Mercado aguarda definições no fiscal e na equipe econômica, enquanto investidor ‘ganha’ parado com juros elevados, avalia Zanlorenzi, do BTG
O Ibovespa (IBOV) caminha para uma queda semanal de quase 18%, a maior baixa histórica do índice, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto o mercado já precificava uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), o que contribuiria para um ajuste fiscal mais crível.
Na avaliação do chefe da mesa de ações e derivativos do BTG Pactual, Jerson Zanlorenzi, em entrevista concedida ao Money Times, o grande movimento de ajuste de posição na Bolsa está associado ao ajuste de risco, devido ao aumento de incertezas quanto ao quadro das contas públicas brasileiras e aos integrantes da próxima equipe econômica, se devem endereçar ou não os pontos que já têm impactado o mercado doméstico.
“Quando o investidor está na dúvida, ele preferece colocar o dinheiro no bolso e esperar essas questões serem aprovadas. O Brasil ainda segue com uma taxa de juros alta, o que privilegia esse dinheiro estar, vamos dizer assim, parado, aguardando esse avanços, já que ele é bem remunerado enquanto isso”, explica.
Para Zanlorenzi, é difícil falar ainda em um novo preço-alvo para o Ibovespa no fim de 2026. No entanto, eventos como a temporada de balanços, Propostas de Emenda à Constituição (PECs) e outros assuntos da área econômica devem mexer com os mercados daqui em diante.
“Há mais dificuldade de prever o Ibovespa, porque é um índice que tem muito peso de Petrobras e Vale, e, às vezes, esse não é o melhor indicativo para acompanharmos”, explica.
Por que o câmbio foi menos penalizado?
Já o câmbio, no mesmo período, acumulou alta de cerca de apenas 0,2%. Com a saída do estrangeiro da Bolsa, o real também acaba sendo penalizado ante o dólar, afirma Zanlorenzi. No entanto, a divisa foi menos impactada no período, segundo ele, pela taxa Selic ainda elevada, em 13,75% ao ano.
“O grande escudo do câmbio são os juros, apesar de o Banco Central estar em uma trajetória de queda nas últimas reuniões, ainda é um Selic próxima de 14%, com um diferencial de juros grande em relação aos Estados Unidos”, diz.
Hoje, os juros norte-americanos estão no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, com manutenção na última decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).
Opções do EWZ
Já ao olhar para o mercado de derivativos, em especial para as opções do EWZ, que “surfaram” no trade eleitoral com a expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro, o movimento agora é de grande volatilidade após o segundo turno.
De acordo com Zanlorenzi, do BTG, muitos desses clientes foram obrigados até a vender as posições, visto que estão acumulando prejuízos elevados ou até chegar em níveis de volatilidade máximo dentro de seus portfólios.
“Falamos em zeragem de risco, mas o que temos visto de quarta para cá é um início de normalização do movimento que observamos na segunda e terça”, diz.
Quais ações são boas para fazer hedge?
De acordo com o chefe da mesa de renda variável e derivativos do BTG, duas estratégias são boas nesse momento.
A primeira recomendação é apostar em empresas que se beneficiam de um dólar mais alto, já que vendem seus produtos para o mercado internacional e são beneficiadas por uma moeda norte-americana mais forte.
O segundo são setores que não dependem tanto dos juros elevados, com contratos de longo prazo, como o setor elétrico, saneamento básico, além do setor de telecom.
“São bens do dia a dia, seriam a primeira coisa que a pessoa investe o dinheiro nesses bens, o que também acaba sendo bem defensivo”, afirma.
É importante ficar de olho no internacional?
Na avaliação de Zanlorenzi, no plano internacional, é importante olhar a bateria de resultados corporativos de empresas ligadas ao rali de inteligência artificial (IA).
“O gringo realmente é o grande responsável pelo fluxo aqui no Brasil. Se o cenário for otimista lá fora, o investidor estrangeiro tem espaço para olhar para outros mercados”, explica.
De acordo com Zanlorenzi, com a continuidade da onda de IA, o investidor deve continuar querendo tomar mais risco no mercado brasileiro.