Selic não deu conta? Economista-chefe do Inter explica alta do crédito e fala de medidas pelo BC
A taxa Selic chegou a 15% ao ano durante 2026, mas o crescimento de algumas modalidades de crédito resistiu aos juros altos. Para a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, esse é um dos motivos para o Banco Central discutir medidas direcionadas ao crédito enquanto conduz um ciclo de cortes da taxa básica.
“O Banco Central aumentou a taxa de juros e não conseguiu conter essa expansão de crédito, que é o grande objetivo da política monetária”, afirmou Vitória em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (25). Ela citou o rotativo do cartão e o novo consignado privado entre as linhas que continuaram crescendo.
Os dados do BC ajudam a dimensionar a expansão e seus riscos. As novas concessões de consignado a trabalhadores do setor privado, por exemplo, somaram R$ 8,832 bilhões em julho, ante R$ 7,679 bilhões em junho. Ao mesmo tempo, a inadimplência da modalidade — operações com parcelas em atraso há mais de 90 dias — subiu de 8,68% para 10,03%. Um ano antes, estava em 6,17%.
Esses indicadores abrangem o consignado privado como um todo, não apenas os contratos do novo Crédito do Trabalhador. Segundo o BC, as operações do programa se concentram nessa modalidade. Os números também não permitem identificar, isoladamente, a causa da alta da inadimplência.
A economista, porém, apontou um problema operacional no novo consignado: quando o trabalhador troca de emprego, o desconto das parcelas precisa ser vinculado à folha do novo empregador. Segundo ela, a demora nessa revinculação faz com que parte das prestações fique em atraso. Vitória espera que ajustes no processo comecem a produzir efeitos nos próximos meses.
Como conter o crédito sem interromper os cortes da Selic?
Na avaliação de Rafaela, a política monetária está agindo com atraso. Ela disse que estímulos fiscais e creditícios deram mais fôlego às famílias e prolongaram o ciclo de expansão dos empréstimos. Por isso, medidas específicas para determinadas operações poderiam conter o crédito sem exigir uma nova alta generalizada da Selic.
A economista citou como hipótese discutida pelo mercado o aumento da exigência de capital para certas carteiras. Se adotada, a regra obrigaria os bancos a reservar mais recursos para conceder esses empréstimos, o que poderia reduzir seu apetite pela modalidade. Rafaela ressaltou que o BC não anunciou essa medida.
Na quinta-feira (24), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que a autoridade estuda limitar ofertas predatórias e criar etapas para que o consumidor compreenda melhor o custo da dívida antes de contratá-la. Ele não detalhou as regras nem informou quando entrariam em vigor.
As duas discussões se encontram na preocupação com a expansão do crédito, mas têm alcances diferentes: Rafaela citou o Crédito do Trabalhador como exemplo de linha que cresceu apesar da Selic alta, mas ela não o classificou como crédito predatório.
Para o Inter, o desafio do BC é impedir que modalidades de crédito continuem estimulando o consumo e enfraqueçam o efeito dos juros, sem precisar interromper por esse motivo o ciclo de cortes.