Oncoclínicas (ONCO3): Desafios persistem após Fleury e Porto desistirem de negociação, vê BTG; outra ação do setor pode se beneficiar
Em meio à pressão financeira que ameaça sua continuidade operacional, a Oncoclínicas (ONCO3) contava com algumas propostas na mesa que poderiam dar fôlego, no entanto, uma delas caiu por terra, e as ações reagem de forma mista ao desdobramento.
A Porto Seguro (PSSA3) anunciou ao mercado, na manhã desta terça-feira (14), o encerramento das negociações com a Oncoclínicas (ONCO3) para uma potencial operação que criaria uma nova empresa e traria algum fôlego financeiro para a rede de oncologia.
O movimento acompanha a desistência do Fleury (FLRY3), que havia se juntando à Porto nas negociações.
Por volta de 13h37 (horário de Brasília), as ações ONCO3 subiam 5,69%, cotadas a R$ 1,30, após ter caído até 11,38% mais cedo. Acompanhe o tempo real.
Na avaliação do BTG Pactual, esse desfecho já era parcialmente esperado, tendo em vista a situação financeira da Oncoclínicas.
“Dada a complexidade da transação e a profundidade do processo de due diligence, entendemos que o processo provavelmente evidenciou os desafios presentes na atual situação financeira da Oncoclínicas”, diz a equipe de analistas liderada por Samuel Alves.
O BTG destaca ainda que a companhia violou covenants de dívida no quarto trimestre de 2025 e atualmente se encontra com suspensão do pagamento do serviço da dívida.
Covenants nada mais são do que cláusulas contratuais presentes em empréstimos e debêntures que determinam níveis saudáveis em que a companhia deve se manter, como limite de endividamento. É uma maneira de proteger credores de inadimplência.
O índice de alavancagem da Oncoclínicas está em 4,3 vezes, acima dos limites de covenants. A quebra levou à reclassificação da dívida de longo prazo para o curto prazo, uma vez que os credores passaram a ter o direito de exigir o pagamento antecipado dessas obrigações.
“Em nossa visão, a combinação de elevado endividamento e potenciais passivos fora do balanço torna difícil para players bem capitalizados, como Fleury e Porto, avançarem com um aumento de capital sob condições de risco-retorno aceitáveis”, dizem os analistas.
Oportunidade para incumbentes
Em decorrência da situação na Oncoclínicas, o BTG vê um cenário favorável para incumbentes no setor de oncologia, especialmente a Rede D’or (RDOR3).
Desde a intensificação dos desafios operacionais da Oncoclínicas, no segundo semestre de 2025, o BTG observa a Rede D’Or capturando maior demanda, particularmente em terapias oncológicas.
“De acordo com reportagens locais, a Oncoclínicas teria atrasado tratamentos de mais de 6 mil pacientes, possivelmente devido a disrupções no fornecimento de medicamentos decorrentes de suas restrições financeiras”, dizem os analistas do banco.
Agora, com as negociações envolvendo Fleury e Porto encerradas, a expectativa é de continuidade dessa tendência, com incumbentes continuando a absorver essa demanda deslocada, potencialmente acelerando a partir de abril.
Vale lembrar que a Oncoclínicas enfrenta um cenário decorrente de uma expansão mal-sucedida. Em meio à investimentos em hospitais e crescimento no setor oncológico, a companhia se viu obrigada a recalcular a rota e retomar para o core business.
A empresa surgiu com tratamentos oncológicos como o core do negócio. No entanto, após o IPO em 2021, a Oncoclínicas expandiu o foco de clínicas que realizavam o diagnóstico e tratamentos como radioterapia e quimioterapia para uma parte de alta complexidade do tratamento oncológico.
Para fomentar a continuidade da expansão, a estratégia se voltou para aquisições de hospitais. O movimento, contudo, não deu certo, dada a falta de expertise para gerir outras áreas hospitalares além da oncológica.
Como resultado, a companhia, que chegou a adquirir três hospitais gerais e trabalhava na construção de três outros, vem lidando com piora nos resultados, alta alavancagem e elevado consumo de caixa.
Nesse processo, a companhia passou por diversas capitalizações e chegou a estar envolvida com o Banco Master, com parte de caixa da companhia aplicado em CDBs do banco de Daniel Vorcaro, que injetou capital na companhia.
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Desafios persistem
Apesar do encerramento da potencial operação envolvendo Porto Seguro e Fleury, a Oncoclínicas ainda tem caminhos no horizonte.
Isso porque, recentemente, houve o anúncio ao mercado de que o acionista MAK Capital Fund LP estaria interessado em realizar um aporte de aproximadamente R$ 500 milhões na companhia, com algumas condições.
A Oncoclínicas também confirmou o recebimento, no dia 24 de março, de uma oferta não vinculante de financiamento da Mak Capital Fund LP, da Lumina Capital Management e da Lumina Fund III GP (as duas últimas, em conjunto “Lumina”) no valor de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões.
A proposta se operacionalizaria por meio da constituição pela companhia de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) e da cessão de R$ 200 milhões de recebíveis ao FIDC.
“A oferta Mak/Lumina traz exigências de cessão de recebíveis e garantias inviáveis, tal qual a alienação fiduciária de ações de um hospital que não pertence mais à companhia. Neste momento, a administração está avaliando alternativas de estruturação de uma operação viável, que permita dar prosseguimento à negociação com a Mak e a Lumina”, disse a Oncoclínicas em comunicado.
O BTG Pactual mantém visão neutra para a Oncoclónicas. A avaliação é que a companhia ainda enfrenta um proceso complexo de reestruturação com seus credores e, mesmo com indicações de propostas alternativas que poderiam dar algum fôlego, a visibilidade permanece limitada neste momento.
“No setor de saúde, seguimos preferindo exposição a Rede D’Or e OdontoPrev, que consideramos bem-posicionadas para consolidar o ecossistema privado no Brasil, com potencial de expansão de múltiplos à medida que capturam oportunidades decorrentes da mudança do cenário do setor de saúde”, diz o BTG.
Oncoclínicas ajuiza ação de tutela cautelar
Nesta terça-feira (14), a Oncoclínicas anunciou que ajuizou a ação de tutela cautelar em caráter antecedente perante o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Por meio do mecanismo, a empresa, junto com suas afiliadas, pede a suspensão liminar dos efeitos de todas as cláusulas contratuais que imponham o vencimento antecipado de dívidas, além de suspender a exigibilidade das obrigações referentes aos instrumentos financeiros e as instituições relacionadas.
De acordo com a Oncoclínicas, a decisão de entrar com um pedido de tutela cautelar visa criar um ambiente administrativo e financeiro mais organizado e estável, permitindo a mediação e negociação com seus credores sem paralisar as atividades ou alterar a condução do negócio.
“A companhia esclarece que permanece operando normalmente e continua empenhada em manter conversas positivas com seus credores visando ao atingimento de um acordo que seja benéfico a todos os seus investidores”, diz.