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De E32 a E0: Em meio ao embate entre Lula e Flávio, Congresso discute gasolina sem etanol

23 set 2026, 12:31
etanol gasolina (2)
(iStock.com/Olga Kostrova)

O etanol ganhou espaço no debate político nas últimas semanas, após o aumento temporário da mistura obrigatória do biocombustível na gasolina de 30% para 32% colocar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em lados opostos da discussão.

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Enquanto o governo defende a maior participação do biocombustível na matriz energética, Flávio criticou a elevação do teor de etanol, provocando reação de entidades do setor sucroenergético.

Na ocasião, o senador disse que “uma coisa que a gente vai ter que discutir [é] essa quantidade de etanol que tem dentro da gasolina. Porque, hoje, as pessoas vão comprar uma barrinha de chocolate no mercado, era de 200 gramas, agora, 160. […] A gasolina virou etanol. Nem o combustível esse governo tá poupando”.

A declaração, como apurou o Money Times, repercutiu mal no setor sucroenergético.

Mas, para além do embate político, outra discussão avança no Congresso e pode mexer diretamente com o mercado do biocombustível: a possibilidade de o consumidor brasileiro encontrar nos postos gasolina sem uma gota de etanol.

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Hoje, a gasolina comum comercializada ao consumidor é a chamada gasolina C, formada pela gasolina A — produzida pelas refinarias ou importada — acrescida do percentual obrigatório de etanol anidro.

Desde 1º de agosto, a mistura obrigatória na gasolina C comum e comum aditivada está temporariamente em 32%, no chamado E32, ante os 30% anteriores. A medida vale por 180 dias e pode ser prorrogada uma vez pelo mesmo período. Já a gasolina premium permanece com 25% de etanol.

A possibilidade de elevar a mistura está prevista na Lei do Combustível do Futuro, que permite chegar a até 35%, desde que comprovada a viabilidade técnica.

No Congresso, porém, diferentes iniciativas procuram abrir espaço para o caminho inverso: desde uma gasolina com apenas 10% de etanol, a E10, até a chamada E0, formada sem a adição do biocombustível.

Gasolina E0 e E10 no país

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No Senado, a discussão ocorre por meio da Sugestão Legislativa (SUG) 30/2026, originada de uma ideia apresentada por um cidadão no Portal e-Cidadania.

“Hoje, o Brasil só oferece uma gasolina: a de mistura obrigatória de etanol, já em 32% (E32), com estudos avançando para E35, sem opção de escolha ao consumidor — diferente de países como os EUA, onde E0, E10 e E15 convivem nos postos”, diz o autor da ideia.

Para ele, isso prejudica veículos importados, clássicos, motos de baixa cilindrada, geradores, equipamentos agrícolas, embarcações e carros de competição, não projetados para altos teores de etanol.

“Proponho assegurar, em todo o país, a venda opcional e adicional de Gasolina E10 (10% de etanol fixo) e Gasolina pura (sem etanol), sem alterar a mistura obrigatória atual”, diz o autor da ideia.

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A proposta recebeu 24,1 mil apoios — superando os 20 mil necessários para ser transformada em sugestão legislativa — e defende disponibilizar duas novas opções ao consumidor em todo o território nacional: gasolina E10, com 10% de etanol anidro, e gasolina pura, sem adição de etanol.

A ideia não prevê acabar com a gasolina que segue o percentual obrigatório estabelecido pelo governo. E0 e E10 seriam alternativas adicionais à gasolina convencional.

Entre as justificativas apresentadas estão os possíveis efeitos de concentrações elevadas de etanol sobre veículos importados, clássicos, motocicletas, geradores, equipamentos agrícolas e embarcações que, segundo o autor da proposta, não teriam sido projetados para teores elevados do biocombustível.

Desde 17 de setembro, a SUG está sob relatoria do senador Laércio Oliveira na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).

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A proposta ainda está em um estágio anterior ao de um projeto de lei. Caso seja acolhida pela comissão, poderá ser transformada em uma proposição legislativa e seguir a tramitação no Senado.

Câmara tem mais de uma frente

Na Câmara dos Deputados, uma das iniciativas é o PL 4.783/2026, apresentado pelo deputado Dr. Fernando Máximo (PL-RO).

Nesse caso, a proposta vai além de simplesmente autorizar a comercialização: o texto pretende tornar obrigatória a oferta de gasolina integralmente isenta de etanol anidro nos postos.

Segundo a ementa, o objetivo é preservar veículos de coleção e proteger a frota de veículos não bicombustíveis. Apresentado em 23 de julho, o projeto ainda está no começo da tramitação e aguarda despacho do presidente da Câmara.

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Há ainda o PLP 249/2026, apresentado pelo deputado Messias Donato (União-ES), com um desenho diferente.

O projeto pretende autorizar Estados e o Distrito Federal a legislarem sobre a disponibilização de E0 e E10 em seus territórios. Assim, caberia a cada unidade da Federação decidir se permite essas gasolinas e, mesmo onde houvesse autorização, a oferta seria facultativa para os revendedores.

A gasolina C com o teor obrigatório de etanol continuaria sendo comercializada.

Portanto, E0 e E10 funcionariam como alternativas adicionais para o consumidor, sujeitas também às especificações e aos requisitos de qualidade definidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O que isso significaria para o etanol?

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Embora estejam em estágios iniciais e tenham desenhos diferentes, as propostas colocam no Congresso uma discussão que caminha na direção oposta à política energética adotada pelo governo federal de ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz brasileira.

A eventual autorização de E0 ou E10 não significa, por si só, uma redução relevante da demanda pelo biocombustível.

O impacto dependeria de fatores como adesão dos consumidores, diferença de preços, autorização dos Estados — no caso do PLP 249/2026 — e interesse dos postos em oferecer combustíveis adicionais.

Além disso, colocar E0 e E10 nas bombas exigiria mudanças regulatórias e operacionais. A ANP teria de estabelecer especificações para os novos produtos destinados ao varejo, enquanto diferentes tipos de gasolina poderiam exigir segregação na distribuição e no armazenamento.

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O etanol também influencia características técnicas da gasolina, como a octanagem. Dessa forma, simplesmente retirar o biocombustível da mistura não significa que a gasolina A atualmente distribuída no país poderia ser oferecida diretamente ao consumidor nas mesmas condições.

A discussão sobre reduzir ou eliminar o etanol da gasolina ocorre justamente em um momento de maior preocupação com a segurança energética e com os preços internacionais do petróleo e de seus derivados em meio à guerra no Oriente Médio.

A redução da dependência externa, inclusive, é um dos argumentos apresentados pelo governo para elevar temporariamente a mistura de E30 para E32.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a mudança tem potencial para reduzir em cerca de 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina pelo Brasil.

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O debate também resgata uma estratégia adotada pelo país há mais de cinco décadas.

Segundo a Datagro, a substituição da gasolina pelo etanol já evitou o consumo de cerca de 4 bilhões de barris de gasolina desde 1975, com a criação do Pró-Álcool, programa que estimulou a cadeia do biocombustível no Brasil e completa 51 anos em 2026.

“As reservas totais de petróleo e condensados do Brasil somam 12,1 bilhões de barris. Isso significa que já substituímos, com etanol, cerca de um terço dessas reservas — justamente o derivado mais caro, que é a gasolina”, explicou Plínio Nastari, presidente da Datagro, ao Money Times em abril deste ano.

Segundo Nastari, a estratégia gerou uma economia estimada em US$ 740 bilhões desde 1975, em valores atualizados, montante equivalente a cerca de duas vezes as reservas internacionais brasileiras.

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É nesse contexto que o Congresso começa a discutir o movimento inverso: depois de décadas de ampliação da participação do etanol na matriz de transportes, abrir espaço nas bombas para uma gasolina que pode conter apenas 10% — ou nenhum etanol.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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