Transportes

Onda da tarifa zero nos transportes começa a recuar e prefeituras cancelam benefícios, aponta estudo

15 jun 2026, 11:11 - atualizado em 15 jun 2026, 11:11
Ônibus
Estudo aponta que tarifa zero começa a recuar com cancelamento por prefeituras (Leonardo Sá/Agência Senado)

A onda da tarifa zero no transporte público começou a recuar no Brasil. Pela primeira vez desde que o passe livre começou a ser implantado, prefeituras alegam falta de verba e começaram a cancelar a gratuidade nos ônibus e a devolver a cobrança da passagem para o bolso do passageiro. Levantamento divulgado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) na última semana mostra que o ritmo de adesão ao programa desacelerou.

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Atualmente, 143 municípios oferecem transporte coletivo gratuito e universal. O auge da expansão ocorreu em 2023, quando 31 prefeituras adotaram a tarifa zero. Em 2024, esse número caiu para apenas oito novas adesões. Entre junho de 2025 e junho de 2026, outros 16 municípios passaram a oferecer o benefício. No mesmo período, no entanto, oito cidades desistiram do modelo diante da pressão sobre as contas públicas.

Entre os casos de recuo mapeados pela NTU estão Monte Mor (SP), Paulínia (SP) e Porto Real (RJ), que suspenderam o passe livre. Já São Caetano do Sul (SP) decidiu restringir a gratuidade apenas aos moradores cadastrados no sistema a partir de junho deste ano.

A pesquisa mostra que a gratuidade segue mais presente em municípios de menor porte. Cerca de 65% das cidades com tarifa zero têm menos de 50 mil habitantes. Apenas 14 municípios com mais de 100 mil moradores mantêm o benefício universal. São os casos de Canoas (RS), que prorrogou o programa até 2026, e Itaboraí (RJ), entre as adesões mais recentes nessa faixa populacional.

O cenário da tarifa zero nos Estados

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São Paulo: Lidera o ranking nacional com aproximadamente 30 municípios adotando o modelo.
Minas Gerais: Aparece na sequência, com cerca de 25 cidades com passe livre.
Paraná: Reúne 12 municípios na lista de gratuidade.
Santa Catarina: Contabiliza oito cidades com tarifa integral regulamentada. O destaque é Balneário Camboriú, que registrou um salto de 43% no número de passageiros após a implantação do sistema.
Rio Grande do Sul: Fecha a lista do Sul com três municípios operando o modelo.

Para a NTU, a desaceleração está diretamente ligada à dificuldade das prefeituras em encontrar fontes permanentes de financiamento para bancar o sistema de transporte.

“O dado comprova que o otimismo político esbarrou na dura realidade dos limites fiscais”, informou o diretor-presidente da entidade, Francisco Christovam, em nota. Segundo ele, a tarifa zero exige planejamento de longo prazo e receitas estáveis para cobrir os custos operacionais. “Não se sustenta como medida isolada. Precisamos de um pacto federativo que envolva União, estados e municípios.”

Atualmente, o transporte coletivo por ônibus movimenta cerca de R$ 75,7 bilhões por ano no país. Segundo as estimativas da NTU, uma eventual universalização da tarifa zero exigiria ampliar a frota nacional em aproximadamente 20% para atender ao aumento da demanda, elevando o custo anual para algo entre R$ 90,7 bilhões e R$ 100 bilhões. O estudo analisou 12 municípios e identificou que a gratuidade provocou um crescimento expressivo entre 33% e 371% no volume de viagens, dependendo da realidade local.

Enquanto as prefeituras adotam cautela, a discussão sobre novas formas de custeio ganhou espaço em Brasília. O Ministério das Cidades informou que o Ministério da Fazenda estuda a viabilidade econômica de um modelo nacional inspirado no Sistema Único de Saúde (SUS), apelidado de SUS do Transporte. A proposta teria custo estimado em R$ 65 bilhões por ano para os cofres da União.

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Outra alternativa em discussão é Projeto de Lei nº 4.177/2025, apresentado pelo deputado Jilmar Tatto (PT-SP). O texto propõe substituir o desconto atual de 6% do vale-transporte por uma contribuição fixa dos empregadores, com potencial de arrecadação estimado em R$ 100 bilhões anuais para financiar a mobilidade urbana.

No campo legislativo, o principal avanço foi a aprovação do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano pela Câmara dos Deputados. O texto aguarda sanção presidencial e estabelece a separação entre a chamada tarifa técnica (que representa o custo real da operação) e a tarifa pública (efetivamente paga pelo passageiro). A proposta também determina que quaisquer subsídios ao sistema tenham fonte de custeio definida em lei.

*Com supervisão de Gustavo Porto

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Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
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