Coluna
Agronegócio, Mercado e Sustentabilidade

Plano Safra 2026/2027: Os desafios e certezas para a construção do novo programa

11 maio 2026, 15:48 - atualizado em 11 maio 2026, 15:48
plano safra agronegócio
(iStock.com/Denisfilm)

Com o último Plano Safra se aproximando de R$ 600 bilhões — considerando os recursos destinados à Agricultura Empresarial e à Agricultura Familiar — intensificam-se as discussões sobre as diretrizes, o alcance e a disponibilidade orçamentária do Plano Safra 2026/2027.

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Nos últimos dias, o novo ministro da Agricultura, André de Paula percorreu feiras e exposições agropecuárias, como a Agrishow, além de participar de reuniões com entidades do setor em Brasília e São Paulo. O objetivo tem sido alinhar premissas para a elaboração daquele que segue como um dos principais instrumentos de política pública voltados ao agronegócio brasileiro.

Em ano eleitoral, naturalmente, os desafios passam a ocupar ainda mais espaço nas agendas e nas discussões do setor. Por outro lado, a disposição ao diálogo também costuma se intensificar nesse período, o que facilita a apresentação de demandas históricas do agronegócio para serem contempladas nas políticas públicas — especialmente no Plano Safra.

Desafios são multifacetados

Apesar do crescimento do setor, que em 2025 alcançou o valor histórico de R$ 3,2 trilhões em Valor Bruto da Produção (VBP), com alta de cerca de 12% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados por Cepea, Esalq e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, as perspectivas para 2026 ainda apontam desafios relevantes. Entre eles:

  • Cenário internacional desafiador: a possibilidade de novas tarifas sobre produtos exportados para os Estados Unidos, os conflitos no Oriente Médio — que encarecem e dificultam o acesso a insumos — e a persistência de barreiras não tarifárias continuam adicionando volatilidade ao mercado global e dificultando o planejamento da safra;
  • Preços dos produtos agropecuários: com exceção de segmentos como carne bovina e café, os preços da maior parte dos produtos agropecuários tendem a recuar em 2026, influenciados pela volatilidade dos mercados e pelos efeitos da supersafra anterior;
  • Margens comprimidas: além da pressão causada pela queda de preços, os produtores também devem enfrentar aumento de custos tributários, decorrentes tanto da minirreforma da tributação sobre a renda quanto da implementação gradual da Reforma Tributária;
  • Restrição orçamentária: apesar da recente trajetória de queda da taxa Selic, o espaço fiscal para equalização de juros e ampliação do crédito oficial — sobretudo para a agricultura familiar — ainda deve permanecer limitado, exigindo maior cautela na alocação de recursos;
  • Questões climáticas: previsões recentes indicam risco de ocorrência de um “Super El Niño” a partir do segundo semestre de 2026, com efeitos possivelmente estendidos até 2027. O fenômeno, caracterizado pelo superaquecimento das águas do Oceano Pacífico, pode alterar significativamente o regime de chuvas, elevando os riscos de enchentes e prejudicando tanto a produção quanto o escoamento das safras.

Se compreendidos e enfrentados de forma conjunta pelo setor privado, pelo governo e pela sociedade, esses desafios podem ter seus impactos mitigados por meio de instrumentos de política pública como o Plano Safra. Nesse contexto, os encontros entre representantes do agronegócio e gestores públicos tornam-se fundamentais para o planejamento da safra 2026/2027 e para a definição de medidas estratégicas.

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Algumas certezas que podem nortear o Plano Safra 2026/2027

Por outro lado, diante das dificuldades enfrentadas nos últimos anos — especialmente em relação à escassez de recursos orçamentários desde o Plano Safra 2020/2021, em meio aos efeitos da pandemia e das limitações impostas pelo novo arcabouço fiscal — algumas tendências parecem mais consolidadas e devem orientar a formulação do novo programa.

  • Fortalecimento do mercado de capitais no agro: apesar do aumento de pedidos de recuperação judicial e de inadimplência em parte do setor, o mercado de capitais segue ampliando a oferta de recursos para o agronegócio, especialmente por meio dos Fiagros e de títulos ligados ao setor. Segundo dados do próprio Ministério da Agricultura, o estoque desses instrumentos já supera R$ 1,5 trilhão, equivalente a cerca de metade do PIB do agronegócio;
  • Reforço ao seguro rural: há consenso crescente de que o enfrentamento das mudanças climáticas exige uma reformulação do seguro rural, acompanhada de dotações orçamentárias mais robustas para ampliar a cobertura e a previsibilidade ao produtor;
  • Possível ampliação dos recursos: ainda que a redução da Selic tenha sido modesta até o momento, a expectativa de continuidade desse movimento no médio prazo pode abrir espaço para aumento das dotações voltadas ao crédito rural e às equalizações de juros;
  • Novos marcos regulatórios: a discussão de iniciativas como a chamada “Lei do Agro 3” reforça a sinalização de construção de instrumentos regulatórios contracíclicos. Embora não representem, isoladamente, aumento imediato de recursos, essas medidas podem fortalecer mecanismos complementares ao crédito rural tradicional, como os próprios Fiagros, ampliando as alternativas de financiamento ao setor.

Em síntese, o ambiente eleitoral pode favorecer o avanço do diálogo entre governo e setor produtivo, contribuindo para destravar pautas relevantes e incorporar ao Plano Safra 2026/2027 algumas das principais demandas do agronegócio.

Se bem estruturado, o programa poderá continuar oferecendo condições para que 2026 seja um ano de oportunidades para quem produz, trabalha e investe na cadeia do agro brasileiro.

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Advogado especializado em Direito do Agronegócio
André Passos é advogado especializado em Direito do Agronegócio, Direito Tributário, Direito Societário, Contencioso Cível, Operações Estruturadas e Negócios. É sócio-fundador do Passos e Sticca Advogados Associados (PSAA), com MBA em Finanças e Mercado de Capitais pela MP Consultoria/Banco BBM, LLM em Direito do Mercado Financeiro e de Capitais pelo Ibmec e bacharel em direito pela UERJ. É também professor nos programas de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e conselheiro fiscal da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
André Passos é advogado especializado em Direito do Agronegócio, Direito Tributário, Direito Societário, Contencioso Cível, Operações Estruturadas e Negócios. É sócio-fundador do Passos e Sticca Advogados Associados (PSAA), com MBA em Finanças e Mercado de Capitais pela MP Consultoria/Banco BBM, LLM em Direito do Mercado Financeiro e de Capitais pelo Ibmec e bacharel em direito pela UERJ. É também professor nos programas de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e conselheiro fiscal da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
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