Com eleições à vista, JP Morgan revisa preços-alvo de incorporadoras — e revela as favoritas
O JP Morgan revisou os preços-alvo das incorporadoras brasileiras sob sua cobertura e estendeu o horizonte das estimativas de dezembro de 2026 para dezembro de 2027. Apesar das mudanças nos valores, o banco manteve as recomendações para as seis empresas acompanhadas.
Entre as construtoras de baixa renda, Tenda (TEND3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3) continuam com indicação de compra (overweight) pelos analistas da casa. Já MRV (MRVE3) segue como neutra.
No segmento de médio e alto padrão, Cyrela (CYRE3) e EZTEC (EZTC3) também continuam com recomendação neutra.
Eleições no radar
O JP Morgan apontou, em relatório, que a influência do cenário eleitoral sobre as perspectivas para o setor de construção civil pode mexer com suas preferências.
Segundo o banco, uma continuidade do atual governo tende a favorecer as incorporadoras de baixa renda, diante do suporte às políticas habitacionais, especialmente ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Nesse cenário, a casa norte-americana mantém a preferência por Tenda, Direcional e Cury, nesta ordem.
Por outro lado, uma eventual alteração no comando do país poderia beneficiar as empresas de média e alta renda, como Cyrela e EZTEC.
A avaliação é de que um novo governo poderia promover um ajuste fiscal mais acentuado, melhorando o sentimento dos investidores em relação a esse grupo — mesmo que não atrapalhasse o outro.
“Embora uma mudança de governo pudesse favorecer o sentimento do mercado em relação aos segmentos de média e alta renda, não acreditamos que uma nova administração tomaria medidas para prejudicar o Minha Casa, Minha Vida, mesmo que esperássemos atualizações menos frequentes do que as observadas na gestão atual”, escreveram os analistas.
“Mantendo a premissa de que não haverá mudança na presidência, reiteramos nossa recomendação de overweight (compra) para TEND, DIRR e CURY, ao passo que mantemos a indicação neutra para CYRE e EZTC devido às incertezas para 2027 — embora elas possam apresentar valorização caso haja uma mudança no sentimento do mercado”, acrescentaram.
Tenda é a principal aposta do JP Morgan
Entre as seis companhias acompanhadas, Tenda é a top pick (preferência) do banco. Para dezembro de 2027, os analistas estabeleceram um preço-alvo de R$ 52,50, contra R$ 48,50 em dezembro de 2026, o que representa um potencial de valorização de aproximadamente 59% em relação à cotação atual.
Um dos argumentos para a preferência é o valuation. Pelas contas da casa, a ação negocia a cerca de 4,8 vezes o lucro estimado para 2027, abaixo dos múltiplos projetados para Direcional e Cury, de 5,4 vezes e 6,9 vezes, respectivamente.
O JP também vê potencial na Alea, subsidiária da Tenda de casas pré-fabricadas. Na avaliação do banco, o mercado ainda atribui pouco valor à operação e considera que ela continuará sendo deficitária, apesar dos esforços da companhia para melhorar sua eficiência.
“Estamos elevando modestamente as estimativas para a construtora, refletindo um melhor desempenho operacional e perspectivas mais favoráveis para o nível de atividade”, afirmaram os analistas.
A casa projeta um aumento de 4% nos lançamentos entre 2026 e 2028 e crescimento de 3% nas pré-vendas em 2027 e 2028 para a Tenda. A estimativa revisada de lucro líquido para este ano é de R$ 701 milhões.
Já entre os pontos de atenção, os analistas citam que a Tenda pode ser mais afetada que seus pares por eventuais baixas contábeis relacionadas à carteira de vendas no modelo pro-soluto pós-chaves.
“Diante da contínua deterioração da saúde financeira dos consumidores, o foco recai sobre o pro-soluto pós-chaves, uma modalidade que, em nossa visão, apresenta baixas garantias e elevado risco de crédito”, afirmou o banco.
- Pró-soluto pós-chaves é a parte do saldo devedor de um imóvel que fica para ser paga à construtora diretamente, de forma parcelada, após a entrega das chaves ao comprador.
Direcional e Cury
Seguindo a ordem de preferência entre as incorporadoras, o JP estabeleceu um preço-alvo de R$ 17,50 para a Direcional para dezembro de 2027, contra R$ 19 em dezembro de 2026. Mesmo com o corte, o novo valor ainda representa um potencial de valorização de aproximadamente 60%.
Para o banco, a ação está descontada em relação a alguns pares. Pelas contas dos analistas, DIRR3 negocia a cerca de 5,4 vezes o lucro estimado para 2027, um desconto de aproximadamente 22% frente à Cury, por exemplo.
A casa também enxerga potenciais gatilhos para novas revisões positivas de resultados, entre eles o banco de terrenos da companhia em Belo Horizonte, que pode se beneficiar da nova legislação de zoneamento da cidade.
Além disso, a parceria com a Moura Dubeux (MDNE3) para lançamentos de baixa renda no Nordeste é citada e pode abrir espaço para novas revisões de lucro no médio prazo.
No caso da Cury, que completa o trio de incorporadoras com recomendação de compra pelo JP Morgan, o preço-alvo foi elevado de R$ 43,50 para R$ 48, enquanto o potencial de valorização calculado chega a aproximadamente 49%.
A preferência pela companhia, segundo os analistas, está ligada principalmente à sua capacidade de transformar lucro em geração de caixa, além do dividend yield estimado em cerca de 8% neste ano.
Por outro lado, a empresa apresenta maior exposição a custos de mão de obra. O banco estima que uma eventual mudança na jornada de trabalho, em meio ao fim da escala 6×1, poderia pressionar as margens da construtora em até 1,5 ponto percentual.
Cyrela e EZTEC
Embora esteja fora do grupo preferido, o JP Morgan estima que a ação da Cyrela poderia alcançar até 1,7 vez o patrimônio líquido (P/VP) em um cenário de mudança na Presidência e melhora do sentimento dos investidores. Atualmente, o múltiplo está próximo de 1 vez.
Ainda assim, o banco vê desafios para o segmento de média e alta renda em 2027, especialmente por causa do nível de endividamento dos consumidores e de uma possível desaceleração da economia.
Na EZTEC, os analistas reconhecem uma recuperação operacional. Os lançamentos da companhia cresceram 53% no primeiro semestre de 2026, na comparação anual.
No entanto, a perspectiva de juros elevados por mais tempo tende a limitar a melhora dos múltiplos e do sentimento dos investidores em relação ao segmento.
MRV atrás dos pares
No caso da MRV, que também continua com recomendação neutra, houve elevação do preço-alvo de R$ 7, em dezembro de 2026, para R$ 8, em dezembro de 2027.
O JP Morgan reconhece que o negócio principal da companhia continua apresentando melhora, com crescimento dos lançamentos e recuperação das margens.
No entanto, a Resia, subsidiária de multifamily da companhia nos Estados Unidos (EUA), segue pesando sobre os resultados.
O banco estima perdas adicionais de aproximadamente US$ 50 milhões no segundo semestre para a empresa, diante da estratégia de vender terrenos e participações minoritárias em projetos norte-americanos.
Riscos para as incorporadoras de baixa renda
Apesar da preferência por Tenda, Direcional e Cury, o JP Morgan aponta riscos para a tese positiva sobre as incorporadoras de baixa renda.
Entre eles estão possíveis pressões inflacionárias, especialmente caso o petróleo permaneça acima de US$ 80 por barril, além de uma desaceleração temporária dos desembolsos de financiamentos imobiliários da Caixa Econômica Federal (CEF).
O banco também cita a greve dos funcionários da Caixa, que começou nesta quinta-feira (10), embora avalie que o movimento deve ser de curta duração.
Confira as recomendações do JP Morgan
| Empresa | Recomendação | Preço-alvo dezembro de 2027 | Preço-alvo dezembro de 2026 | Potencial de alta |
|---|---|---|---|---|
| Tenda | Compra (OW) | R$ 52,50 | R$ 48,50 | 59% |
| Direcional | Compra (OW) | R$ 17,50 | R$ 19,00 | 60% |
| Cury | Compra (OW) | R$ 48,00 | R$ 43,50 | 49% |
| Cyrela | Neutra (N) | R$ 34,50 | R$ 29,50 | 37% |
| EZTEC | Neutra (N) | R$ 19,00 | R$ 17,00 | 49% |
| MRV | Neutra (N) | R$ 8,00 | R$ 7,00 | 42% |