O que vem depois da Selic a 14,50%? Incertezas em relação ao exterior devem ditar ritmo de ‘ajuste fino’ do BC
A decisão do Copom de reduzir a taxa Selic para 14,50% ao ano veio em linha com as expectativas do mercado e reforçou uma leitura predominante entre analistas de que o Banco Central segue em um ciclo de flexibilização, mas com ritmo gradual e forte dependência do cenário externo.
De forma geral, economistas avaliam que o comunicado manteve um tom cauteloso, com maior sensibilidade aos riscos globais, especialmente os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo e das commodities. Para eles esse foi um dos principais vetores de mudança na comunicação, elevando o grau de incerteza e exigindo maior prudência na condução da política monetária.
Na visão da Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, o BC “deu peso às incertezas relacionadas ao contexto externo mais adverso”, com destaque para a piora recente da inflação e das expectativas, que voltaram a se distanciar da meta. Ela também chama atenção para o risco de contágio inflacionário mais amplo, com possíveis efeitos secundários sobre outros preços da economia.
Leonardo Costa, economista do ASA, destaca a piora das medidas subjacentes de inflação, com núcleos voltando a acelerar, além da revisão da projeção do BC para o IPCA no horizonte relevante (4T27), agora em 3,5%, acima dos 3,3% anteriores, incorporando os efeitos do choque do petróleo. Apesar disso, o balanço de riscos foi descrito como elevado, mas mais equilibrado, com pressões tanto de alta (petróleo) quanto de baixa (desaceleração global).
Já o economista-chefe e estrategista de investimentos da Forum Investimentos, Bruno Perri, avalia que o comunicado trouxe um tom mais pessimista em relação ao cenário externo, mas sem surpresa para o mercado. Segundo ele, o BC “refletiu o cenário mais desafiador”, ao mesmo tempo em que manteve aberta a possibilidade de novos cortes, ainda que de forma gradual e condicionada aos dados.
Apesar do viés cauteloso, Perri destaca que o Copom não fechou a porta para a continuidade do ciclo de flexibilização, mas deixou claro que a trajetória dependerá da evolução da inflação, das expectativas e, sobretudo, do comportamento do petróleo e do câmbio.
Um ponto relevante destacado pelo ASA também é a mudança na linguagem do Copom, que passou a mencionar não apenas o “ritmo”, mas também a “extensão” do ciclo de cortes. Na prática, a leitura é de que o Banco Central abre espaço para ajustes não só na velocidade, mas também no tamanho total do ciclo, reforçando uma postura altamente dependente de dados. A expectativa predominante é de manutenção de cortes de 25 pontos-base por reunião, com possibilidade de encerramento mais cedo caso o cenário externo ou a inflação se deteriorem.
No consenso entre os especialistas, a leitura é de que o Banco Central mantém uma estratégia de “ajuste fino” da política monetária em que continua cortando juros, mas sem pressa e com elevada vigilância sobre o cenário externo.
Para o mercado, isso reforça um ambiente de maior seletividade nos ativos, com impacto direto sobre juros futuros, câmbio e a sensibilidade da bolsa a qualquer sinal vindo da inflação ou dos preços de commodities.