Nas máximas: o que a disparada dos Treasuries indica sobre a credibilidade do Fed — e por que ela não explica tudo
Os primeiros passos de Kevin Warsh no comando do Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA) trouxeram mais dúvidas do que respostas para o mercado.
A combinação entre uma decisão de juros marcada pela maior dissidência em quase dez anos e a falta de sinalizações sobre o futuro da política monetária provocou uma forte onda de vendas de títulos do Tesouro, os Treasuries, nos últimos dias.
A escalada dos yields, porém, começou dois dias antes em reação às falas de Warsh após o Fed ter mantido os juros inalterados, na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, pela quinta vez consecutiva.
Na entrevista coletiva após a decisão, Warsh disse que “existe apenas uma meta [de inflação] e ela é de 2%”. “Não existe uma meta implícita mais alta. Vamos entregar estabilidade de preços”, reiterou.
Credibilidade do Warsh em xeque?
Para especialistas ouvidos pelo Money Times, a disparada dos yields dos títulos de longo prazo aponta para um questionamento da credibilidade do Banco Central dos EUA por causa da postura adotada frente à inflação – ainda acima da meta de 2%.
“O que entrou no preço foi a ‘credibilidade’ do Fed no combate à inflação. O mercado passou a questionar por que Warsh não subiu os juros já nesta decisão de julho, em um ambiente de inflação acima da meta e incertezas sobre novos choques nos preços com a continuidade do conflito no Irã”, afirmou Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, em entrevista ao Money Times.
Para ele, além da questão de credibilidade do Banco Central, o prêmio da curva também incorpora o crescimento econômico forte nos últimos anos – “o que, por si só, eleva o juro neutro para equilibrar o balanço do Fed”.
A inflação, por ora, fica em segundo plano, já que as expectativas não estão desancoradas.
Além disso, os argumentos para uma alta nos juros nesta decisão eram claros, na visão do ING: o Fed não atinge sua meta de inflação há cinco anos, mesmo com sinais de desaceleração recente; os preços do petróleo continuam elevados em um mercado de trabalho ainda apertado, o que pode manter a inflação acima da meta por mais tempo.
“Uma alta também serviria para reforçar o compromisso do novo presidente do Fed com o combate à inflação e ajudaria a ancorar os juros dos Treasuries de longo prazo”, avaliaram o economista-chefe internacional James Knightley e o líder global de Mercados Chris Turner, do ING, em relatório a clientes divulgado após a decisão do Fed.
Já Bruno Shahini, especialista de investimentos da Nomad, avalia que Kevin Warsh ainda não enfrenta uma perda de credibilidade à frente do Fed, mas que o mercado deve testar se o discurso mais duro adotado desde que assumiu o comando da autoridade monetária será acompanhado por medidas concretas.
“A evidência mostra que banqueiros centrais, quando assumem o comando, têm um incentivo para serem mais restritivos com a inflação. Se não, perdem o controle das expectativas e o trabalho deles fica muito mais difícil depois”, afirmou.
“O mercado vai ficar criterioso e acompanhar mais de perto os movimentos de Washington nas próximas reuniões. […] Uma hora vai ver se o discurso dele vai ser para valer e vai criar medidas”, acrescentou.
Fiscal também pesa
Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP, considera que o movimento recente dos Treasuries também está associado a fatores fiscais.
“A abertura da curva longa reflete a combinação de inflação acima da meta, expectativa de juros elevados por mais tempo, aumento do risco fiscal e um prêmio adicional relacionado à confiança dos investidores na condução da política monetária”, afirmou em entrevista ao Money Times.
Para ela, uma das principais preocupações dos investidores é a deterioração fiscal dos EUA. O déficit orçamentário do país está em torno de US$ 1,37 trilhão no ano fiscal de 2026, segundo dados do Tesouro norte-americano.
A visão também é compartilhada por Bruno Shahini, da Nomad. Segundo ele, o governo norte-americano vem aumentando a emissão de títulos para financiar o crescimento dos déficits e o elevado nível de endividamento, ampliando a oferta de papéis no mercado.
Além disso, Shahini destaca que há uma disputa crescente por recursos de longo prazo entre o setor público e empresas privadas, especialmente ligadas à inteligência artificial. “Você tem um setor privado disputando recursos com empresas de tecnologia, que estão construindo data centers e investindo em chips, GPUs e TPUs”, afirmou.
Para ele, a combinação de maior oferta de Treasuries pelo governo, forte demanda por capital por parte das empresas e vendas relevantes de títulos por investidores estrangeiros adicionou pressão sobre a curva de juros norte-americana. “Foi uma conjunção de fatores”.
O fator técnico da vez
A disparada dos Treasuries de longo prazo também coincidiu com a intervenção do Japão no câmbio. A operação, realizada na semana passada, foi coordenada com o Tesouro dos Estados Unidos pela primeira vez desde junho de 1998 e levou o iene para as mínimas em quatro décadas frente ao dólar.
Projeções do mercado apontam que as intervenções ocorridas entre os dias 30 e 31 de julho podem ter totalizado cerca de US$ 80 bilhões, superando a escala das operações realizadas no fim de abril.
Do lado dos EUA, a agência de notícias Reuters publicou uma fotografia de anotações manuscritas do secretário do Tesouro, Scott Bessent, fazendo referência a planos para comprar entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões em ienes.
“Para segurar a cotação do iene, o governo japonês tem que aumentar a oferta de dólares, vendendo reservas, como os Treasuries. Esse mecanismo também afetou a precificação da curva de juros americana, porque você teve um grande player vendendo uma quantidade grande de Treasuries para intervir no mercado e conter a depreciação da moeda”, afirmou Bruno Shahini.
Já para Fernando Saad, da Avenue, a operação anunciada pelas autoridades japonesas foi estruturada justamente para minimizar esse efeito sobre o mercado de renda fixa dos EUA. Segundo ele, em vez de vender os títulos, o Banco do Japão utilizou os Treasuries como garantia para obter dólares.
“O Japão é o maior detentor estrangeiro de Treasuries. Para intervir no iene sem precisar vender esses títulos – o que pressionaria ainda mais os yields –, o Banco do Japão está colocando Treasuries como garantia para sacar dólares, em vez de vendê-los no mercado”, afirmou.
Para Saad, embora a intervenção tenha coincidido com uma forte abertura dos rendimentos dos Treasuries, a estrutura da operação indica que ela não foi, por si só, responsável pelo movimento.
“Uma parte da venda pode, sim, ter ocorrido no pré-aviso do Tesouro de que realizaria tal operação em conjunto com o Japão, principalmente por receio dos investidores. Mas, pela natureza da operação, ela não causaria uma abertura nos yields de forma direta”.