Bank of America e Santander veem viés de alta para soja e milho, sem ignorar El Niño; ambiente favorece uma ação
O primeiro relatório WASDE do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para safra 2026/27 reforçou a percepção de um mercado global de grãos mais apertado e reacendeu o viés altista para soja, milho e algodão. Em comum, analistas do Bank of America e do Santander avaliam que o cenário de oferta e demanda segue construtivo para os preços agrícolas — ainda que o avanço de um possível El Niño e a inflação de custos mantenham riscos importantes no radar.
Na soja, o principal destaque veio dos Estados Unidos. O USDA surpreendeu ao projetar estoques finais de apenas 8,4 milhões de toneladas para 2026/27, número 15% abaixo do consenso do mercado. A relação estoque/uso caiu para 6,9%, abaixo da média histórica de 9%, em um movimento sustentado por maior demanda doméstica, melhora nas margens de esmagamento e importações chinesas mais fortes.
Para o Bank of America, o balanço americano mais apertado ajuda a explicar a alta recente da commodity em Chicago, que já acumula valorização de 14% no ano. O banco vê espaço para novas revisões altistas, especialmente porque o primeiro WASDE ainda considera produtividades sob condições climáticas normais nos EUA.
Além disso, a instituição alerta para riscos climáticos relevantes nas próximas semanas. Condições mais secas no Meio-Oeste americano podem afetar o desenvolvimento inicial das lavouras, enquanto um possível fortalecimento do El Niño pode reduzir o potencial produtivo na América do Sul, especialmente em Brasil e Argentina.
Santander vê risco para soja com El Niño
O Santander compartilha da visão positiva para os preços agrícolas, mas destaca que o Brasil carrega riscos importantes para a próxima safra. O banco avalia que o USDA pode estar otimista demais ao projetar produção recorde de 186 milhões de toneladas de soja no país.
Nesse contexto, o Santander afirma que o cenário de oferta e demanda segue favorável para a SLC Agrícola, embora mantenha recomendação neutra para a companhia devido à pressão de custos, especialmente com frete e insumos agrícolas.
Na visão dos analistas, o ambiente de crédito mais restritivo, aliado às margens pressionadas do produtor brasileiro, pode resultar em redução de área plantada, menor investimento tecnológico e aumento do risco operacional nas lavouras. Se o El Niño avançar durante a janela de plantio, o potencial produtivo pode ficar ainda mais comprometido.
No milho, os dois bancos enxergam um mercado global estruturalmente mais apertado. O USDA projeta a menor relação estoque/uso global desde 2012/13, em 21,1%, refletindo principalmente a redução da produção americana.
O Bank of America afirma que o cenário ainda pode se tornar mais restritivo caso produtores americanos migrem área do milho para a soja, diante do elevado custo do nitrogênio. Já o Santander pondera que as condições climáticas atuais nos EUA seguem normais e podem permitir produtividade acima do esperado, o que ajudaria a estabilizar os preços após o WASDE.
Além da soja e do milho, o Santander também destaca melhora relevante nos fundamentos do algodão — commodity considerada pelo banco como a mais construtiva dentro do agronegócio atualmente.
Os preços da fibra acumulam alta de 39% desde março, impulsionados tanto pela valorização do petróleo quanto pela deterioração das condições climáticas nas regiões produtoras dos EUA. A expectativa é de queda na área plantada e redução da relação estoque/uso global de 64% para 59%.