Quais são os riscos relacionados à negociação de ativos sintéticos?

Brave New Coin
04/08/2021 - 15:39
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Segundo o token sintético da Abra, se o preço da Apple subisse ou descesse, uma quantia equivalente de bitcoin seria adicionada ou subtraída do contrato do usuário (Imagem: Unsplash/jeremy0)

Ativos sintéticos: é possível obter rendimentos
sem se expor a riscos?

O caso da Abra

A plataforma de investimentos em criptomoedas Abra também desenvolveu um modelo que permite que usuários depositem garantias em cripto para criarem ativos sintéticos.

No modelo da Abra, se um usuário quiser comprar US$ 5 mil em ações da Apple (APPL; APPL34), a Abra iria lastrear US$ 5 mil em bitcoin (BTC) dos usuários para o preço da ação da Apple.

Se o preço da Apple subir ou descer, uma quantia equivalente de bitcoin será adicionada ou subtraída do contrato do usuário.

Basicamente, no modelo da Abra, o investidor está abrindo uma posição de venda (“short position”) em bitcoin enquanto abre uma posição de compra (“long position”) na Apple. De modo inverso, a corretora está abrindo uma posição de compra em bitcoin e uma de venda em ações da Apple.

Em julho de 2020, reguladores americanos, a Comissão de Valores Mobiliários e de Câmbio dos EUA (SEC) e a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) se uniram para emitir uma multa à Abra.

A multa foi emitida apesar de a empresa não ter oferecido seus serviços a clientes americanos. Segundo a SEC, Abra desenvolveu um aplicativo que “permite que usuários apostem nas movimentações de preço de valores mobiliários de capital próprio listado nos EUA”.

Após investigações, a agência descobriu que “esses contratos eram swaps baseados em valores mobiliários, sujeitos às leis americanas”.

Sob o Teste de Howey da SEC dos EUA, um valor mobiliário é um investimento em que o investidor possui a expectativa de obter lucros derivados do esforço de outros (Imagem: Unsplash/executium)

A SEC explicou que a Abra promoveu seu aplicativo a clientes do varejo e, assim, não fez nada para determinar se usuários que haviam baixado o aplicativo eram “participantes qualificados do contrato”, conforme a definição das leis de valores mobiliários.

A declaração da SEC também afirma que a agência entrou em contato com a Abra sobre seus contratos sintéticos de swap de valores mobiliários no ano anterior, em 2019.

Após responder a SEC, Abra parou de oferecer os contratos entre fevereiro e maio de 2019. Em maio, tentou oferecer novamente esses ativos em uma tentativa de limitar as ofertas e vendas a pessoas fora dos EUA.

Presidente da SEC afirma que tokens de ações
e stablecoins devem obedecer à comissão

De acordo com Daniel Michael, diretor da Unidade de Instrumentos Financeiros Complexos do Departamento de Medidas Coercitivas da SEC:

Empresas não podem ignorar os requisitos criados para fornecer aos investidores a informação necessária para avaliar transações de valores mobiliários.

Além disso, empresas que estruturam e afetam swaps baseados em valores mobiliários podem não infringir as leis federais de valores mobiliários com investidores americanos de varejo ao escolherem uma entidade estrangeira como uma contraparte enquanto operam partes fundamentais de seus negócios nos Estados Unidos.

Tanto nas finanças digitais como nas tradicionais, a emissão e interação com ativos sintéticos possuem riscos e restrições jurisdicionais.

Um fundo negociado em bolsa (ETF) sintético é um produto agrupado de investimentos que aloca em derivativos e swaps em vez de adquirirem fisicamente os ativos do fundo.

Nos ETFs físicos, ações são investidas e reunidas com o objetivo de replicar o desempenho de um índice, como o S&P 500, ou um grupo de ações. Já ETFs sintéticos usam produtos derivativos para replicar retornos de índices.

ETFs sintéticos são populares na Europa, mas são altamente regulados nos EUA. “ETFs sintéticos são estruturas mais arriscadas do que ETFs físicos porque investidores estão expostos ao risco de contraparte”, segundo um estudo feito pelo Federal Reserve dos EUA em 2017.

Além do risco de contraparte, também existem riscos no rastreamento de preço e riscos de garantia relacionados a ETFs sintéticos.

Desde 2012, a popularidade de ETFs sintéticos reduziu drasticamente, conforme a quantidade de ativos sob gestão (AUM) na indústria migrou para ETFs físicos.

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(Imagem: Deutsche Bank)

Em entrevista ao Financial Times, Terry Smith, diretor-executivo da Fundsmith, indagou:

E se a contraparte que fornece os swaps fracassar? Esse risco pode ter sido considerado como algo teórico mas, após o colapso do Lehman [Brothers]… não parece mais ser.

A analogia de Smith também funciona bem para sintéticos no setor blockchain. Existem riscos de contraparte com a negociação na Synthetix ou de manter os ativos da Synthetix no protocolo.

No caso da Synthetix, o risco de contraparte é descentralizado. Existe a confiança de que fornecedores de garantias possam cumprir com suas obrigações e não haja liquidações em série ou que uma única grande liquidação apresente um risco sistemático.

Assim como o modelo usado pela Abra, precisa haver um nível de confiança de que todos os swaps sintéticos da plataforma sejam lastreados por bitcoin físico. Usuários precisam confiar que não estão apenas lidando com números em um aplicativo.

Ativos sintéticos são ferramentas que permitem que mercados financeiros se expandam, se tornem sem fronteiras e reduzam requisitos de capital.

Embora sejam um instrumento muito útil e positivo à indústria, existem riscos inerentes tanto em sua forma tradicional como em sua forma descentralizada. Investidores precisam se manter atentos e serem espertos ao interagirem com eles.

Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 04/08/2021 - 15:40

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