Onde investir na renda fixa? UBS vê apenas uma oportunidade no momento
O UBS vê nos títulos indexados à inflação a principal oportunidade na renda fixa brasileira neste momento. Com juros reais ainda elevados e incertezas fiscais no radar, o banco avalia que esses papéis oferecem uma combinação de remuneração atrativa e proteção contra uma eventual piora das expectativas de inflação.
No relatório Investing in Brazil, divulgado recentemente, o banco classifica os títulos ligados à inflação como “atrativos”, enquanto mantém uma visão “neutra” tanto para os papéis prefixados quanto para os pós-fixados.
Segundo o UBS, os juros reais oferecidos pelos títulos de inflação seguem elevados em relação aos padrões históricos. Ao mesmo tempo, esses ativos funcionam como uma proteção caso a incerteza fiscal mantenha as expectativas de inflação pressionadas.
Por que neutros?
Nos títulos prefixados, o UBS adota uma postura mais equilibrada. As taxas atuais são consideradas atrativas e os papéis podem se beneficiar da desaceleração da economia brasileira e da continuidade do ciclo de cortes da Selic.
O banco avalia que a comunicação cautelosa do Comitê de Política Monetária (Copom) não permite assumir um ciclo agressivo de redução dos juros. Além disso, a incerteza fiscal, a volatilidade do câmbio e as expectativas de inflação ainda resistentes podem manter a taxa terminal da Selic elevada.
Por isso, embora enxergue potencial de valorização dos prefixados caso a trajetória da dívida pública apresente uma melhora crível, o UBS recomenda uma exposição seletiva ao risco de duration. Uma deterioração fiscal, por outro lado, poderia anular parte dos ganhos proporcionados pela queda dos juros.
Já os pós-fixados continuam oferecendo um carry atrativo, mas começam a perder parte da vantagem relativa à medida que a Selic recua. Ainda assim, o banco considera esses instrumentos úteis para liquidez e flexibilidade das carteiras.
Selic cai, mas fiscal limita espaço
A leitura para a renda fixa está diretamente ligada ao cenário traçado pelo UBS para a economia brasileira.
Na reunião de setembro, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Para o banco, o comunicado reconheceu de forma mais clara a perda de força da atividade e a melhora da inflação, mas manteve preocupações com as expectativas de longo prazo, inflação de serviços, câmbio e riscos fiscais.
O UBS considera o tom do BC compatível com a continuidade do ciclo de cortes, inclusive potencialmente na próxima reunião, desde que o cenário não se deteriore. A instituição ressalta, porém, que o tamanho total desse ciclo deve depender menos da desaceleração do PIB isoladamente e mais da combinação entre expectativas de inflação, preços de serviços, salários, câmbio e prêmio fiscal.
A economia já dá sinais mais claros de perda de fôlego. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, ante 1,1% nos três primeiros meses do ano, com enfraquecimento do consumo das famílias, da indústria e dos serviços. Juros elevados e o endividamento de famílias e empresas continuam restringindo consumo e investimento.
Para o UBS, porém, é o quadro fiscal que pode definir até onde os juros conseguem cair e, consequentemente, o desempenho da renda fixa.
Apesar do avanço das receitas, as despesas federais cresceram 6,2% entre janeiro e julho, enquanto os gastos discricionários avançaram 44,6%. A dívida bruta chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,95 trilhões, e o déficit nominal acumulado em 12 meses alcançou 9,3% do PIB.
Na avaliação do banco, medidas temporárias de aumento de arrecadação dificilmente serão suficientes para estabilizar a dívida sem mudanças estruturais nas despesas.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar a preferência pelos títulos de inflação: o cenário de desaceleração e queda da Selic favorece a renda fixa de maior duration, mas o risco fiscal ainda recomenda manter proteção contra uma eventual reabertura das expectativas de inflação.
Para o UBS, a credibilidade fiscal, mais do que os movimentos cíclicos da economia, deverá determinar a trajetória dos prêmios de risco dos ativos brasileiros.