Juros futuros têm nova alta com avanço dos Treasuries e cenário eleitoral
A curva de juros futuros subiu nesta quinta-feira (24) tendo como principal vetor a disparada dos retornos dos Treasuries, que reflete novos sinais de força da economia dos Estados Unidos e declarações mais duras dos dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), assim como o aumento dos preços do petróleo.
Novas notícias sobre a relação do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) com Daniel Vorcaro também contribuíram para a piora.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 13,541%, no ajuste da quarta-feira, a 13,565%
O DI para janeiro de 2029 aumentou a 13,88%, de 13,787%.
O DI para janeiro de 2031 subiu de 13,965% a 14,045%.
O que mexeu com os DIs hoje?
Às vésperas de um primeiro turno bastante disputado, qualquer evento negativo relacionado à oposição repercute nos ativos domésticos porque reduziria, na percepção de parte do mercado, as chances de alternância do poder em 2027 – e, consequentemente, de uma consolidação fiscal.
As taxas futuras, porém, perderam fôlego em sintonia com o petróleo, que se afastou das máximas intradiárias ao longo da tarde. Mas as incertezas sobre os diálogos entre Estados Unidos e Irã à margem da Assembleia da ONU mantiveram o barril do Brent perto de US$ 107 no fechamento – o que, junto à perspectiva de aperto monetário adicional nos EUA, elevou os rendimentos dos Treasuries e afetou também o mercado local de renda fixa.
Por volta das 17h30, o juro da T-Note de dois anos anotava alta de 4,895% a 4,940%. O retorno da T-Note de 10 anos tinha elevação de 5,116% para 5,22%, e o do T-Bond de 30 anos disparava de 5,402% a 5,497%, também na máxima. “Acho difícil vermos uma melhora muito forte nos DIs sem uma notícia favorável da política no Brasil ou uma melhora externa das curvas de juros”, afirma o sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal.
Em sua visão, como o comportamento mais benigno recente dos DIs veio na esteira do crescimento de Flávio nas pesquisas eleitorais, a questão política pode ter contribuído para a piora desta quinta dos juros, mas o movimento foi essencialmente global, tendo como pano de fundo a pressão da renda fixa internacional. “A notícia sobre o Flávio só deu um susto na hora”, apontou.
Os rendimentos dos Treasuries estão alcançando níveis não registrados desde o início dos anos 2000, destaca Leal, seja na ponta longa, em meio a preocupações com o aumento da dívida pública nos EUA e, mais recentemente, também nos trechos curtos, que reagem a dados que indicam resiliência da economia norte-americana e a declarações mais duras de dirigentes do Federal Reserve.
Nesta quinta, três deles se pronunciaram na mesma direção: a presidente do Fed da Filadélfia, Anna Paulson, afirmou que o BC norte-americano pode precisar elevar novamente os juros para conter a inflação, que permanece “persistentemente elevada”; a presidente da distrital de Cleveland, Beth Hammack, disse que a inflação do país permanece elevada com riscos para cima; e o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, apontou que vetores recentes de pressão sobre os preços podem ser “mais duradouros” do que se antecipava.
Por aqui, o Relatório de Política Monetária (RPM) reforçou a mensagem de que ainda há espaço para cortes da Selic, mas a trajetória da política monetária dependerá essencialmente da evolução dos dados, sem impacto na curva.
As falas do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor Paulo Picchetti para comentar o relatório também não fizeram preço.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o documento foi “um pouco decepcionante”, uma vez que uma das funções da autarquia é orientar as expectativas à frente, mas endossa a avaliação de um BC dependente de dados e que mantém porta aberta para novas reduções do juro básico.