Cervejas

Como a Catharina Sour colocou o Brasil no mapa mundial da cerveja

30 maio 2026, 9:30 - atualizado em 26 maio 2026, 17:18
Cerveja de pinhão
A Catharina Sour se inspirou na Berliner Weisse, estilo alemão consolidado entre os séculos 16 e 19, conhecido pela leveza e pela acidez suave (Imagem: Pixabay/spooky_kid)

O Brasil levou décadas produzindo cerveja antes de criar um estilo próprio. Quando criou, foi com frutas que os europeus nunca tinham colocado num tanque de fermentação.

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Elas são reflexo da receita da Catharina Sour, o primeiro estilo de cerveja genuinamente brasileiro e um representante das sours, cervejas definidas por um perfil ácido produzido por processos de fermentação que as convencionais tradicionalmente tentam evitar.

A Catharina Sour se inspirou na Berliner Weisse, estilo alemão consolidado entre os séculos 16 e 19, conhecido pela leveza e pela acidez suave.

A diferença está na flexibilidade dos ingredientes: enquanto a alemã segue uma receita relativamente estável, a brasileira foi concebida desde o início como um estilo adaptável à biodiversidade local.

Por isso é possível adicionar frutas durante a fermentação, como maracujá, goiaba, jabuticaba, pitanga, acerola, araçá e várias outras. Cada fruta altera o aroma, a cor e o sabor da cerveja.

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Uma versão com pitanga pode adquirir tonalidade vermelha intensa; a de maracujá tende ao amarelo-alaranjado. É essa abertura à diversidade regional que tornou o estilo único.

Para entender o que faz a Catharina Sour ser diferente, ajuda saber o que separa as sours das cervejas mais populares no país. A maioria das marcas vendidas em supermercados no Brasil pertence à família lager. Essas são bebidas leves, pouco ácidas e fermentadas em baixas temperaturas. As ales, mais comuns no mercado artesanal, fermentam em temperaturas mais altas e produzem perfis aromáticos mais complexos. Já as sours têm como característica principal a fermentação ácida.

Essa acidez vem principalmente de bactérias do gênero Lactobacillus, as mesmas presentes na produção de iogurte e queijo.

No processo mais comum para fazer a Catharina Sour, essas bactérias são adicionadas ao líquido após a primeira fervura. Elas trabalham por horas reduzindo o pH da mistura até uma faixa que equilibra frescor e facilidade de consumo sem tornar a cerveja agressiva ao paladar.

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Depois, o líquido é fervido novamente para interromper sua ação, e só então a levedura entra em cena para produzir álcool. O tipo de acidez gerado nesse processo é associado a uma sensação suave e refrescante, diferente da acidez que remete ao vinagre, considerada defeito na maioria dos estilos.

Para quem não está acostumado, o perfil ácido pode causar estranhamento. Para os apreciadores, é justamente o principal atrativo.

A percepção varia conforme a temperatura da cerveja e a presença de açúcares residuais, fatores que os cervejeiros controlam para equilibrar a experiência sensorial. O resultado costuma ser uma cerveja leve, efervescente e refrescante, com final seco.

Criação da Catharina Sour

A história começa por volta de 2014, quando cervejeiros de Santa Catarina passaram a experimentar uma receita que misturava técnicas europeias com frutas tropicais locais.

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A parceria entre cervejarias e pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina foi decisiva para aprimorar as técnicas de produção e validar o estilo cientificamente.

Em agosto de 2016, a Associação das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (ACASC) reuniu mais de 20 produtores em um workshop para definir as características do estilo e estimular sua produção. Foi ali que a cerveja recebeu o nome Catharina Sour, em referência ao estado catarinense onde surgiu.

O contexto foi favorável ao seu desenvolvimento. O mercado cervejeiro brasileiro cresceu de forma expressiva nas últimas décadas. Segundo o Anuário da Cerveja 2024, do Ministério da Agricultura, o Brasil contava com 1.847 cervejarias registradas em 2023, crescimento de 6,8% em relação ao ano anterior, e a produção total chegou a cerca de 15 bilhões de litros.

Em 2021, as dez marcas mais vendidas do país ainda concentravam 59% da produção — proporção que era de 70% em 2014, indicando o avanço gradual das cervejas especiais no mercado.

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A expansão da Catharina Sour também acompanha mudanças no perfil do consumo. Com teor alcoólico moderado, alta carbonatação e presença de frutas, o estilo passou a ocupar um espaço próximo ao de coquetéis, vinhos leves e bebidas fermentadas ácidas, aproximando consumidores que tradicionalmente não se identificavam com cervejas mais amargas ou lupuladas.

O reconhecimento internacional veio em etapas. O estilo foi incluído provisoriamente no guia do Beer Judge Certification Program (BJCP) em 2018 e confirmado oficialmente em 2021.

O BJCP é uma organização americana sem fins lucrativos que classifica estilos de cerveja para competições ao redor do mundo.

Fazer parte do BJCP significa que a Catharina Sour pode ser julgada em qualquer competição internacional que siga os critérios da entidade.

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Assim, o Brasil passou a ter um estilo próprio num mercado historicamente dominado por tradições europeias.

Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista científica Food Chemistry Advances, assinado por pesquisadores da UFSC, da Universidade de Brasília e da Universidade Técnica de Munique, registrou que as inscrições de Catharina Sour no Brasil Beer Cup — principal concurso nacional do setor — cresceram 70% entre 2021 e 2024.

O estilo já reúne participantes de Buenos Aires, Montevidéu e Santiago, sinalizando uma expansão que começa a ultrapassar as fronteiras brasileiras.

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