Vorcaro pediu proteção a Moraes e consultou ministro do STF sobre necessidade de fuga
Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, enviou uma mensagem ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pedindo ajuda para tentar “reverter” o andamento das investigações contra ele junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e chegou a consultar o magistrado dois dias antes de ser preso pela primeira vez se haveria necessidade de sair do país.
Em meio ao receio de que poderia ser alvo de alguma medida da Justiça, às 21h21 de 15 de novembro do ano passado o banqueiro chega a perguntar ao magistrado se ele deveria deixar o país. “Acha que segunda já tenho que estar fora?“, disse.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”, questionou Vorcaro a Moraes, um minuto depois, numa referência indireta às duas autoridades, conforme relatório da PF que teve o sigilo derrubado nesta terça (1o) pelo relator do caso no STF, ministro André Mendonça.
As informações sugerem que Vorcaro estaria questionando Moraes sobre uma série de atos prévios da investigação e de sua primeira prisão.
Os apontamentos feitos pela PF sugerem que Moraes estaria dando dicas ao banqueiro sobre a apuração em uma conversa por mensagens que começa em torno de 21h21 do dia 15 de novembro e vai até perto das 2h do dia 16, embora não constem mensagens diretamente do magistrado a Vorcaro.
O banqueiro, nessa conversa, pergunta mais de uma vez se seria possível parar alguma ação da Justiça através de Paulo Gonet ou Andrei Rodrigues. No dia seguinte, pela manhã, Vorcaro pede para ver pessoalmente o interlocutor, apontado pela PF como sendo Moraes, e combinam um encontro no início da tarde do dia 17. A troca de mensagens sobre uma possível ação contra o banco vai até 23h48 do mesmo dia, quando Vorcaro é preso no aeroporto de Guarulhos.
A investigação mostra que as mensagens eram enviadas pelo ex-banqueiro, hoje preso, com um número de celular usado por Alexandre de Moraes. As mensagens eram escritas no bloco de notas do celular de Vorcaro e enviadas pelo aplicativo WhatsApp como imagens de visualização única. Por isso, a PF conseguiu recuperar as mensagens do ex-banqueiro, mas não as respostas do interlocutor.
Vorcaro foi preso pela primeira vez na noite do dia 17 de novembro de 2025 em uma investigação da PF por ordem da Justiça Federal de Brasília, ao tentar embarcar para Dubai. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. Solto posteriormente, ele voltou a ser preso preventivamente em março já por ordem do Supremo.
Mendonça nesta terça pediu que a Procuradoria-Geral da República se manifeste em cinco dias sobre os dados que constam do relatório.
Análise pelo Plenário do Supremo
Mendonça disse ainda que, independentemente da manifestação da PGR, é um “caminho inevitável” levar os autos ao plenário do Supremo, “instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”.
“Como não poderia deixar de ser, por imperativo constitucional e decorrência insofismável do modelo democrático e republicano expressamente adotado pela Lei Fundamental de 1988, a aludida deliberação, pelo plenário da corte, deverá ocorrer de forma pública e transparente, em sessão presencial do colegiado, a partir de data a ser definida pelo eminente presidente deste Supremo Tribunal Federal, de acordo com o pleno exercício das suas atribuições regimentais”, destacou o ministro.
O relatório da PF encaminhado a Mendonça, entretanto, não faz qualquer menção a um suposto crime cometido por Alexandre de Moraes. Procurados por meio das assessorias, Moraes, Gonet e Rodrigues não responderam de imediato a pedido de comentário.
Sem impedimento
Moraes descartou qualquer impedimento para que o escritório de advocacia liderado pela sua esposa, Viviane Barci, firmasse um contrato para prestar consultoria jurídica para o Banco Master, disse o escritório de advocacia em nota divulgada nesta terça.
Segundo a manifestação, o setor de compliance do escritório, em virtude da abrangência do contrato entre o Master e a banca de advocacia, solicitou informações a Moraes, “na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente”.
“Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, ressaltou a nota.
O relatório da PF que foi encaminhado a Mendonça e tornado público nesta terça apontou que Moraes teria editado o contrato de R$ 131 milhões do escritório liderado por sua mulher com o Master.
Conforme a PF, metadados do documento enviado pelo WhatsApp da esposa do ministro do STF ao banqueiro registraram alterações feitas ao arquivo do contrato. Em março, o escritório da mulher do ministro havia confirmado ter prestado os serviços ao Master.