O próximo passo do etanol após as usinas flex: ‘Por que não montar o confinamento?’
A integração entre cana e milho pode ganhar um terceiro componente nas usinas de etanol: o confinamento de bovinos. Para João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, incorporar a pecuária é um caminho para ampliar o aproveitamento dos coprodutos e diversificar as fontes de receita do negócio.
“O negócio (do etanol de milho) para em pé hoje não pelo preço do etanol, mas sim pelo DDG e óleo. 30% da receita vem desses coprodutos agregados. É um complexo que vai para dar certo. Se o próximo passo das usinas de cana é anexar uma destilaria de etanol de milho para aproveitar o vapor integrado, o próximo passo depois disso é montar um confinamento. Por que não integrar a cadeia como um todo?”, questionou durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, na 9ª Conferência Nova Cana.
A proposta acrescenta uma etapa à integração industrial: aproximar a produção de etanol da atividade que pode consumir seus coprodutos na alimentação animal. É o caso do DDG, sigla em inglês para grãos secos de destilaria.
Há um ano, o CEO da Minerva Foods (BEEF3), Fernando Queiroz, destacou que o etanol de milho é transformacional para a pecuária. Na ocasião, o debate abordou como a maior disponibilidade desses coprodutos ajuda na terminação dos animais.
Segundo Rosa, alguns grupos já se movimentam em direção à integração com confinamentos, incluindo cooperativas. O objetivo é ampliar as fontes de receita e reduzir a dependência de um único produto em um momento de expansão da oferta de etanol.
“São modelos que dão muito certo. Aí você vai diversificando a cadeia, às vezes você perde uma coisa, ganha outra. Ficar em um só produto, ‘colocar todos os ovos na mesma cesta’ é o maior risco”, afirmou.
Segundo Andy Duff, do Rabobank, o DDG vem ganhando espaço tanto no mercado doméstico quanto nas exportações, contribuindo para diversificar as matérias-primas disponíveis à alimentação animal e para os resultados das usinas.
Antes do confinamento, a integração entre etanol de cana e milho
A lógica começa dentro da própria usina. Incorporar o processamento de milho a uma operação de cana permite aproveitar o bagaço como fonte de energia e, conforme o projeto, compartilhar equipamentos, mão de obra e infraestrutura.
Em entrevista ao Money Times, Duff explicou que a necessidade de comprar biomassa é uma preocupação principalmente das plantas dedicadas exclusivamente ao milho, chamadas de full. Para as operações anexas às usinas de cana, a disponibilidade de bagaço oferece uma vantagem competitiva.
“Quando você tem milho e cana juntos, a biomassa é problema resolvido. É um menor custo significativo, mas não é uma diferença entre quebra e sobrevivência quando olhamos apenas para plantas full”, explica.
Duff cita São Martinho (SMTO3) e Cargill como exemplos desse aproveitamento, por meio de suas plantas flex. Ele ressalta, porém, que as grandes unidades dedicadas exclusivamente ao milho também se beneficiam de escala e ganhos de eficiência.
O desafio bilionário da biomassa
Segundo um estudo recente do Itaú BBA, a capacidade instalada de produção de etanol de milho no Brasil deve passar de 10,9 bilhões de litros, em 2025, para 25,3 bilhões, em 2030, avanço de 132%. Esse crescimento exigiria uma ampliação expressiva da oferta de biomassa.
Em Mato Grosso, a expansão das florestas de eucalipto para atender à demanda projetada exigiria investimentos estimados em R$ 7,6 bilhões. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, a conta poderia alcançar R$ 14,3 bilhões.
- Leia também: Etanol de milho cresce, mas enfrenta desafio bilionário com biomassa; solução está na cana-de-açúcar?
Para as usinas de cana que dispõem de bagaço excedente, há uma escolha econômica: utilizá-lo para gerar eletricidade destinada à rede, vender a própria biomassa ou direcionar energia ao processamento de milho. A decisão depende do retorno e dos investimentos exigidos por cada alternativa.
Duff pondera que, embora os projetos de integração continuem no radar das empresas, o cenário do setor e os juros elevados dificultam novos investimentos no curto prazo.
Mais produtos, melhor aproveitamento da estrutura
Para Werner Roger, CIO da Trígono Capital, combinar as atividades permite aproveitar melhor a estrutura industrial ao longo do ano e reduzir a dependência de biomassa comprada de terceiros.
Em novembro de 2025, Roger já havia classificado os riscos das operações de etanol de milho sem integração com a cana como uma “bomba-relógio armada”. O alerta incluía tanto o encarecimento da biomassa quanto a possibilidade de o milho subir sem uma valorização equivalente dos combustíveis.
“Sigo vendo esse problema para o etanol de milho e acho muito arriscado ter uma usina só de etanol de milho. A melhor solução é aquela que você tem cana consorciada. Se eu tiver açúcar, etanol de cana e etanol de milho, é a melhor solução”, disse em conversa recente com o Money Times.
Na avaliação de Roger, essa combinação permite utilizar a biomassa da própria cana para fornecer energia ao processamento do milho e ampliar o período de uso dos equipamentos, já que a safra canavieira ocupa cerca de sete a oito meses do ano. A operação também preserva a flexibilidade de direcionar mais cana à fabricação de açúcar quando os preços forem favoráveis.
O gestor vê espaço principalmente para acrescentar o processamento de milho às usinas de cana existentes. Nessas unidades, parte da energia hoje vendida à rede poderia ser consumida na produção adicional de etanol, conforme o retorno de cada alternativa.
A vantagem também aparece no investimento. Ao ampliar uma operação existente, a empresa pode aproveitar equipes, equipamentos, manutenção e infraestrutura logística, reduzindo o desembolso em comparação com uma unidade construída do zero, conhecida como greenfield.
“Meu investimento adicional ele é muito menor do que o Greenfield”, disse Roger. “Fazer uma usina nova Greenfield é muito mais caro do que um Brownfield usando uma estrutura que eu já tenho.”
Outro fator é a proximidade do mercado consumidor. Roger destaca que produzir no Sudeste pode reduzir a necessidade de transportar etanol de Mato Grosso e Goiás para a região. Ao mesmo tempo, avalia que o crescimento da demanda pelo milho e as melhorias nas rotas de exportação podem diminuir a vantagem de preço do grão no Centro-Oeste.
Para o gestor, a combinação desses fatores favorece o modelo que chama de “plantas flex híbridas”: cana, milho e açúcar integrados, com melhor aproveitamento da estrutura e diferentes alternativas de produção.
É a partir dessa lógica de diversificação que Rosa propõe avançar para o confinamento: além de combinar matérias-primas e produtos dentro da usina, incorporar à operação uma atividade que aproveite os coprodutos do milho.