Surpresa baixista no IPCA-15 não muda tese de inflação pressionada, e risco segue no radar
O IPCA-15 de abril trouxe um alívio parcial para o mercado, mas sem alterar de forma relevante o diagnóstico de uma inflação ainda resistente. A alta de 0,89% no mês ficou abaixo das expectativas – que giravam entre 0,98% e 1,01% – mas a composição do índice segue longe de confortável.
Em 12 meses, o indicador acelerou para 4,37%, ante 3,90% anteriormente, enquanto no acumulado do ano a alta é de 2,39%.
A surpresa baixista esteve concentrada em itens voláteis, especialmente passagens aéreas. Na avaliação da Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, esse movimento tende a ser temporário.
“A principal surpresa baixista concentrou-se em passagens aéreas”, afirma a profissional, acrescentando que a tendência é de reversão parcial diante do avanço da guerra e seus impactos sobre o querosene de aviação.
A Genial Investimentos reforça essa leitura ao mostrar que o alívio no índice cheio esconde uma dinâmica menos favorável. “Sem passagem aérea, o índice teria registrado alta de 1,02%”, diz o economista Gabriel Pestana.
Pelo lado da ASA, a leitura segue a mesma linha. “A despeito da surpresa baixista na leitura mensal, o balanço qualitativo do IPCA-15 de abril foi pior do que o projetado”, afirma o economista-chefe, Leonardo Costa.
De onde vem a pressão?
Os principais vetores de pressão continuam concentrados em Alimentação e Transportes, que juntos responderam por cerca de 65% da alta do índice. A gasolina, com avanço de 6,23%, foi o maior impacto individual do mês.
Nos alimentos, embora o grupo tenha vindo mais fraco no agregado, itens relevantes seguem pressionados. Ainda assim, parte desse movimento foi compensada por quedas pontuais, ajudando a suavizar o resultado cheio.
Mas é nos núcleos que o sinal mais incômodo aparece.
A média dos núcleos subiu 0,47% no mês e segue em patamar elevado em 12 meses. Para a Genial, a dinâmica mais estrutural da inflação continua pressionada: “as aberturas mais inerciais e bem conectadas aos fundamentos macro seguem desfavoráveis”, destaca Pestana, citando níveis próximos de 7% no acumulado anual.
O comportamento dos bens industriais também chamou atenção. Segundo a SulAmérica, “os bens industriais voltaram a surpreender para cima, de forma disseminada”, enquanto a ASA observa que esse movimento pode refletir tanto uma mudança de sazonalidade quanto uma antecipação de preços diante das incertezas globais.
Nos serviços, houve alívio na margem, mas com sinais mistos. A leitura mais baixa do mês não elimina as pressões em segmentos ligados à demanda. “Alimentação fora do domicílio e serviços intensivos em trabalho […] surpreenderam bem para cima”, ressalta a Genial.
Na visão da ASA, a inflação de serviços segue elevada de forma estrutural, com níveis acima do teto da meta, reforçando a dificuldade de convergência mais rápida.
O pano de fundo, portanto, permanece desafiador. Para Pestana, “o índice segue refletindo uma demanda elevada e um mercado de trabalho dinâmico”, o que reforça a cautela na condução da política monetária.
Esse diagnóstico já começa a se traduzir nas projeções. A Genial revisou a estimativa para a Selic em 2026, de 12,50% para 13,25%, indicando um ciclo mais lento de cortes. Já a ASA manteve sua projeção para o IPCA de 2026 em 5%, destacando que a surpresa baixista recente está concentrada em itens de maior volatilidade.