Estados Unidos (EUA)

Mercado de trabalho fraco nos EUA muda o jogo para o Fed? Economistas se dividem sobre futuro dos juros

07 ago 2026, 11:26
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(Foto: iStock - KonaRa)

O payroll de julho, que mostrou a perda de 23 mil vagas de emprego nos Estados Unidos, abaixo da expectativa de criação de 80 mil postos, reforçou a percepção de desaceleração do mercado de trabalho americano, mas não foi suficiente para produzir consenso entre economistas sobre os próximos passos do Federal Reserve.

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As avaliações apontam para um mercado de trabalho menos aquecido, mas ainda sem sinais claros de deterioração abrupta. A divergência está principalmente no impacto desse cenário sobre a política monetária: enquanto alguns economistas veem espaço para o Fed manter os juros no atual patamar por mais tempo, outros ainda consideram provável uma retomada das altas já em setembro.

Para André Valério, economista sênior do Inter, o resultado de julho reforça a tendência de criação fraca de empregos. Além das 23 mil vagas negativas, os dados de maio e junho foram revisados para baixo em um total de 103 mil postos.

Valério, porém, chama atenção para a queda simultânea da taxa de desemprego, de 4,2% para 4,1%. Segundo ele, a aparente contradição é explicada pela oferta de trabalho: a taxa de participação recuou pelo segundo mês consecutivo, para 61,4%, menor nível desde maio de 2020.

“Com isso, o valor neutro de criação de empregos, aquele que não altera a taxa de desemprego, está no terreno negativo”, afirma o economista.

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Na avaliação dele, os números não indicam um cenário de demissões em massa. Para Valério, mesmo com a demanda por trabalho mais fraca, o mercado de trabalho permanece em um equilíbrio que é conveniente para o Fed.

O economista também destaca a desaceleração dos salários como um sinal favorável para a inflação. A remuneração média avançou 3,2% em 12 meses, menor alta desde maio de 2021. Já a variação salarial anualizada dos últimos três meses ficou em 2,3%, menor nível desde março de 2021.

“Assim, o foco da política monetária americana se torna a inflação”, afirma.

Valério lembra que Kevin Warsh, presidente do Fed, afirmou que estaria disposto a elevar os juros na reunião de setembro caso observasse uma aceleração da inflação. Por isso, o CPI, que será divulgado na próxima quarta-feira (12) passa a ser um dos principais indicadores no radar do mercado.

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Ainda assim, o economista do Inter mantém a expectativa de que o Fed preserve os juros no atual patamar até o fim do ano.

Avenue vê espaço para juros menos pressionados

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, também avalia que o payroll trouxe uma surpresa negativa, especialmente diante das revisões nos dados anteriores. Segundo ele, a retirada de 103 mil vagas dos números de maio e junho reduziu a média de criação de empregos, que vinha sendo considerada saudável, entre 80 mil e 100 mil postos por mês.

Para Alves, o resultado reduz o risco de superaquecimento da economia americana e, consequentemente, a necessidade de uma política monetária mais restritiva.

A reação foi imediata nos mercados. Após a divulgação do payroll, os juros dos Treasuries recuaram, com a taxa da nota de dois anos caindo cerca de 2%, para 4,16%, enquanto o Treasury de dez anos recuou aproximadamente 1,5%, para 4,60%. O dólar também perdeu força, com queda de cerca de 0,53%.

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O movimento chegou ao mercado brasileiro, com o dólar recuando para perto de R$ 5,08.

Apesar da fraqueza do payroll, Alves ressalta que alguns componentes do relatório permanecem positivos. A taxa de desemprego caiu para 4,1%, enquanto os salários avançaram 3,2% em 12 meses.

A leitura geral do estrategista é de que o mercado de trabalho americano continua saudável, mas está desacelerando em ritmo maior do que o esperado anteriormente. Para os mercados, isso reduz o risco de uma economia superaquecida e de uma postura mais agressiva do Fed.

C6 ainda aposta em alta em setembro

A avaliação do C6 Bank é mais dura. Para Felipe Mecchi, economista da instituição, apesar da surpresa negativa do payroll, outros indicadores ainda apontam para um mercado de trabalho resiliente.

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Mecchi destaca que o resultado de julho foi puxado principalmente pelo setor público, que registrou perda de 53 mil vagas, enquanto o setor privado criou 30 mil postos. Com isso, a média dos últimos três meses ficou em 40 mil contratações no setor privado.

O comportamento dos salários, contudo, é visto como um ponto de atenção. A remuneração média subiu 0,1% em julho e acumula alta de 3,2% em 12 meses. Para Mecchi, esse movimento tende a sustentar o consumo das famílias e, ao mesmo tempo, elevar os custos das empresas, mantendo a inflação pressionada, especialmente no setor de serviços.

Por isso, o C6 Bank mantém a aposta de que o Fed voltará a subir os juros na próxima reunião, em setembro.

“Apesar de o Payroll ter ficado bem abaixo das expectativas em julho, outros dados, como o número de pedidos de desemprego e as pesquisas Jolts e ADP, indicam que o mercado de trabalho americano segue resiliente”, afirma Mecchi.

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Além disso, o economista avalia que os indicadores de inflação apontam para um PCE ainda acima da meta de 2%, o que reforçaria a necessidade de uma política monetária mais restritiva.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.

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