Eleições 2026

Radar das Eleições: Debates perdem força nas eleições e PSDB enfrenta crise de identidade

26 ago 2026, 18:07 - atualizado em 26 ago 2026, 18:19

A ascensão das redes sociais e a consolidação da polarização entre lulismo e bolsonarismo reduziram a um segundo plano os tradicionais debates entre candidatos, nas eleições presidenciais. Esse foi o ponto central da quinta edição do Radar das Eleições, que tratou também sobre a crise de identidade do PSDB.

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O programa do Money Times, apresentado por Paula Comassetto, contou com as participações de Gustavo Porto, editor de Política do portal, e do cientista político Henrique Curi, consultor da Metapolítica Consultoria.

Para Curi, os debates tradicionais passaram a ter uma função diferente daquela que exerciam em eleições anteriores. Em vez de serem necessariamente instrumentos para conquistar eleitores indecisos ou mudar preferências, funcionam cada vez mais como uma oportunidade para candidatos reforçarem posições já consolidadas e produzirem conteúdo para as redes sociais.

“As redes sociais acabam potencializando esse caráter do debate eleitoral, que prega para convertido”, afirmou Curi. Segundo ele, dificilmente um eleitor que chega ao debate com uma preferência definida muda de opinião apenas em função do desempenho dos candidatos no confronto televisivo. A preferência, em muitos casos, já foi construída ou reforçada anteriormente nas redes sociais.

Redes sociais criam “bolhas” e mudam função dos debates

A lógica dos algoritmos contribui para esse processo fora da TV. Ao identificar as preferências de cada usuário, as plataformas tendem a entregar conteúdos alinhados aos interesses daquele eleitor, criando o que Curi classificou como “câmaras de eco”. O resultado é uma exposição menor a opiniões divergentes e uma relação cada vez mais segmentada com a política.

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Nesse ambiente, o debate passa a ser menos importante pelo conteúdo integral apresentado pelos candidatos e mais pelos trechos que conseguem repercutir posteriormente nas redes. Candidatos precisam, além de responder aos adversários, produzir frases e momentos capazes de gerar cortes e circulação nas plataformas digitais.

“No debate eleitoral, às vezes um debate muito extenso, o que o candidato precisa é também gerar conteúdo para as redes sociais”, afirmou Curi.

Ausência de Lula e Flávio pode ser estratégia eleitoral

A perda de importância dos debates e a polarização recente entre duas correntes opostas também ajuda a explicar a decisão de candidatos como Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro de não participar de confrontos, como o do realizado pelo Grupo Bandeirantes no último domingo (23), que abriu o calendário de debates nas eleições deste ano.

A ausência pode ser racional do ponto de vista eleitoral para quem já possui um eleitorado consolidado. No caso de Flávio Bolsonaro, Curi avaliou que a estratégia de não participar fazia sentido porque os demais candidatos tinham maior interesse em atacá-lo e retirar votos de sua base. “Todos os outros candidatos querem tirar voto dele”, afirmou.

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A lógica seria diferente para candidatos menos conhecidos nacionalmente, como Romeu Zema. Com baixa rejeição, mas também com menor grau de conhecimento nacional, Zema teria pouco a perder e poderia utilizar o palco para nacionalizar seu nome.

O debate analisado no programa também mostrou, segundo os participantes, como estilos diferentes de formação política podem produzir desempenhos distintos. Renan Santos, associado a uma formação política fortemente ligada às redes sociais, adotou uma postura mais agressiva. Ronaldo Caiado apareceu de maneira mais ponderada, enquanto Augusto Cury apresentou um perfil mais conciliador.

O fim da hegemonia do PSDB

A discussão sobre a transformação dos debates levou o programa a outro fenômeno central da política brasileira: o enfraquecimento dos partidos tradicionais e, especialmente, a trajetória do PSDB. O partido que durante décadas foi um dos principais protagonistas da política nacional não terá candidato à Presidência da República pela segunda eleição consecutiva e, de forma inédita, não indicou candidato ao governo de São Paulo, Estado onde nasceu e onde construiu uma de suas principais bases políticas.

Para Curi, quem tem tese de mestrado sobre o PSDB, e estuda o partido durante seu doutorado, não é possível atribuir a decadência tucana a uma única liderança ou episódio. “Não existe uma única variável, um único fator, é multifatorial, e é um processo”, afirmou, rejeitando explicações que coloquem a responsabilidade em nomes como João Doria ou Aécio Neves.

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Um dos momentos apontados como decisivos foi a eleição presidencial de 2002. Naquele ano, o PSDB apresentou José Serra como candidato à sucessão de Fernando Henrique Cardoso, mas adotou o discurso de “mudança” em vez de explorar de maneira mais contundente o legado tucano de dois mandatos de FHC.

“Você tem um primeiro momento que é, no mínimo, estranho para um partido que quer continuar sendo governo, falar sobre mudança”, afirmou Curi. O cientista político lembrou que a necessidade de mudança dentro do PSDB é discutida há pelo menos duas décadas. Em 2017, a legenda chegou a reformular sua identidade visual, substituindo o tradicional tucano pela bandeira do Brasil e apresentando-se como o “novo PSDB”. Não deu certo.

O PSDB, segundo o cientista político e consultor, não conseguiu construir uma identificação partidária tão forte quanto a criada pelo PT, por exemplo. Enquanto cerca de 20% do eleitorado se identifica como petista, nenhum outro partido conseguiu estabelecer uma relação semelhante e duradoura com sua base.

O resultado foi uma disputa política cada vez mais estruturada em torno de petismo e antipetismo, sem que o PSDB conseguisse ocupar permanentemente o espaço de principal alternativa.

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Outro ponto destacado por Curi foi a dificuldade de articulação interna, com lideranças que passaram a divergir sobre os rumos do partido. Esse processo ficou particularmente evidente em 2018, quando candidatos tucanos aos governos estaduais apoiaram Jair Bolsonaro já no primeiro turno, em vez de seguirem a candidatura presidencial de Geraldo Alckmin, que à época ainda estava no PSDB.

O contraste com o PT é significativo. Mesmo depois do impeachment de Dilma Rousseff, da derrota nas eleições municipais de 2016 e da prisão de Lula, o PT conseguiu sobreviver e preservar sua diferenciação ideológica. Para Curi, partidos que possuem raízes profundas na sociedade tendem a resistem melhor a choques eleitorais e políticos.

A questão agora é saber se ainda existe espaço para a reconstrução do PSDB no sistema partidário brasileiro. A dificuldade de diferenciação dos tucanos para outras legendas ao longo dos anos mostra que será difícil que isso ocorra no curto prazo. “Qual a diferença do PSDB hoje para o PSD, para o União Brasil?”, indagou Curi.

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Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.

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