O céu é o limite: Tesouro cancela leilão e mercado vê IPCA+ 10% no horizonte
Semana após semana, o Tesouro IPCA+ 2032 renova suas máximas de rentabilidade. Ora impulsionado pela volatilidade do cenário externo, ora pelos receios em relação à economia doméstica, o movimento reflete um investidor cada vez mais cauteloso e exigente.
Em outras palavras, o mercado tem demandado prêmios maiores para financiar o governo diante das incertezas no horizonte.
Em meio à escalada das taxas, o Tesouro Nacional decidiu cancelar o leilão de NTN-B previsto para esta terça-feira (23). Segundo o órgão, a medida foi tomada para preservar o “bom funcionamento do mercado de títulos públicos”. O montante que seria ofertado não foi divulgado pelo órgão.
Na avaliação de Bruno Perri, economista e sócio-fundador da Forum Investimentos, o mercado já precifica um cenário de forte estresse, resultado da combinação entre fatores externos e domésticos.
Segundo ele, no exterior, investidores passaram a trabalhar com juros elevados por mais tempo após decisões recentes de bancos centrais e sinais mais duros de autoridades monetárias, principalmente no Federal Reserve.
No Brasil, o cenário inclui inflação persistente, expectativas desancoradas, preocupações fiscais e uma comunicação do Banco Central que gerou questionamentos entre os agentes de mercado.
Fernando Benavenuto, especialista em investimentos e sócio da Anvex Capital, tem diagnóstico semelhante. Para ele, a abertura da curva de juros reflete uma combinação de inflação acima do desejado, incertezas fiscais e um ambiente global menos favorável.
“O resultado é um investidor que passa a exigir mais prêmio para carregar duration, e isso se traduz diretamente na abertura da curva real”, afirma.
O que significa o cancelamento do leilão?
A decisão do Tesouro de cancelar o leilão de NTN-B foi interpretada pelos especialistas como uma tentativa de evitar emissões em um momento de elevada volatilidade.
Segundo Perri, o mercado atravessa um período atípico, com menor apetite dos investidores e maior risco de distorções nos preços. Nesse contexto, o Tesouro prefere não emitir títulos pagando taxas consideradas excessivamente elevadas.
Benavenuto afirma que a medida não deve ser interpretada como um sinal de fragilidade fiscal, mas como uma ação de gestão da dívida pública.
“Ao cancelar a oferta num momento em que o mercado exige prêmios muito elevados, o Tesouro evita carimbar essas taxas e validar a abertura da curva”, explica.
Além disso, a suspensão temporária de novas emissões pode reduzir a oferta de títulos no mercado primário e aliviar parte da pressão sobre as taxas no curtíssimo prazo.
Novas intervenções estão no radar?
Para os dois especialistas, sim. Perri avalia que novas ações como as vistas em março deste ano – causada pelo efeito da guerra – podem ocorrer caso a volatilidade permaneça elevada. Já Benavenuto destaca que o Tesouro tem demonstrado disposição para atuar na gestão da dívida sempre que identificar disfuncionalidades no mercado.
Ainda assim, ele ressalta que medidas desse tipo têm alcance limitado.
“Intervenções ajudam a suavizar movimentos de curto prazo, mas a ancoragem definitiva das taxas depende de uma sinalização crível sobre a trajetória das contas públicas”, conclui.
Até onde os juros podem chegar?
Embora seja difícil apontar um teto para as taxas, os especialistas acreditam que ainda existe espaço para novas altas caso o ambiente continue se deteriorando.
Benavenuto vê possibilidade de novas aberturas. Segundo ele, taxas entre IPCA + 8,7% e IPCA + 9% não podem ser descartadas caso persistam as dúvidas sobre o quadro fiscal e a trajetória da inflação.
Já Perri é mais agressivo na sua análise e estima que o Tesouro IPCA+ 2032 poderia alcançar taxas entre IPCA + 9,5% e IPCA + 10% em um cenário de maior estresse.
Apesar disso, ambos destacam que os níveis atuais já embutem um prêmio historicamente elevado para títulos públicos.
Ainda vale a pena investir?
Na visão dos especialistas, a resposta depende principalmente do horizonte do investidor.
Para quem pretende carregar o papel até o vencimento, Perri considera que os títulos continuam atrativos diante da combinação entre taxas elevadas, liquidez e baixo risco de crédito.
Benavenuto reforça que o principal risco não está na capacidade de pagamento do governo, mas sim na volatilidade dos preços ao longo do caminho.
“Para quem carrega o papel até o vencimento, travar um juro real acima de 8% ao ano representa uma rentabilidade historicamente atrativa e contratada”, afirma.
Por outro lado, quem pretende vender o título antes do vencimento pode sofrer com a marcação a mercado caso as taxas continuem subindo.
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