Entrevista

Vulcabras (VULC3): CEO e CFO detalham efeitos da guerra, política de dividendos e próximos passos

08 maio 2026, 7:00 - atualizado em 08 maio 2026, 8:31
Pedro Bartelle, CEO da Vulcabras. (Imagem: Divulgação)
Pedro Bartelle, CEO da Vulcabras. (Imagem: Divulgação)

A Vulcabras (VULC3) se deparou com um primeiro trimestre de 2026 mais difícil do que o previsto no planejamento para o ano. Segundo o CEO Pedro Bartelle, a companhia já vinha operando com cautela diante do cenário macroeconômico global, mas a extensão do conflito no Oriente Médio demandou medidas para mitigação dos impactos.

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A empresa viu diante de si um cenário de custos maiores e necessidade de ajuste de preços em parte de seus produtos para sustentar a trajetória de crescimento que vem entregando nos últimos trimestres.

Os impactos do fechamento do Estreito de Ormuz, um dos principais canais de escoamento de petróleo no mundo, acenderam o alerta para um eventual desabastecimento de matérias-prima essenciais para a Vulcabras, em um efeito semelhante ao observado na pandemia de coronavírus.

Em entrevista ao Money Times, Bartelle pontuou que os maiores impactos do conflito geopolítico são matéria-prima e custos. Ainda que 85% da matéria-prima utilizada pela Vulcabras seja nacional, o executivo pontua que muitas são dolarizadas e sofrem um impacto relevante nos fretes.

“Essa parte de abastecimento, por enquanto, já não nos preocupa tanto. O que preocupa são os custos, que já subiram bastante e precisamos fazer uma reposição de preços”, disse. A dona das marcas Olympikus e Mizuno realizou um ajuste de até 15% em grande parte de seu portfólio, além de ter adotado como medida uma revisão de seus lançamentos.

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A companhia também revisou seu capex. Wagner Dantas, CFO da Vulcabras, disse ao Money Times que, após fechar o último ano com R$ 242 milhões em investimentos, neste ano devem focar mais em curto e médio prazo.

Para além da guerra, Bartelle acrescentou que em 2025 a companhia já havia concluído investimentos mais pesados e estruturais. Dessa maneira, o foco agora se direciona para crescimento, preservando o caixa e eficiência operacional.

“Dentro desse cenário, estamos privilegiando muito a saúde da empresa. Não sabemos como é que vai transcorrer a guerra, as eleições, etc. […] O nosso foco aqui é em saúde financeira, em continuar com os melhores resultados do setor”, disse.

Cenário macroeconômico

O ciclo de redução da taxa básica de juros (Selic) teve início em março deste ano — no entanto, em um ritmo menor do que o inicialmente esperado, com a continuidade do conflito no Oriente Médio e suas consequências dificultando uma aceleração.

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Mesmo com juros altos, a Vulcabras defendia uma posição de menor exposição aos efeitos devido às suas decisões de verticalização da empresa e cultura mais conservadora na alocação de capital. No entanto, a continuidade na pressão nos custos, consumo e endividamento das famílias está no radar da empresa.

O diretor financeiro da companhia, Wagner Dantas, pondera que o grande alerta com os impactos da guerra é de um efeito inflacionário global.

“Não é restrito ao nosso setor e não é restrito ao Brasil. O que estamos para descobrir ainda é como vai impactar o consumo, mas, de alguma forma, traz uma pressão adicional, um movimento inflacionário que deve pressionar o consumo. Tendo um movimento inflacionário, acho que deve segurar também as tendências de redução de taxas de juros que os bancos centrais estavam desenhando”, pondera.

Nesse cenário, o executivo reitera a estratégia da Vulcabras de não trabalhar com excesso de alavancagem no balanço. De acordo com Dantas, a companhia busca sempre estar líquida para enfrentar desafios macroeconômicos e investir em eventuais possibilidades que surjam nestas situações.

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“Estamos em um mercado que cresce mais que a média, em função da prática esportiva, mas é importante mantermos essa cultura [mais conservadora] em alguns momentos. Entendemos como a forma apropriada para se trabalhar no Brasil, ainda mais nesse momento”, completa o CFO.

Horizonte da Vulcabras

O CEO da companhia, Pedro Bartelle, não vê uma melhora estrutural no país a curto prazo, ponderando que o cenário atual é de um Brasil incerto, com instabilidade política e econômica.

“Por um lado, é algo que protege o empresário brasileiro, porque quando outros países veem essa complexidade toda do Brasil, surge receio e nisso podem surgir oportunidades de fazermos mais negócios para a Vulcabras”, ponderou o executivo, acrescentando que a companhia mira trazer mais marcas para o portfólio de negócios.

De acordo com Bartelle, essa ampliação depende de boas negociações. “Infelizmente, também as incertezas acabam esfriando um pouco essas negociações, mas criam oportunidades por outro lado”, disse.

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“Não esperamos a melhora. Eu não espero que o meu concorrente comece a ser mais razoável nas suas precificações e pare de liquidar […], não ficamos esperando que as taxas de juros vão baixar substancialmente, que vamos ter uma economia mais pujante… Vamos nos adaptando ao que a gente tem.”

O CFO, Wagner Dantas, completa que 2026 vai ser um ano de foco na “lição de casa”, ou seja, em reduzir o endividamento. Neste cenário, após uma expressiva distribuição de dividendos no final de 2025, a companhia não deve ter uma agenda de proventos tão forte ao longo deste ano, segundo o executivo.

“Mas a ótima notícia é que a gente tem, sim, um planejamento que vem já caminhando conforme planejado: baixar esse endividamento até o final do ano e, em patamares mais saudáveis, conforme o nosso planejamento, devemos retomar uma agenda de distribuição mais pujante”, afirmou Dantas ao Money Times.

Os números do 1T26

A Vulcabras reportou lucro líquido de R$ 80,1 milhões no primeiro trimestre de 2026 (1T26), queda de 24,5% em relação ao mesmo período do ano passado e abaixo do esperado pelo mercado. Consenso reunido pela Bloomberg apontava para um lucro de R$ 82 milhões.

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O resultado veio apesar do crescimento de dois dígitos da receita e do avanço operacional. A receita líquida somou R$ 776,4 milhões, alta de 10,7% ante o 1T25, marcando o 23º trimestre consecutivo de expansão da companhia.

O volume bruto faturado chegou a 7,6 milhões de pares e peças, avanço de 6,8% na comparação anual. Em calçados esportivos, principal categoria da companhia, o volume subiu 10,5%, para 4,8 milhões de pares.

A receita da categoria cresceu 11,3%, para R$ 653,2 milhões. A Olympikus manteve desempenho forte, com destaque para a linha de corrida de performance, enquanto a Under Armour teve o maior crescimento relativo entre as marcas, impulsionada por novos lançamentos de running. A Mizuno também seguiu em expansão, apoiada pela ampliação do portfólio.

A companhia afirmou que enfrentou pressões relevantes de custos, incluindo mão de obra, encargos trabalhistas, reajuste do salário mínimo, absenteísmo e alta de insumos ligados a derivados de petróleo. Ainda assim, o custo dos produtos vendidos caiu como proporção da receita, de 59,8% para 59,6%.

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O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) recorrente somou R$ 156,9 milhões, crescimento de 11,8% em relação ao 1T25. A margem Ebitda recorrente ficou em 20,2%, alta de 0,2 ponto percentual.

A queda do lucro veio principalmente do resultado financeiro. A Vulcabras registrou despesa financeira líquida de R$ 27,8 milhões, contra receita de R$ 2,3 milhões um ano antes.

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Repórter
Formada em jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Ingressou no Money Times em 2022 e cobre empresas, com foco em varejo e setor aéreo.
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