matheus Spiess, analista da Empiricus, a trégua, porém, tem sido interpretada com cautela, diante do histórico recente de instabilidade e da ausência de avanços concretos em direção a um acordo mais abrangente.
“Nesse contexto, os bancos centrais mantêm uma postura prudente, como várias vezes comentado nas reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial desta semana, sinalizando que ainda é prematuro incorporar eventuais efeitos de segunda e terceira ordem da guerra sobre inflação e atividade no longo prazo”, afirmou Spiess.
Na mesma linha, os analistas do ING Research afirmaram, em relatório, que ainda não há clareza suficiente para justificar um movimento sustentado abaixo da faixa de US$ 90–95/barril no Brent.
E os juros no Brasil?
No Brasil, o mercado espera a continuidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic.
O afrouxamento monetário – ou “calibração” dos juros, como os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) têm defendiddo – foi iniciada na decisão passada, em março, com redução de 25 pontos-base, trazendo a Selic para 14,75% ao ano.
As Opções do Copom precificam 75,50% de um novo corte de 25 pontos-base na próxima decisão, em 29 de abril – segundo a atualização mais recente, da última quarta-feira (15).
Havia também 7% de manutenção dos juros a 14,75% ao ano, 16,50% de chance de corte de 0,50 pontos-base e menos de 1% de probabilidade de uma redução de 0,75 pontos-base pelo Copom no final deste mês.
A expectativa é de que a Selic encerre 2026 a 12,50% ao ano.
A desancoragem das expectativas no horizonte relevante, por sua vez, segue sendo o principal “incomôdo” do Banco Central.
Ontem, o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Paulo Picchetti, reafirmou que a expectativa de inflação para 2028 é “muito preocupante”.
No evento Itaú Latam Day, em Washington, Picchetti disse que o BC está tentando entender o fenômeno, acrescentando que “mais importante e mais preocupante” que os desvios no curto prazo é o desvio das expectativas de inflação em relação à meta em 2027 e 2028.
No Relatório Focus da última segunda-feira (13), os economistas consultados pelo BC elevaram a projeção do IPCA de 3,85% para 3,91% em 2027 e mantiveram a expectativa de inflação a 3,60% no ano seguinte. A meta do BC é de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.