Mercados

Por que os preços das commodities agrícolas acompanham cada vez mais os combustíveis?

12 ago 2026, 8:30
combustíveis commodities biocombustível
(iStock.com/SimonSkafar)

A relação entre o mercado de energia e o agronegócio está ficando cada vez mais estreita. À medida que petróleo e biocombustíveis ganham importância na matriz energética, os preços das commodities agrícolas passam a responder não apenas à oferta e à demanda por alimentos, mas também às condições do mercado de combustíveis.

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Essa é a principal conclusão de uma análise da equipe de agricultura do Goldman Sachs, que aponta os biocombustíveis como um vetor cada vez mais relevante para a formação dos preços de grãos, açúcar e óleos vegetais.

A lógica é simples: quando o petróleo sobe ou os governos aumentam os mandatos de mistura de biocombustíveis, torna-se mais rentável — ou obrigatório — direcionar uma parcela maior das safras para a produção de combustível. Com isso, aumenta a competição entre os mercados de alimentos, ração animal e energia, dando suporte aos preços das matérias-primas agrícolas.

Segundo o banco, os biocombustíveis já representam uma indústria de aproximadamente 3,5 milhões de barris por dia, sendo cerca de 95% do consumo destinado ao transporte. Estados Unidos, Brasil e União Europeia concentram aproximadamente 80% da produção mundial.

Petróleo mais caro, agricultura mais valorizada

O movimento ganhou força no primeiro semestre de 2026, quando a alta dos preços do petróleo impulsionou a demanda por biocombustíveis.

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Mas o Goldman Sachs vê outro fator estrutural: os governos podem continuar elevando os mandatos de mistura para reduzir a dependência energética, diversificar a matriz e, em alguns casos, apoiar a renda dos produtores rurais.

O Brasil é um exemplo importante. O país elevou recentemente a mistura obrigatória de etanol na gasolina para 32% (E32). Na Indonésia, o mandato de biodiesel de palma chegou a 50% (B50).

Nos Estados Unidos, o impacto já pode ser observado no mercado de soja. A parcela do óleo de soja destinada aos biocombustíveis aumentou de cerca de 40% em 2020 para aproximadamente 55% em 2026, segundo o Goldman.

Ou seja, uma fatia crescente de uma commodity tradicionalmente associada à alimentação e à ração animal passou a competir diretamente com o setor de energia.

Cada país tem seu “combustível agrícola”

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A conexão entre agricultura e energia, porém, não acontece da mesma maneira em todos os mercados. A disponibilidade local de matérias-primas determina, em grande medida, qual biocombustível predomina em cada região.

Nos Estados Unidos, o milho é a principal matéria-prima para o etanol. No Brasil, a indústria utiliza principalmente cana-de-açúcar e milho. A Indonésia se destaca pelo biodiesel produzido a partir do óleo de palma, enquanto a Europa tem maior exposição ao biodiesel de canola.

O etanol responde por aproximadamente 60% do consumo global de biocombustíveis, de acordo com o banco.

No caso do biodiesel, a relação com as commodities é ainda mais direta. Soja, palma e canola precisam ser esmagadas para separar o óleo vegetal do farelo. O óleo pode seguir para alimentos ou combustíveis, enquanto o farelo é destinado principalmente à alimentação animal.

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Isso significa que o aumento da demanda por biodiesel pode afetar simultaneamente preços do óleo vegetal e do complexo de proteínas, ao alterar a economia do esmagamento das oleaginosas.

Brasil mostra como açúcar e etanol disputam a mesma matéria-prima

O Brasil oferece talvez o exemplo mais claro de como o mercado de energia pode alterar os fundamentos de uma commodity agrícola.

As usinas brasileiras são capazes de direcionar a cana-de-açúcar para a produção de açúcar ou etanol, dependendo da rentabilidade relativa de cada produto.

A produção de açúcar, porém, costuma estar limitada a aproximadamente 50% da cana processada. Assim, quando os preços do etanol ficam mais atrativos, a principal resposta das usinas é aumentar a produção de biocombustível.

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Foi o que aconteceu em 2018/19, quando um excedente global de açúcar derrubou os preços da commodity e tornou o etanol relativamente mais atrativo, levando as usinas a direcionar mais cana para o biocombustível.

O movimento voltou a aparecer em 2026. Segundo o Goldman, a alta dos preços do petróleo após a disrupção no Estreito de Ormuz elevou os preços do etanol, aproximando-os dos preços do açúcar e incentivando novamente um maior direcionamento da cana para o combustível.

É esse mecanismo que ajuda a explicar por que petróleo, etanol, açúcar e cana estão cada vez mais conectados.

O limite está na capacidade de produzir e misturar

A relação, contudo, não é ilimitada.

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No curto prazo, produtores e usinas possuem alguma flexibilidade para responder aos preços. Uma usina brasileira, por exemplo, pode alterar a proporção de cana destinada a açúcar e etanol.

Mas a oferta agrícola é, em última instância, limitada dentro de cada ano-safra. Além disso, construir novas usinas, esmagadoras e outras estruturas de processamento leva tempo.

É por isso que uma aceleração da demanda por biocombustíveis pode gerar pressão sobre as matérias-primas agrícolas antes que a oferta consiga responder.

Existe ainda uma segunda limitação: o chamado blend wall, ou limite técnico para a quantidade de biocombustível que motores, veículos e infraestrutura conseguem absorver.

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No Brasil e na Indonésia, essa restrição começa a ganhar importância à medida que os níveis de mistura se aproximam dos limites técnicos. Nos Estados Unidos e na Europa, por outro lado, os limites são em grande parte determinados por regras de qualidade dos combustíveis e certificação de veículos — e poderiam ser elevados caso os governos decidissem alterar esses padrões.

O que isso significa para os preços agrícolas?

A conclusão do Goldman Sachs é que o mercado agrícola está cada vez mais conectado ao mercado de energia.

Quando o petróleo sobe, os biocombustíveis tendem a ficar mais competitivos e a demanda por suas matérias-primas pode aumentar. Quando governos elevam os mandatos de mistura, uma parcela maior da produção agrícola passa a ter como destino obrigatório o setor de combustíveis.

Em ambos os casos, o resultado potencial é semelhante: mais competição por uma oferta agrícola que não consegue aumentar rapidamente.

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Isso ajuda a explicar por que, para commodities como milho, soja, óleos vegetais, açúcar e cana-de-açúcar, olhar apenas para a demanda por alimentos pode não ser mais suficiente.

Cada vez mais, é preciso acompanhar também petróleo, políticas de biocombustíveis e capacidade de processamento.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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