‘Petroyuan’: Como o fechamento do Estreito de Ormuz fortalece a moeda da China — e ameaça a hegemonia do dólar
A guerra entre Estados Unidos e Irã colocou a principal rota do petróleo global no centro das atenções. Mas um movimento quase invisível acontece em paralelo: a formação de uma nova ameaça ao dólar, o “petroyuan”.
O renminbi (nome oficial da moeda chinesa) vem sendo utilizado desde o fim de fevereiro de 2026 para a negociação de petróleo entre o Irã e os países que querem passar pelo Estreito de Ormuz.
De acordo com o portal Catenaa Investors, a participação do yuan no comércio de petróleo cresceu de menos de 1% em 2012 para 3,7% em 2024.
Desde o fim de fevereiro, algo entre 11,7 e 16,5 milhões de barris de petróleo iraniano foram enviados à China, com todos os contratos liquidados em yuan. Os petroleiros chineses circulam livremente enquanto os demais permanecem bloqueados.
Dentro da própria rede comercial da China, a mudança é ainda mais significativa. O vice-presidente do Banco Central da China (PBoC, na sigla em inglês), Zhu Hexin, confirmou que o yuan já liquida 30% das trocas comerciais — isto é, importações e exportações — do país, um montante da ordem de US$ 6,2 trilhões.
Por que isso é uma ameaça ao dólar
Voltando alguns passos, o acordo que criou o “petrodólar” em 1974 exigia que os países exportadores e produtores usassem o dólar como moeda exclusiva das negociações de petróleo mundial.
Foi esse mecanismo que ajudou, por exemplo, a consolidar a moeda norte-americana como reserva global de valor após a quebra do padrão ouro em 1971.
Em outras palavras, é o “petrodólar” que garante a demanda pela moeda norte-americana, criando o padrão global de referência que utilizamos até hoje: mais de 57% das reservas globais são em dólar.
Entretanto, analistas do Deutsche Bank alertaram no mês passado que o conflito com o Irã “pode aprofundar fissuras já em formação no regime do petrodólar”.
Essas rachaduras começam a aparecer com o uso do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), um mecanismo de trocas internacionais paralelo ao sistema Swift, controlado pelos norte-americanos.
Em abril de 2026, o CIPS já abrangia mais de 1,5 mil bancos em 110 países e, desde 2024, o volume diário de transações triplicou.
O resultado prático: economias sob sanções podem movimentar dinheiro sem passar pelos sistemas controlados pelos EUA.
O Irã conduz, segundo relatos, mais de 80% de seu comércio de petróleo com a China em yuan — algo que pareceria impossível cinco anos atrás.