Entrevista

PicPay (PICS) é joia escondida? Potencial chega a mais de 200%; ‘temos poder de reprecificação muito alto’, diz diretor

05 maio 2026, 7:00 - atualizado em 04 maio 2026, 15:58
André Cazotto
(Imagem: Divulgação)

Quem tem pressa come cru, já diziam os antigos. No caso do PicPay (PICS), a espera para chegar à bolsa valeu a pena. Desde 2020, o banco digital sonhava em bater o sininho na Nasdaq. Em 2021, chegou a entrar com um pedido, mas desistiu devido “às condições de mercado”. Leia-se: juros altos. À época, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tentava colocar freio na inflação após o período mais agudo da pandemia.

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Cinco anos depois, a fintech da família Batista fez a sua estreia na bolsa em Nova York no topo da faixa, levantando US$ 434 milhões e sendo avaliada em US$ 2,6 bilhões, ou R$ 13,5 bilhões. O tiro foi certeiro: o Ibovespa batia recordes com o “saco sem fundo” de estrangeiros, que aportaram R$ 42,56 bilhões só em janeiro.

A queda dos juros e o aumento de liquidez fizeram as empresas sonharem com uma nova janela de IPOs. Apesar de todo otimismo que o banco provocou, o PicPay seguiu o roteiro de outras empresas que também abriram capital: queda das ações. A ação do “verdinho” acumula tombo de 34%, a US$ 13, desde que fez a sua estreia.

Mesmo assim, André Cazotto, executivo de RI, M&A e estratégia do PicPay, coloca panos quentes no desempenho. Em entrevista ao Money Times, o executivo diz que se trata de algo que não está relacionado com a empresa. A guerra do Irã pressionou o petróleo e obrigou as autoridades monetárias a revisarem os juros, o que fez os investidores correrem para ativos mais seguros.

Mas não foi só isso. Houve um mau humor generalizado com empresas de tecnologia em meio às preocupações com a disrupção com a inteligência artificial. Em sua visão, é natural que, no curto prazo, especialmente em um cenário macroeconômico mais volátil, fintechs e empresas de tecnologia com perfil de alto crescimento sofram mais. “É uma empresa que ainda precisa construir sua credibilidade como companhia aberta”.

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O executivo diz, ainda, que outras fintechs, incluindo companhias americanas como a Chime e a Klarna, que atuam em segmentos semelhantes e que, inclusive, realizaram seus IPOs recentemente, não possuem um bom desempenho na bolsa este ano. A Klarna, banco digital fundado na Suécia em 2005, desaba mais de 40% no ano.

“São companhias que tendem a sofrer mais no curto prazo. Isso reflete muito mais um movimento de rotação e redução de risco por parte dos investidores”, defende Cazotto. Em cenários mais desafiadores, explica, fundos costumam migrar de ativos mais arriscados para opções consideradas mais seguras — os chamados safe havens —, como títulos do Tesouro americano, dólar e renda fixa.

“Acreditamos que isso aqui não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona muito maior. E a gente está bastante confiante de que a companhia tem um poder de reprecificação muito alto”.

Novo Nubank?

Cazotto recorda que o Nubank (NU;ROXO34), concorrente do PicPay, também teve um início na bolsa conturbado. O “roxinho” chegou à bolsa a US$ 11 e despencou para US$ 3. Após conquistar o mercado e, mais importante, entregar resultados, a ação chegou a disparar mais de 300%.

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“É muito uma questão de construção, maturidade e de credibilidade junto ao mercado de capitais, ao mercado de equity e, obviamente, isso dentro de um cenário macro muito mais volátil, muito mais desafiador, como é o que a gente vê agora, com a escalada da guerra no Irã”.

Para analistas, o potencial é apetitoso. Segundo informações do RI do PicPay, de nove analistas, todos recomendam compra, com preço-alvo com alta média de 107%. As mais otimistas são as casas de análises gringas, como a Financial Technology Partners, um banco de investimento boutique americano com foco em fintechs, que vê o papel em US$ 39, com potencial de valorização de 227%.

Veja a tabela abaixo:

CasaPreço-alvoRecomendaçãoPotencial*
CitiUS$ 28Compra135,3%
Bank of AmericaUS$ 27Compra126,9%
RBCUS$ 20Compra68,1%
Financial Technology PartnersUS$ 39Compra227,7%
Wolfe ResearchUS$ 16Compra34,5%
MizuhoUS$ 30Compra152,1%
HSBCUS$ 21Compra76,5%
Bradesco BBIUS$ 21Compra76,5%
BB InvestimentosUS$ 20Compra68,1%

Fonte: RI // *fechamento do dia 29 de abril

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Para onde crescer

Se a expectativa do mercado é alta, a responsabilidade pela entrega dos resultados também. O banco, que surgiu em 2012, passou por várias transformações até chegar onde está. Antes, era considerado apenas um agregador de produtos de outros bancos, o que, por si só, colocava barreiras em sua expansão. Foi também um dos pioneiros em oferecer pagamentos sem custos antes do Pix.

“Oferecíamos QR Code para pequenos lojistas. Isso ajudou a alavancar bastante a marca do PicPay e trazer muitos clientes”, diz Cazotto. A partir de 2023, porém, o PicPay tomou a decisão de ir além de uma simples carteira digital: criar um banco digital que oferecesse empréstimos e cartões. E é exatamente nesses pilares que quer crescer daqui para frente.

Ao todo, a plataforma possui 67 milhões de clientes. Desses, 43 milhões são clientes ativos, com uma principalidade de 35% — ou seja, de clientes que possuem o PicPay como banco principal. A fintech guarda outros trunfos, como 11% de participação no Pix e mais de 50 milhões de cartões de crédito.

O objetivo com os US$ 434 milhões do IPO é, basicamente, capitalizar a carteira de crédito, além de quitar a compra da Kovr, seguradora que pertencia ao Banco Master e foi adquirida em setembro do ano passado. Ainda sobraria dinheiro para eventuais aquisições. Cazotto diz que a empresa sempre está olhando para novas oportunidades, mas nada transformacional.

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“Nossa estratégia de M&A (fusões e aquisições, em português) é muito pautada em identificar ativos de tecnologia que eventualmente acelerem um produto ou negócio. Então, temos preferência por M&As menores, em que a gente consiga achar bons ativos, que tenham um time muito bom, tecnologia boa, mas que eventualmente não atingiram uma escala suficiente”, diz.

Nome do jogo: Crédito com garantias

Mesmo com todo o potencial, o PicPay promete não crescer a qualquer custo. Dos R$ 4 bilhões que o banco originou, 85% foi de produtos com colateral, ou seja, com garantias, ou produtos sem colateral, como cartão de crédito, mas bastante focado em clientes mais maduros.

“Não estamos dando crédito no mar aberto. Pelo contrário: seguimos bastante seletivos tanto na oferta quanto na originação, respeitando rigorosamente os guidelines de crédito definidos internamente no PicPay”.

A ideia é que 40% da carteira tenha algum tipo de garantia. O executivo diz, ainda, que, quando se pega a formação de estágio 3, que representa a carteira mais estressada, o indicador está entre 3,7% e 4% por trimestre e deve permanecer estável. “Assim, o banco tem conseguido expandir a carteira de forma saudável e diversificada. Atualmente, há um foco maior no crédito consignado privado”.

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Para o executivo, o produto era, talvez, o último mercado cativo para os bancos e para os incumbentes. “Era um relacionamento muito direto com o empregador. Praticamente impossível para um player como o PicPay disputar com os grandes bancos esse mercado. A partir do momento em que o governo desenvolve a plataforma, traz a possibilidade de novos agentes entrarem”.

A entrada, contudo, não foi simples. Nas primeiras safras, ainda em 2025, a empresa enfrentou dificuldades operacionais, algo considerado natural para um produto em fase inicial. Com o tempo, no entanto, esses problemas foram sendo corrigidos, o que aumentou a confiança da fintech.

Hoje, o ritmo é outro. O PicPay já origina cerca de R$ 600 milhões por mês em crédito consignado privado e alcançou aproximadamente 4% de market share nas novas concessões, segundo os dados mais recentes disponíveis.

“Ao longo do tempo, a gente foi vendo que as falhas foram sendo, de certa forma, endereçadas. O produto foi ficando mais robusto, a gente foi ganhando confiança. Estamos vendo um retorno muito interessante, unit economics bastante saudável, e é um mercado endereçável muito grande”.

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O verdadeiro concorrente são os bancões

Engana-se, contudo, quem pensa que os principais concorrentes do PicPay são Inter (INBR32) ou Nubank. De acordo com Cazotto, os bancões são os nomes a serem batidos. “Quando se olha a base que migra para o PicPay, fica claro que esses usuários vêm, de fato, dessas instituições tradicionais”.

Além disso, ainda há uma concentração relevante de mercado. Ao se olhar para o profit pool (total de lucros gerados em todos os pontos da cadeia de valor de uma indústria), cerca de 75% ainda está nas mãos dos incumbentes — “esse é o primeiro ponto”.

“Não acreditamos que este seja um mercado de one winner takes all (apenas um vencedor). Entendemos que existem players que já conquistaram escala e construíram marcas muito fortes, como o próprio Nubank e o Inter. O PicPay também está nesse grupo — são empresas que devem construir trajetórias bastante bem-sucedidas nos próximos anos”.

Cazotto lembra ainda que, em média, o custo de servir dos players digitais com escala — como PicPay, Nubank e Inter — é de oito a nove vezes menor do que o dos bancos tradicionais, que operam com agências físicas, estruturas maiores e milhares de funcionários.

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“Isso significa que não apenas estamos ganhando participação no profit pool dos incumbentes, mas também ampliando esse mercado. À medida que o cliente centraliza sua vida financeira no PicPay, conseguimos gerar mais resultado e retorno, justamente por conta de uma estrutura de custos mais enxuta em comparação com os bancos tradicionais”.

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Editor-assistente
Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cobre mercados desde 2018. Ficou entre os jornalistas +Admirados da Imprensa de Economia e Finanças das edições de 2022, 2023 e 2024. Possui curso intensivo de mercado de capitais oferecido pelo Insper em parceria com a B3. É também setorista de bancos. Antes, atuou na assessoria de imprensa do Ministério Público do Trabalho e como repórter do portal Suno Notícias, da Suno Research.
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