Juros nos EUA: mercado retoma apostas de alta e precifica movimento em março
A nova escalada das tensões geopolíticas com o impasse nas negociações de paz no Oriente Médio aumentou o temor de choque inflacionário e refez as apostas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos.
Nesta segunda-feira (4), por volta de 15h (horário de Brasília), o mercado passou a precificar uma elevação nos juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) já em março de 2027.
De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, os traders veem 51,6% de chance de o Fed retomar o aperto monetário na segunda reunião do próximio ano, em 17 de março.
Contudo, entre as apostas, a probabilidade majoritária segue de manutenção dos juros, com 45,5%, enquanto a chance de alta de 25 pontos-base é de 37,5%.
A ferramenta também precifica 55,5% de alta nos juros nas decisões de abril e junho de 2027.
Na semana passada, o Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manteve os juros inalterados pela terceira vez consecutiva, na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.
O que fez o mercado voltar apostar em alta nos EUA?
Os preços do petróleo voltaram a operar acima de US$ 100 o barril com o temor de uma reescalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e possível choque inflacionário.
No último domingo (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que ainda não havia analisado o texto exato de uma nova proposta de paz do Irã, mas que era improvável que a aceitasse, pois os iranianos ainda não haviam “pagado um preço suficientemente alto”.
Em resposta, o Irã afirmou que as conversas com Washington não podem ser retomadas a menos que um cessar-fogo seja mantido no Líbano – que Israel invadiu em março para atacar o Hezbollah.
Já hoje, Trump disse que o Irã será “varrido da face da Terra” caso ataque embarcações do país, segundo a Fox News. A declaração acontece após os iranianos alertarem os norte-americanos para não entrarem no Estreito de Ormuz.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o fechamento do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã – sendo uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo–, era o principal ponto de atenção do mercado.
Cerca de um quinto do consumo global da commodity passa pelo ‘corredor’, que conecta grandes produtores do Oriente Médio — como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar — aos mercados da Ásia, Europa e América do Norte.
Vale lembrar que, na semana passada, o Bureau of Economic Analysis (BEA) informou que o índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE) – métrica preferida do Federal Reserve para monitorar a inflação – subiu 4,5% no período, uma aceleração expressiva frente aos 2,9% registrados no trimestre anterior.
Na mesma linha, o núcleo do PCE, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, avançou 4,3%, também acima dos 2,7% do quarto trimestre.
Na prática, o dado reforça um cenário de política monetária dependente dos próximos indicadores, especialmente aqueles ligados ao consumo e à inflação, em um momento em que o banco central americano busca calibrar o equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços.
Há também atenção sobre o mercado de trabalho. De acordo com os dados mais recentes, o número de norte-americanos que entraram com pedidos de auxílio-desemprego caiu em 26.000, para 189.000 em dado com ajuste sazonal, na semana encerrada em 25 de abril. Os economistas consultados pela Reuters previam 215.000 pedidos para o período.
O relatório oficial de empregos, o payroll, que será divulgado na próxima sexta-feira (8). As estimativas do Dow Jones apontam para a criação de apenas 53.000 vagas de emprego nos EUA em abril, bem abaixo da previsão anterior de 178.000, enquanto a taxa de desemprego deve permanecer em 4,3%.
E os juros no Brasil?
No Brasil, o mercado espera a continuidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic.
O afrouxamento monetário – ou “calibração” dos juros, como os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) têm defendiddo – foi iniciado na decisão passada, em março, com redução de 25 pontos-base. Na semana passada, o Copom fez mais um corte, trazendo a Selic para 14,50% ao ano.
A desancoragem das expectativas no horizonte relevante, por sua vez, segue sendo o principal “incômodo” do Banco Central.
Na última decisão, na quarta-feira (29) passada, os diretores mantiveram a menção ao conflito no Oriente Médio, afirmando que o cenário externo permanece incerto em meio à incertezas quanto a duração, extensão e desdobramentos do conflito.
As projeções para inflação para 2026 e no horizonte relevante também tiveram ajustes para cima. A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 3,9% para 4,6% em 2026, acima do teto da meta, que é de 4,5%.
Para o horizonte relevante, quarto trimestre de 2027, a estimativa de IPCA do Copom subiu de 3,3% para 3,5%.
No Relatório Focus desta segunda-feira, os economistas consultados pelo BC elevaram a projeção do IPCA de 4,86% para 4,89% no final deste ano, pela oitava semana consecutiva.
A meta do BC é de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.