O que está por trás do pico do Treasury de 30 anos, que opera no maior nível em 19 anos nesta sexta-feira (31)
Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, voltaram a renovar suas máximas de muitos anos. Nesta sexta-feira (31), o Treasury de 30 anos chegou a operar a 5,277%, o maior nível desde abril de 2007. Já o título de 10 anos atingiu a máxima desde outubro de 2024, a 4,747%.
O movimento ocorre após a declaração de dois dirigentes dissidentes na última decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que manteve a taxa de juros inalterada no intervalo entre 3,50% a 3,75%.
O mercado fez a leitura de que o BC norte-americano poderia estar atrasado no combate à inflação ao manter os juros estacionados, apesar dos dados recentes mais benignos dos índices de preços.
Após o discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, a sinalização de que parte de um aperto nas condições financeiras já teria sido promovida pelo mercado, considerando os níveis elevados dos juros nominais e reais dos títulos públicos, desagradou os investidores.
Na avaliação do Bank of America (BofA), a circularidade da afirmação de Warsh não foi “tranquilizadora”.
“Sem dúvida, a principal reação do mercado não foi à decisão de não aumentar as taxas de juros, especialmente porque os sinais incrementais dos dados econômicos dos EUA se suavizaram no período entre as reuniões”, afirma o banco em relatório.
O BofA prevê altas de 0,25 ponto percentual na próxima reunião de setembro, na de outubro e na de dezembro. “Acreditamos que a necessidade de restabelecer a credibilidade aumenta a probabilidade de o Fed elevar as taxas de juros em setembro”, diz.
Na quarta-feira (29), o Treasury de 30 anos já havia atingido o maior nível desde julho de 2007, a 5,244%, após a decisão de manutenção de juros pelo Federal Reserve.
A decisão não foi unânime, com o maior dissenso desde setembro de 2016: Beth Hammack (Fed de Cleveland), Neel Kashkari (Fed de Minneapolis) e Lorrie Logan (Fed de Dallas) defenderam uma alta de 25 pontos-base.
Falas dos dirigentes
Em comunicado, a presidente da unidade do Fed de Cleveland, Beth Hammack, afirma que a inflação tem permanecido teimosamente acima de 2% há mais de cinco anos, e “não estou confiante de que ela voltará ao nosso objetivo por conta própria”.
“Uma taxa de juros mais alta ajudaria a conter a atividade econômica e reduzir as pressões inflacionárias”, e a economia pode lidar com juros mais altos, dada a estabilidade do mercado de trabalho, disse Hammack. “Preferi agir em nossa recente reunião porque não considerava a postura atual da política monetária adequadamente restritiva.”
Em comunicado separado, o presidente da unidade do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, também expressou preocupação com a inflação e afirmou que o Fed deveria ter elevado os juros na quarta-feira, como o primeiro de uma série de aumentos.
“Para conter o risco de que a inflação elevada se torne arraigada, prefiro apertar a política monetária de gradualmente à medida que coletamos mais dados sobre a trajetória da inflação e do emprego”, escreveu Kashkari.
“Se a inflação permanecer elevada, na minha opinião, uma possível série de pequenos ajustes na política monetária seria melhor do que esperar e, eventualmente, concluir que ações ainda mais ousadas seriam necessárias”, disse Kashkari. Se a inflação esfriar, o Fed poderia desacelerar ou suspender os aumentos dos juros “sem impacto desnecessário sobre a economia real”, acrescentou ele.
Hammack discordou em três de oito votações nas reuniões de política monetária, enquanto Kashkari discordou seis vezes em 30 votações, de acordo com a Wrightson ICAP.
O que são os Treasuries?
Os Treasuries são os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados os ativos mais seguros em contextos de incerteza e volatilidade, visto que os EUA nunca deram calote.
O Treasury de 2 anos é mais sensível à política monetária, enquanto o de 10 anos é utilizado para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito. Já o de 30 anos é referência para hipotecas de longo prazo.
*Com informações de Reuters