Lula descarta corte de custos em eventual novo mandato: ‘Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não pretende adotar uma política de cortes de gastos para enfrentar os desafios fiscais do país em um eventual novo mandato. Em entrevista à TV Globo nesta quinta-feira, o petista defendeu que o crescimento econômico, e não a redução de despesas, é a principal ferramenta para melhorar a trajetória da dívida pública brasileira.
Questionado sobre o aumento do endividamento das famílias e as críticas de economistas em relação à sustentabilidade das contas do governo, Lula voltou a defender programas de renegociação de dívidas e crédito para a população de baixa renda e pequenos empreendedores.
“O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo”, disse o presidente. “Toda vez que alguém quer resolver um problema fiscal, o povo pobre paga. E eu não quero que o povo pobre pague.”
A declaração veio após uma pergunta sobre a avaliação de economistas de que a trajetória da dívida pública exige medidas de contenção de gastos para abrir espaço à queda dos juros.
Lula rebate economistas
Ao responder se cogitaria tratar a questão fiscal de outra forma caso seja reeleito, Lula indicou que seguirá apostando em políticas de estímulo à renda e ao crédito.
“Eu tenho divergência com muitos economistas porque eles têm uma tese econômica. A minha tese é a seguinte: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, e pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza”, afirmou.
Segundo o presidente, o fortalecimento da chamada “microeconomia” é o principal motor do crescimento. Lula citou o apoio ao microcrédito, aos microempreendedores individuais (MEIs) e aos pequenos negócios como estratégias para estimular a atividade econômica.
“É fazer o dinheiro rodar na mão do povo. Se o dinheiro fica concentrado em meia dúzia de pessoas, o Brasil vai continuar pobre”, disse.
Novo Desenrola e compra de dívidas
Durante a entrevista, Lula também detalhou a proposta para ampliar as ações de combate à inadimplência.
Segundo ele, o governo trabalhou em um novo modelo de renegociação de débitos, inspirado no programa Desenrola, voltado a pessoas com dívidas de até R$ 4 mil e atrasadas há mais de dois anos.
O presidente afirmou que a União pretende adquirir esses débitos com grandes descontos em relação ao valor original, permitindo que os devedores regularizem sua situação financeira. Além disso, citou estudos para anistiar parte das dívidas ativas de pequenos empreendedores e oferecer linhas de crédito para quem voltar à formalidade.
“A gente quer que as pessoas recomecem a vida, voltem para a economia e possam fazer novos negócios”, afirmou.
No dia 25 de setembro, o presidente anunciou a medida junto com o fim das Bets. Segundo o governo, são R$ 300 bilhões nesses tipos de dívidas, com estimativa de renegociar R$ 150 bilhões, a um custo estimado de R$ 15 bilhões para o Estado se considerado o deságio de 90%. O primeiro leilão está previsto para novembro.
Dívida pode ser positiva, diz presidente
Embora tenha reconhecido a importância de controlar o crescimento da dívida pública, Lula argumentou que o endividamento pode ser justificável quando financia investimentos capazes de impulsionar a produtividade do país.
“Eu não quero que a dívida cresça. Agora, se você fizer uma dívida para construir um ativo produtivo para o país, uma ferrovia, uma hidrelétrica, um porto que tenha recebíveis, é importante até que você tenha essa dívida”, declarou.
Para o presidente, obras de infraestrutura e investimentos públicos geram crescimento econômico e ampliam a arrecadação, contribuindo para melhorar os indicadores fiscais no longo prazo.