Eleições 2026

Da pia à ‘mamadeira’: suspensão de produtos Ypê pela Anvisa vira alvo da direita e combustível para polarização

11 maio 2026, 15:27 - atualizado em 11 maio 2026, 15:27
detergentes ypê
Detergentes Ypê: decisão da Anvisa amplia polarização política (Imagem: Edição Canva Pro/Divulgação)

A suspensão temporária de lotes de produtos de limpeza da Ypê pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se transformou em combustível para a polarização política no País. Em menos de 48 horas, dois assuntos que não teriam qualquer ligação – uma decisão técnica ligada a supostas falhas sanitárias e política – se transformaram acusações de perseguição ao governo Lula, memes e campanhas de boicote e apoio aos produtos da companhia.

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O episódio escalou após apoiadores Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar por tentativa de golpe, associarem a medida às doações feitas pela família Beira, controladora da empresa Química Amparo, dona da marca Ypê, à campanha de do ex-presidente, em 2022. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam repasses de R$ 1 milhão na campanha fracassada de Bolsonaro para se reeleger.

A prestação de contas aponta que Jorge Eduardo Beira transferiu R$ 500 mil, enquanto outros membros da família, como Waldir Beira Júnior e Ana Maria Beira, fizeram aportes individuais de R$ 250 mil cada ao então candidato do PL.

Na quinta-feira (7), a Anvisa suspendeu a fabricação e determinou o recolhimento de lotes de detergentes, lava-roupas e desinfetantes da Ypê por supostas irregularidades em boas práticas de fabricação na unidade de Amparo (SP). O órgão apontou risco potencial de contaminação microbiológica.

A medida, porém, teve curta duração. Após recurso da Ypê, a Anvisa revogou temporariamente a suspensão no dia seguinte e informou que continuará analisando os esclarecimentos técnicos enviados pela fabricante antes de uma decisão definitiva.

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A relação entre a política e os donos da Ypê

A repercussão rapidamente migrou para plataformas digitais como X (antigo Twitter), Instagram e TikTok. Internautas ligados à direita passaram a acusar o governo federal de utilizar órgãos reguladores para retaliar empresas identificadas com o bolsonarismo.

A narrativa foi impulsionada por vídeos produzidos com inteligência artificial, montagens satíricas e campanhas incentivando o consumo dos produtos da marca como forma de “resistência”. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo (PL), e a influenciadora Jojo Todynho fizeram publicações em apoio à empresa.

Para piorar, apoiadores postaram vídeos bebendo (ou simulando estar bebendo) detergente Ypê, como se fosse uma mamadeira, “feitos” que foram publicados em mídias de direita e devidamente repostados por Michelle Bolsonaro, entre outros.

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Como a agência é vinculada ao Ministério da Saúde, comandado pelo petista Alexandre Padilha, setores da oposição passaram a associar diretamente a decisão ao Palácio do Planalto, apesar da autonomia técnica formal do órgão regulador.

A própria Ypê já havia sido alvo de controvérsia política. Em 2024, a Química Amparo foi condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15) por assédio eleitoral após uma live, em 2022, feita para funcionários, ser considerada favorável a Bolsonaro. À sentença, que prevê multa caso a companhia volte a fazer propaganda política a funcionários, ainda cabe recurso ao Tribunal Superior do Trabalho (TST)

Memes para politizar consumo e o exemplo das Havaianas

A reação nas redes mostrou como disputas políticas passaram a influenciar até episódios ligados ao cotidiano do brasileiro. Enquanto apoiadores de Bolsonaro trataram a Ypê como símbolo de resistência ao governo Lula, perfis alinhados à esquerda ironizaram usuários incentivando o consumo de produtos que estavam sob alerta sanitário.

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Segundo pesquisadores citados pelo G1, esse tipo de mobilização fortalece ciclos de radicalização digital porque desloca o debate técnico para o campo identitário. A consequência tende a ser o aumento da desconfiança sobre instituições regulatórias, sobretudo em períodos pré-eleitorais.

O caso também evidencia um movimento crescente de politização de marcas privadas no Brasil. Empresas associadas, direta ou indiretamente, a grupos políticos passaram a enfrentar efeitos reputacionais imediatos, tanto positivos quanto negativos, em meio à disputa permanente por narrativa nas redes sociais.

Exemplo anterior foi o das sandálias Havaianas. No final de 2025, bastou a atriz Fernanda Torres dizer, em um comercial da marca, que não desejava às pessoas começassem 2026 com o “pé direito”, mas “com os dois pés” para despertar a fúria de políticos, influenciadores e militantes de direita.

Uma contracampanha nas redes sociais defendeu o boicote à marca, chinelos foram cortados e jogados no lixo pela direita. O comercial, que tinha prazo de validade, foi encerrado junto com o ano passado.

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*Sob supervisão de Gustavo Porto

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Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
Amanda Cristina de Souza é estudante de jornalismo no IESB. Ela atua como estagiária em um núcleo de conteúdo mantido pelo Money Times, em Brasília (DF), em parceria com outros veículos de informação.
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