Subiu a régua: Goldman Sachs vê inflação fechando o ano a 4,8% e cenário mais desafiador para o BC
O Goldman Sachs revisou para cima sua projeção para a inflação brasileira em 2026, elevando a estimativa do IPCA de 4,5% para 4,8%, em um cenário de deterioração mais ampla das pressões inflacionárias. Segundo o banco, a combinação de choques de oferta e demanda tem tornado o ambiente mais complexo e reduzido a margem de manobra da política monetária.
A revisão ocorre em meio à alta recente dos preços de energia, impulsionada pelo choque no petróleo e gás após o conflito no Oriente Médio. Esse movimento tem se espalhado por toda a cadeia produtiva, afetando desde combustíveis até insumos industriais, fertilizantes e custos de transporte.
Além disso, os dados mais recentes de inflação mostraram surpresas negativas. Em março, o IPCA veio acima do esperado, com avanço relevante em núcleos e serviços, indicando que as pressões estão mais disseminadas pela economia.
Outro ponto de atenção destacado pelo banco é a perda de força dos principais “amortecedores” da inflação até então: alimentos e combustíveis. A inflação de alimentos no domicílio voltou a acelerar, enquanto a alimentação fora de casa segue em níveis elevados, ao redor de 6,5%. Já os combustíveis, que vinham contribuindo para conter o índice, passaram a pressionar novamente.
As expectativas de inflação também pioraram. A mediana das projeções para 2026 subiu para 4,8%, acima do teto da meta, enquanto indicadores antecedentes, como os PMIs, apontam para aumento dos custos e maior repasse de preços à frente.
Na avaliação do Goldman, o cenário atual reúne um choque negativo de oferta, com energia mais cara, e um impulso positivo de demanda, sustentado por políticas fiscais e de crédito mais expansionistas. Esse ambiente aumenta o risco de efeitos de segunda ordem, como reajustes salariais e disseminação mais ampla da inflação.
Selic deve cair mais devagar
Diante desse quadro, o banco também revisou sua expectativa para a trajetória da taxa básica de juros. Agora, a instituição projeta um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Banco Central, ante 0,50 ponto esperado anteriormente.
A avaliação é que a piora das expectativas de inflação, somada ao cenário de atividade resiliente, mercado de trabalho aquecido e maior incerteza global exige uma postura mais cautelosa por parte da autoridade monetária.
Com isso, o Goldman Sachs espera que a Selic encerre 2026 em 13% e 2027, em 10,75%.
Para os analistas, apesar da valorização do real e de condições externas ainda favoráveis, o ambiente doméstico segue desafiador e deve dificultar a convergência da inflação à meta.