Dois fatores que podem ajudar o Brasil a cortar juros, segundo HSBC
A inflação brasileira ganhou uma combinação de fatores favoráveis nas últimas semanas e passou a abrir espaço para mais cortes na Selic, segundo o HSBC.
A melhora no câmbio, a acomodação dos preços do petróleo e a desaceleração dos alimentos levaram o banco a revisar para baixo suas projeções para o IPCA e a projetar uma redução de juros já na reunião do Copom de agosto.
O HSBC agora espera um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de 5 de agosto, levando a taxa básica de juros para 14%. Para o fim de 2026, a projeção foi revisada de 14,25% para 14%. Antes, a instituição não esperava mudança na próxima decisão do Banco Central.
A revisão ocorre após uma sequência de dados de inflação mais favoráveis. O IPCA de junho mostrou uma desaceleração mais forte dos preços dos alimentos e uma composição considerada benigna, com os núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis e ajudam a medir a tendência dos preços, também apresentando queda.
Para o banco, porém, a melhora do cenário não vem apenas dos dados domésticos. Três fatores externos passaram a funcionar como aliados para a inflação brasileira: o dólar mais fraco, o petróleo mais barato e um impacto ainda limitado do El Niño.
Dólar mais fraco reduz pressão sobre o real
Um dos pontos destacados pelo HSBC é a perda de força do dólar no cenário internacional após dados mais fracos de inflação e emprego nos Estados Unidos reduzirem a pressão sobre os juros americanos.
A avaliação do banco é que uma moeda americana mais fraca tende a favorecer o real e pode ser especialmente importante diante do cenário eleitoral brasileiro.
“Um dólar mais fraco pode ser particularmente relevante para a estabilidade do real no próximo cenário eleitoral”, afirmou o HSBC no relatório.
Um câmbio mais comportado reduz a pressão sobre produtos importados e ajuda a limitar repasses para preços domésticos, principalmente em itens como combustíveis, bens industriais e alguns alimentos.
Petróleo deixa de ser vilão da inflação
Outro elemento que mudou de direção foi o petróleo. Apesar das tensões no Oriente Médio, os preços da commodity reagiram menos do que o esperado aos riscos envolvendo o Estreito de Ormuz e retornaram para níveis próximos aos observados antes do conflito.
O HSBC destacou que revisou para baixo suas projeções para o petróleo. Para o fim de 2026, a expectativa caiu de US$ 87 para US$ 70 por barril, enquanto para 2027 passou de US$ 75 para US$ 65 por barril.
Segundo o banco, a revisão reflete um reequilíbrio mais rápido do mercado de petróleo, processo que começou antes do acordo entre Estados Unidos e Irã e ganhou força com a retomada da circulação pelo Estreito de Ormuz.
No Brasil, a acomodação do petróleo reduz um dos riscos para a inflação, especialmente pelos efeitos sobre combustíveis e energia.
El Niño ainda preocupa, mas não virou pressão para preços
O terceiro fator apontado pelo HSBC é o clima. O banco lembra que episódios fortes de El Niño historicamente estão associados a pressões sobre alimentos e tarifas de energia elétrica no Brasil. O fenômeno continua como um risco para o segundo semestre, mas ainda não se confirmou como um problema para a inflação.
Até agora, as chuvas têm sido mais favoráveis do que o esperado, o que pode reduzir ou atrasar os impactos negativos do evento climático.
“Por enquanto, esse continua sendo um risco, e não o cenário-base”, avaliou o banco.
A melhora nas condições climáticas também ajuda a explicar a forte desaceleração dos alimentos, um dos principais fatores por trás da revisão das projeções.
HSBC reduz previsão para inflação em 2026
Com esse conjunto de fatores, o HSBC revisou sua projeção para o IPCA de 2026 de 5,2% para 4,9%.
Embora a melhora esteja concentrada principalmente em itens mais voláteis da inflação, como alimentos e energia, o banco acredita que o movimento deve começar a contaminar também as expectativas de inflação, como já aparece nas últimas leituras do Boletim Focus.
A expectativa agora é de um corte em agosto seguido por uma pausa prolongada no ciclo de flexibilização monetária, com a Selic permanecendo em 14% até março de 2027.
Segundo o HSBC, o Banco Central deve seguir uma estratégia de “parar e avaliar” os efeitos dos cortes já realizados antes de decidir os próximos passos.
A instituição pondera, porém, que o calendário eleitoral, por si só, não impediria novas reduções de juros caso o cenário inflacionário continue melhorando.
“Eleições só se tornam uma restrição se começarem a influenciar o comportamento dos preços domésticos, e ainda não vimos sinais claros disso”, afirmou o banco.