Bradesco (BBDC4): Os pontos de atenção após resultados; analista vê ‘oportunidade’
O Bradesco (BBDC4) divulgou um lucro que, apesar de ter ficado dentro do esperado pelos analistas, acendeu um alerta, principalmente em relação à qualidade do balanço.
Por volta das 11h24, a ação caía 2,44%, a R$ 17,61, ampliando as perdas acumuladas no ano. Desde as máximas, o papel já recuou mais de 20%.
Entre os analistas, a avaliação é de que, apesar dos pontos positivos, houve uma piora na qualidade dos ativos de crédito.
A inadimplência acima de 90 dias avançou marginalmente para 4,3%, em linha com as projeções, enquanto o índice de cobertura recuou para 152,3%. Já o custo do crédito permaneceu estável em 3,5% da carteira expandida, mas houve maior pressão no segmento de varejo massificado.
Em resposta, o Bradesco reiterou que os indicadores seguem dentro de suas expectativas, embora tenha reconhecido uma deterioração do ambiente de risco de crédito no país.
Segundo o CEO Marcelo Noronha, em coletiva com jornalistas, o cenário econômico piorou, com um comprometimento ainda maior da renda das famílias.
Apesar disso, o CEO afirmou que essa é uma média. “Não vale para todos os públicos. E, com a taxa de juros permanecendo nesse patamar, não tem muito jeito.” Ainda assim, destacou que o banco possui uma carteira com um perfil “muito mais garantido”.
Em relatório, o BTG Pactual escreveu que o ambiente operacional tornou-se mais desafiador.
“Embora tenha enfatizado que os indicadores de qualidade dos ativos permanecem amplamente em linha com as expectativas, o banco observou que as condições de crédito se deterioraram.”
Os pontos negativos
Entre os pontos que os analistas destacam estão os saldos do Estágio 2, faixa que reúne operações com aumento relevante do risco de crédito, mas que ainda não são consideradas inadimplentes. Esses saldos avançaram 15%, passando a representar 5,5% da carteira de crédito, enquanto o índice de cobertura caiu 8,7 pontos percentuais no trimestre, para 152%.
Como resultado, as despesas com provisões para perdas aumentaram 22,6%, superando o crescimento da NII (Net Interest Income, ou margem financeira) e contribuindo para a queda da margem financeira ajustada ao risco.
“Embora a administração tenha atribuído uma parcela relevante do aumento no Estágio 2 a fatores específicos, incluindo a sazonalidade do Banco John Deere e exposições ligadas aos programas FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e FGO (Fundo Garantidor de Operações), esperamos que a pressão sobre os indicadores de qualidade dos ativos persista nos próximos trimestres”, destacou a XP (XP Inc.).
Ainda segundo a corretora, a normalização dessas carteiras apoiadas pelo governo deve se estender até o fim do ano, enquanto o cenário macroeconômico continua desafiador para pessoas físicas (PF) e PMEs (pequenas e médias empresas), segmentos nos quais o Bradesco mantém exposição relevante.
O Safra também afirmou que a qualidade dos ativos piorou. As provisões vieram acima do consenso e podem aumentar ainda mais caso acompanhem de perto a formação de NPLs (Non-Performing Loans, ou empréstimos inadimplentes) ou migrações do Estágio 1 para o Estágio 2.
“Isso indica mais estresse do que a linha de provisão sozinha sugeriria, além do aumento de 30 pontos-base (bps) trimestre contra trimestre (t/t) nos NPLs de curto prazo.”
Na qualidade dos ativos, o JPMorgan lembrou que a inadimplência de curto prazo, entre 15 e 90 dias, deteriorou-se em 30 pontos-base no trimestre, apesar da sazonalidade positiva, enquanto o Estágio 2 aumentou 40 pontos-base.
Olhando o copo meio cheio
Por outro lado, os analistas enxergaram um melhor desempenho da NII (margem financeira) de mercado e da linha de outros custos, rubricas que o mercado normalmente considera não recorrentes ou mais voláteis, em vez de serem o principal motor dos resultados.
Apesar disso, o resultado antes das provisões foi considerado “sólido” pelo Safra, sustentado por uma forte NII, enquanto o segmento de seguros veio um pouco mais fraco, leitura já antecipada pela Bradespar Saúde (SAUD3).
“Destacamos uma performance muito forte em DCM (Debt Capital Markets, ou mercado de capitais de dívida) e a posição do Bradesco na originação em junho, embora com distribuição menor que o habitual, o que significa que o banco está carregando esses ativos em seu próprio balanço.”
A Genial Investimentos destacou a forte expansão da carteira de crédito, que cresceu 4,3% no trimestre e 11,6% em 12 meses, acima das estimativas, impulsionada pela retomada do atacado.
“Mais importante do que o crescimento em si foi sua composição, concentrada em linhas com garantias e melhor retorno ajustado ao risco, como capital de giro colateralizado, consignado privado, crédito rural no atacado, TVMs (Títulos e Valores Mobiliários) e avais e fianças.”
A margem financeira também se destacou na visão da corretora, sustentada pela expansão dos volumes, melhora dos spreads e resultado de tesouraria acima do esperado.
O que fazer com Bradesco
No geral, os resultados não foram suficientes para alterar as recomendações dos analistas.
O Safra afirmou que o trimestre, por si só, não trouxe nenhum fator marginalmente positivo, já que muitos deles haviam sido antecipados.
“De fato, os resultados mostram que o ambiente de crédito exige cautela e traz mais risco de execução.”
Os analistas reiteraram a recomendação de compra para o papel.
“Saudamos as recentes iniciativas do Bradesco para melhorar o patrimônio tangível e navegar em um cenário macroeconômico mais desafiador.”
A Genial também reiterou a recomendação. Segundo a corretora, o banco continua avançando na realavancagem do balanço, com retomada do crédito corporativo e crescimento seletivo em linhas mais colateralizadas, ao mesmo tempo em que mantém sua agenda de transformação e eficiência.
Os analistas destacaram ainda a reorganização da BradSaúde, que permanece como uma opcionalidade relevante, com potencial para simplificar a estrutura societária, melhorar a alocação de capital e dar maior visibilidade ao valor do negócio de saúde.
“Entretanto, ainda dependemos de maior clareza sobre os termos e o cronograma da operação antes de atribuir integralmente esse potencial à tese.”
Com preço-alvo de R$ 25,00, a Genial vê potencial de valorização de 38,5%, além de um dividend yield (rendimento com dividendos) estimado em 5,9%.
“Negociando a 6,8 vezes o P/L (Preço/Lucro) estimado para 2026, 5,9 vezes o P/L estimado para 2027 e 1,0 vez o P/VP (Preço sobre Valor Patrimonial) estimado para 2026, entendemos que o Bradesco segue negociando a múltiplos descontados frente ao seu potencial de geração de resultados.”
Melhor ter cautela
Por outro lado, alguns analistas ainda preferem esperar antes de recomendar a compra. Esse é o caso do BTG Pactual.
Segundo a instituição, o banco deve entregar resultados na parte superior de sua projeção, combinando um crescimento um pouco mais forte da carteira de crédito com custos de crédito ligeiramente mais elevados, à medida que o ambiente operacional se torna mais desafiador.
“Ao mesmo tempo, a postura mais cautelosa da gestão e a avaliação cada vez mais realista do contexto macroeconômico e de crédito estão em consonância com nossas recentes recomendações.”
Outra medida considerada positiva foi o aumento de capital de R$ 10 bilhões, “o que consideramos uma medida proativa para fortalecer o balanço patrimonial antes do que poderá se tornar uma fase mais desafiadora do ciclo de crédito”.
“Por ora, mantemos nossa recomendação neutra para o Bradesco. Entre os bancos tradicionais, continuamos preferindo o Bradesco (BBDC4) ao Banco do Brasil (BBAS3), enquanto o Itaú Unibanco (ITUB4) permanece como nossa única recomendação de compra.”