Mato Grosso avalia que supressão vegetal não dá conta de garantir biomassa a usinas de etanol e lança plano
Diante do forte crescimento da produção de etanol de milho, o Mato Grosso avalia que o uso de madeira com origem na supressão vegetal não dará conta de abastecer as caldeiras das usinas e lançou um plano para estimular a produção de biomassa para uso industrial, disse nesta quinta-feira a secretária de Meio Ambiente do Estado, Mauren Lazzaretti.
O Estado discutiu no início do mês, em audiência pública, o uso de vegetação nativa nos “Planos de Suprimento Sustentável (PSS) pelos grandes consumidores de matéria-prima florestal”, após o Ministério Público abrir inquérito, no ano passado, para investigar eventuais ilegalidades no consumo de madeira nativa por indústrias, como usinas de etanol de milho.
Entre as matérias-primas para geração de energia nas caldeiras que movem as usinas de etanol de milho está a madeira nativa, o que gera uma discussão ambiental sobre um combustível tido como sustentável que está em forte expansão no Brasil.
O Estado considera que não há ilegalidade nos processos, entre outras razões, porque produtor agrícola tem o direito legal no país de desflorestar parte de sua propriedade, gerando oferta de biomassa.
Parte da biomassa usada nas usinas de etanol, por outro lado, tem origem em madeira de eucalipto plantado, uma prática vista como mais sustentável e algo que um plano estadual recém-lançado quer ampliar.
“Além de existir o aumento exponencial da demanda por biomassa, o que deixa evidente que a supressão não irá suprir a demanda, nem a atual nem a crescente, entendemos que é preciso planejar de forma distinta… para que essa realidade seja alterada, sob pena de termos comprometimento com o avanço e o crescimento das indústrias no Estado”, disse a secretária, durante evento de etanol de milho, em Mato Grosso.
Ela se referia ao plano, lançado ao final de março, que tem um horizonte até 2040 para ampliar a oferta de madeira plantada com o objetivo de abastecer o setor industrial.
O planejamento, disse a secretária, visa aumentar de cerca de 200 mil hectares para 700 mil hectares as florestas plantadas, até 2040.
Até o ano passado, o Mato Grosso, maior produtor de etanol de milho, contava com dez usinas de etanol, enquanto há projetos para diversas outras nos próximos anos.
Questionada sobre o debate do uso de madeira nativa nas caldeiras de usinas de etanol, a secretária afirmou que a interpretação da Procuradoria-Geral do Estado é de que o Código Florestal brasileiro “não é específico e restrito especificamente em relação às indústrias de etanol” sobre o uso dessa biomassa.
“Mas também entendemos que não é viável do ponto de vista estratégico continuar consumindo madeira de origem nativa vinculada à supressão de vegetação. Por isso, o Estado de Mato Grosso estabeleceu o plano, e estamos discutindo uma fase de transição”, afirmou Lazzaretti.
Essa fase vai incorporar ações ligadas a outros programas de descarbonização, “que visam a ausência” de supressão de vegetação até 2035, disse ela.
A secretária avaliou que isso é importante porque, mesmo que o Estado ainda tenha no futuro áreas de vegetação passíveis de serem suprimidas, elas existirão em um “quantitativo insuficiente para contribuir de forma expressiva para a biomassa necessária para a indústria”.
A secretária disse que o plano de estímulo à produção de biomassa acontece embora o Mato Grosso ainda possua 60% de seu “território intacto, com capacidade de gerar produto florestal e biomassa a partir de manejo florestal sustentável”.
“Temos grande disponibilidade de áreas para manejo florestal sustentável, tanto em floresta quanto em Cerrado, e também temos áreas degradadas ou com capacidade produtiva reduzida que têm potencial de reflorestamento”, disse.