Correios freiam reestruturação para evitar greve, enquanto tentam captar R$ 7 bilhões no mercado
A direção dos Correios promoveu, na quinta-feira (9), um recuo estratégico para evitar uma greve nacional.
Em documento enviado aos representantes dos trabalhadores, o presidente da estatal, Emmanoel Rondon, juntamente com os diretores de Operações e de Gestão de Pessoas, propôs a suspensão imediata de medidas de reestruturação que vinham reduzindo a estrutura administrativa e operacional da companhia.
A sinalização foi suficiente para evitar o início de uma paralisação na última terça-feira (7). Apesar disso, as entidades sindicais decidiram manter o estado de greve, o que permite a interrupção das atividades caso os compromissos assumidos pela empresa não sejam cumpridos.
“Como demonstração concreta do compromisso dos Correios com o diálogo e com a busca de soluções construídas de forma negociada, propõe-se a suspensão do fechamento de unidades previstas no Plano de Reestruturação dos Correios até 31 de julho de 2026, ressalvadas as unidades já fechadas ou em processo avançado de fechamento”, afirma trecho da carta, à qual o jornal O Globo teve acesso.
Durante esse período, representantes da empresa e dos trabalhadores deverão revisar os planos de encerramento de unidades com base em critérios técnicos, institucionais e de impacto social.
A administração também recuou da decisão de extinguir pagamentos relacionados ao Adicional de Atendimento em Guichê (AAG) e à Quebra de Caixa. Além disso, comprometeu-se a reavaliar outros benefícios que haviam sido encerrados ao longo de junho.
Rombo bilionário e busca por crédito
Os Correios encerraram o ano de 2025 com perdas brutas de R$ 8,5 bilhões e registraram déficit de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Para financiar suas operações e dar andamento ao plano de reestruturação, no final de dezembro do ano passado a empresa conseguiu um empréstimo de R$ 12 bilhões com um consórcio formado por Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Santander (SANB11), Caixa Econômica Federal e o próprio Banco do Brasil, com vencimento em 2040 e contou com garantia integral do Tesouro Nacional.
Para reforçar o caixa, a gestão de Rondon articula uma nova operação de crédito de R$ 7 bilhões.
Embora tenha suspendido parte das medidas de reestruturação, a companhia considera inevitável retomar o plano de ajuste fiscal após o período de negociação com os trabalhadores. Entre as iniciativas com maior potencial de economia está o fechamento de agências e centros de tratamento e distribuição.
Das mil unidades inicialmente mapeadas para encerramento, apenas 256 foram efetivamente fechadas até o momento. A estimativa é de que a medida gere uma economia de aproximadamente R$ 2,1 bilhões.
O Programa de Demissão Voluntária (PDV) também deverá ser reformulado. A nova meta é desligar entre 2 mil e 3 mil empregados vinculados às unidades que serão encerradas. Atualmente, cerca de 7 mil trabalhadores atuam nessas estruturas.
A revisão ocorre após a primeira edição do PDV em 2026 registrar adesão abaixo do esperado, alcançando apenas metade da economia projetada, de R$ 1,4 bilhão.
Acordo de R$ 2,3 bilhões com o Banco do Brasil
No início da semana, o Banco do Brasil e Correios firmaram uma parceria comercial estimada em R$ 2,3 bilhões para a prestação de serviços postais e logísticos pelos próximos cinco anos. A contratação foi realizada por dispensa de licitação.
Em comunicado oficial, o banco justificou a ausência de concorrência por inviabilidade de competição, afirmando que aproximadamente 97,84% dos serviços são de exclusividade dos Correios.
O contrato prevê a realização de operações logísticas e postais no Brasil e no exterior, incluindo o transporte e a entrega de notificações judiciais, comunicados de cobrança, correspondências institucionais, talões de cheque, malas diretas entre agências e cartões de débito e crédito destinados aos clientes da instituição financeira.
O Banco do Brasil já tinha um contrato vigente com os Correios para serviços logísticos, mas sua validade ia só até 10 de julho deste ano.
Até dezembro de 2019, o principal vínculo ocorria por meio do Banco Postal, modelo no qual os Correios utilizavam suas agências para atuar como correspondente bancário do Banco do Brasil.
Desde o fim do Banco Postal em 2019, a relação entre as instituições estava restrita a contratos temporários de transição e prestação de serviços básicos.
*Com supervisão de Juliana Américo
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