Contrariando serviço de inteligência, Trump acusa a China de interferir na eleição de 2020; canais abertos boicotam pronunciamento
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou, durante um pronunciamento na TV na noite desta quinta-feira (16), documentos anteriormente classificados que, segundo ele, demonstram interferência chinesa nas eleições americanas, retomando seus antigos ataques à segurança eleitoral, apesar de uma avaliação da inteligência dos EUA ter concluído que não havia evidências de que Pequim tenha influenciado a eleição presidencial de 2020, na qual Trump foi derrotado.
O pronunciamento, que teve com duração de 25 minutos, destacou o esforço de Trump para transformar a segurança eleitoral em um tema central da disputa política antes das eleições legislativas de novembro, quando seus colegas republicanos tentarão defender suas estreitas maiorias no Congresso.
Trump também aproveitou o discurso para voltar a pressionar os republicanos no Congresso a aprovarem uma legislação que imponha novos requisitos de identificação do eleitor e comprovação de cidadania para votar, apesar de conclusões consolidadas apontarem que fraudes eleitorais nos Estados Unidos são raras. O projeto permanece parado no Senado diante da forte oposição dos democratas.
“Vulnerabilidades chocantes”
Trump afirmou que o material tornado público revelaria “vulnerabilidades chocantes em nossa infraestrutura eleitoral”. No entanto, muitos dos documentos pareciam indicar justamente o contrário ou sequer estavam relacionados à infraestrutura eleitoral dos Estados Unidos.
O presidente afirmou que estava desclassificando informações sensíveis que mostrariam que a China obteve ilegalmente dados de 220 milhões de eleitores norte-americanos, incluindo nomes, endereços e outras informações.
Segundo Trump, integrantes da comunidade de inteligência dos Estados Unidos teriam deliberadamente ocultado informações sobre a dimensão das atividades chinesas.
Uma avaliação não sigilosa da inteligência norte-americana divulgada em 2021 concluiu que não havia qualquer indício de que um ator estrangeiro tenha tentado ou conseguido alterar “qualquer aspecto técnico” da eleição presidencial de 2020, incluindo registros de eleitores, cédulas, apuração dos votos ou resultados.
Essa avaliação foi conduzida sob a supervisão de John Ratcliffe, então diretor de Inteligência Nacional de Trump e atualmente diretor da CIA.
O relatório também concluiu que a China vinha desenvolvendo, pelo menos desde 2008, um esforço para coletar informações sobre eleitores norte-americanos, opinião pública, partidos políticos, candidatos e altos funcionários do governo, provavelmente com o objetivo de prever os resultados eleitorais.
Duas pessoas familiarizadas com o assunto disseram que os dados de eleitores obtidos pela China não eram confidenciais — arquivos de eleitores são rotineiramente adquiridos por consultores políticos — e não poderiam ser manipulados.
O Ministério das Relações Exteriores da China não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre o discurso. Antes da fala de Trump, Liu Chang, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, afirmou: “A China nunca interferiu e nunca interferirá nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.”
Emissoras não tramitem discurso
Duas das três principais redes de televisão dos EUA não transmitiram, em seus canais abertos, o discurso de Donald Trump, arriscando-se a despertar a ira de um governo que tem exercido uma pressão sem precedentes sobre a mídia norte-americana.
As emissoras têm amplos direitos garantidos pela Primeira Emenda para decidir o que transmitir, observaram especialistas. Mas, historicamente, as emissoras têm transmitido a maioria desses discursos com o argumento de que eles fornecem informações de importância pública.
A ABC e a NBC anunciaram ainda durante a tarde que não transmitiriam o pronunciamento em seus canais abertos, reservando o discurso apenas em suas plataformas de internet e online, além de rádio. A CNN também não transmitiu as falas de Trump em seu principal canal.