‘Brincadeira de mau gosto’ e ‘balão de ensaio’: o que banqueiros acharam da Selic em 7,5% de Lara Resende
O feriado de Finados foi bem vivo nas discussões sobre o quadro fiscal brasileiro. Perto de anunciar um novo ministro da Fazenda, a equipe econômica precisou apagar incêndios após a informação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia se reunir com André Lara Resende.
Encontrar-se com um dos pais do Plano Real e um dos maiores economistas do Brasil parecia algo positivo. O problema é que André mexeu em um vespeiro ao publicar um artigo sobre um dos maiores entraves do país: a taxa de juros.
Em um artigo de setembro, e compatilhado por membros do PT, como Gleisi Rossmann, o economista propôs reduzir gradualmente a Selic para 7,5%. Para ele, o problema não está no déficit primário, que desconsidera os juros, mas no custo financeiro da dívida pública.
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A ideia caiu mal entre economistas, investidores e… banqueiros. O Money Times ouviu alguns deles. Um foi bastante sucinto: classificou a proposta como uma “brincadeira de mau gosto”.
Outro, ligado a uma grande instituição financeira, vê na discussão um “balão de ensaio” do governo, que teria lançado a ideia ao mercado e recebido uma reação amplamente negativa. Na avaliação dele, a medida estaria fadada ao fracasso sem atacar o verdadeiro problema: as contas públicas brasileiras.
Em sua visão, trata-se mais de um exercício teórico do que de algo passível de aplicação prática. No mesmo dia, o Ministério da Fazenda tratou de negar a informação de que Lula se encontraria com André. Dário Durigan, atual ministro da pasta, chegou a criticar a proposta. “Não vejo isso como nada como uma posição que o governo eventualmente queira ir”.
O mesmo banqueiro lembra que teses semelhantes já foram testadas em outros países e fracassaram.
“Não pode ser feita sem um fiscal crível.”
Na última quarta-feira (4), foi a vez do CEO do Itaú (ITUB4), Milton Maluhy, dar seu pitaco na discussão. Durante a teleconferência de resultados do banco, ele afirmou que não adianta reduzir os juros “na marra”.
Austeridade fiscal
Para acalmar o mercado, Lula convocou um pronunciamento em rede nacional no domingo (8) para anunciar medidas na área fiscal.
Segundo esse banqueiro, qualquer iniciativa que preserve a austeridade fiscal e dê tranquilidade para o Banco Central conduzir a política monetária é bem-vinda.
“Espero que não saia dali nenhum outro populismo além do tradicional, além do que já foi feito.”
Na última quarta-feira, o Banco Central interrompeu o ciclo de cortes da Selic, citando a deterioração das expectativas econômicas. Após a eleição, o dólar voltou à casa dos R$ 5,44, o que adiciona mais pressão ao cenário inflacionário.
A questão do ministro da Fazenda
Agora, o mercado está em compasso de espera para saber quem será o novo ministro da Fazenda. Entre os nomes colocados à mesa estão o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. O nome de Mansueto Almeida, atual economista-chefe do BTG Pactual, também voltou a ser citado por fontes ouvidas pela reportagem.
Segundo o banqueiro, são nomes que, em geral, agradam ao mercado. No caso de Fonteles, porém, ele precisaria ter “a liberdade que Antonio Palocci teve”. Palocci foi ministro da Fazenda no primeiro governo Lula e um dos principais responsáveis pelo sucesso econômico daquele mandato.
Sobre Alckmin, a fonte destaca seu perfil fiscalista e sua capacidade de articulação no Congresso.
“Ele teria os primeiros 100 dias para mostrar a que veio. Acho que ele recebe um pouco dessa confiança do mercado pela história que construiu em São Paulo, que concentra uma parte importante da economia brasileira.”
Já o atual ministro, Dário Durigan, corre por fora. Contra ele pesa a avaliação de que não teria envergadura política suficiente para conduzir o desafio de comandar a economia.
“Acho que não tem tamanho político.”