Entrevista: Com lucro acima do esperado, CFO da Multiplan (MULT3) fala em ‘tempo de colheita’
A Multiplan (MULT3), dona de uma rede de 20 shopping centers, atribui o lucro líquido acima do esperado no primeiro trimestre de 2026 (1T26) a uma combinação de expansão operacional, reciclagem de portfólio e investimentos realizados nos últimos anos, de acordo com o CFO, Armando d’Almeida Neto.
Em entrevista ao Money Times, o executivo afirmou que a estratégia adotada pela companhia tem impulsionado vendas, receitas e geração de caixa, mesmo em um cenário marcado por juros elevados.
Um dos destaques do 1T26 da empresa foi a venda de 10% de participação no BH Shopping, localizado em Minas Gerais, numa operação iniciada em janeiro e concluída no final de março, por R$ 285 milhões.
Desse montante, metade foi paga à vista, enquanto os 50% restantes serão recebidos em duas parcelas: 25% em 12 meses e 25% em 18 meses.
De acordo com D’Almeida, embora apenas parte do valor tenha ingressado de fato no caixa, a operação foi integralmente reconhecida no trimestre, o que contribuiu para a alta anual de 57,3% na receita líquida, que somou R$ 827 milhões no período.
“A contabilização é feita toda no momento da venda. No caixa, entrou metade e o restante vem depois, conforme o fluxo acertado”, explicou o executivo, destacando que a reciclagem de portfólio faz parte do modelo da Multiplan.
“Particularmente, nesse 1T26, a gente teve uma atividade imobiliária maior, que foi a fração [no BH Shopping] que nós alienamos e que tínhamos comprado em 2019. Mas comprar e vender participações é absolutamente o nosso negócio principal, assim como desenvolver e explorar ativos.”
Entre janeiro e março deste ano, a operadora de shopping centers teve lucro líquido de R$ 316,1 milhões, um crescimento de 35% na comparação com o mesmo período de 2025.
A média de previsões de analistas do setor compilada pela LSEG apontava para um lucro líquido de R$ 234,4 milhões.
Multiplan: tempo de colheita
Além do efeito extraordinário, o CFO pontuou também que a companhia tem vivido um “tempo de colheita”, com frutos de um amplo ciclo de investimentos.
Nos últimos três anos, a Multiplan destinou cerca de R$ 2 bilhões a expansões e revitalizações de seus shoppings, num movimento que, segundo ele, elevou a atratividade dos empreendimentos, impulsionou as vendas dos lojistas e levou a empresa a registrar, em base de 12 meses, a maior receita de sua história.
“Há três anos, a gente aprovou um plano que, na época, o mercado viu como bastante audacioso, que foi o de fazer algumas expansões e desenvolver também revitalizações em nossos shoppings. E esse plano está em fase final”, afirmou.
“Todas as expansões que nós anunciamos na ocasião já foram entregues, e a gente acabou anunciando mais duas expansões no ano passado, que também serão concluídas em breve”, prosseguiu. “Então, foi um investimento grande de capital. E isso resultou num crescimento de vendas e receita.”
No 1T26, as vendas dos lojistas dos shoppings da companhia no conceito mesmas lojas subiram 5,1% contra o mesmo período de 2025, com destaques para Alimentação & Área Gourmet (+11,1%) e Serviços (+9,5%).
Mais que consumidores: frequentadores
Armando disse ainda que a estratégia vai além da expansão física. De acordo com ele, a Multiplan tem apostado, além da renovação do mix de lojas, na realização de eventos para atrair clientes.
“Eu tenho usado a palavra ‘frequentador’ em vez de ‘consumidor’, porque a pessoa que frequenta o shopping é importante”, afirmou.
“Se o frequentador vier de carro, ele já paga o estacionamento e, automaticamente, vira consumidor também”, explicou.
Recursos para desalavancagem e crescimento
O CFO contou que os recursos obtidos com a venda da fatia no BH Shopping deverão ser usados de forma ampla, incluindo redução da alavancagem e novos investimentos (capex).
De acordo com ele, ao final de março, a relação entre dívida líquida e Ebitda da companhia ficou em 2,13 vezes, contra 2,33 vezes no encerramento de 2025.
“A gente tem como objetivo reduzir ainda mais a alavancagem que aumentou em 2024 devido à recompra de ações, que somou R$ 2 bilhões à época.”
Aluguéis acima da inflação
Entre analistas, havia a preocupação de que a receita com aluguel pudesse crescer em compasso mais moderado no 1T26. Isso porque a inflação medida pelo IGP-DI, índice que corrige boa parte dos contratos de locação do segmento, segue em patamar baixo, limitando os reajustes.
Ao ser questionado, D’Almeida afirmou que não vê motivo para desespero. Segundo ele, a capacidade de elevar vendas dos lojistas permite à companhia capturar crescimento adicional via aluguel percentual, com renegociações e substituição de inquilinos por operadores dispostos a pagar mais.
“Por que eu não estou preocupado? Porque a gente tem ajudado o lojista a vender mais. Com um lojista vendendo mais, eu tenho a capacidade de renovar [o aluguel] por condições melhores porque o ponto vale mais”, contou.
“Eu prefiro muito mais uma inflação baixa, pois é um ambiente muito mais saudável e sustentável no longo prazo”, prosseguiu.
“Se a inflação for de 30%, vai ficar um trimestre lindo devido ao reajuste, mas e no próximo? E a inadimplência? Isso não é o nosso negócio. Nosso negócio é continuidade, é preferir inflação baixa e ter confiança que, pela qualidade e modelo de gestão, a gente consegue cobrar um aluguel maior.”
Queda dos juros deve ajudar, mas gradualmente
Sobre o cenário macroeconômico, Armando avalia que a esperada redução da taxa Selic pode beneficiar, sim, o consumo, mas sem provocar uma aceleração abrupta.
“Se você olhar pelos livros de economia, juros menores estimulam [a economia]. Mas uma queda de 15% para 14,5% ainda não é suficiente para ser um divisor de águas”, afirmou. “Se a taxa estiver no final do ano em 5%, aí, sim, seria diferente.”
Para ele, o principal vetor de crescimento seguirá sendo a própria execução da companhia, com novas expansões previstas para este ano, incluindo projetos no BarraShopping (RJ), no BH Shopping (MG) e no ParkShopping (SP).